As flores da Encenadora...

(foto de JGF)


O grande escritor, que muitas vezes vi vagueando pelos corredores da minha Faculdade, Eduardo Prado Coelho, registou, um dia, as palavras sábias: "O teatro é uma dimensão da poesia, isto é, a mais alta tentativa de conseguir que cada um de nós se envolva na verdade que não existe..." Mas existe! A mais pura verdade é que existe no pulsar de cada um de nós, os verdadeiros actores, neste palco da vida.

Hoje vesti dois papéis, de guarda-roupa que se confunde, de personagens afins. Autora e Encenadora. Não sei em que momento da minha vida senti uma necessidade imensa de escrever teatro. Foi, talvez, a tal dimensão da poesia a transpirar do meu ser. Quis-me envolver numa verdade por mim criada, por mim encenada, mas nunca por mim vivida.

Nunca me senti capaz de subir a um palco. De assumir um outro que não eu. É ridículo o que digo, afinal criei centenas de personagens, neste passar efémero do tempo. Centenas de outros, que me completam nesta certeza de que saíram de mim.
Imagino personagens em qualquer situação de vida, quando, nas minhas noites de insónia, me recuso a contar carneiros; quando, em dias de teste, no silêncio atroz, me delicio inventado tramas e dramas; quando viajo, ao volante do meu companheiro automóvel. Mas nunca consegui subir a um palco. Serei talvez péssima actriz, porque tenho um papel intrínseco, difícil de despir: eu!

Eu autora, hoje, ri do meu texto. Afinal era uma comédia. Reconheço, naquela ausência de humildade que os meus me reconhecem, que era de não envergonhar ninguém. Eu encenadora, hoje, incentivei, animei, dei os parabéns aos meus Aprendizes do Fingir! Sem eles, o texto seria apagado, na memória de palavras não vividas, não sentidas, não representadas.

No final, os aplausos, da plateia desconhecida, da plateia conhecida... contudo, os únicos audíveis, no fundo do meu coração, foram os dos meus lindinhos. Flores. Flores para mim. Murcharão, decerto - ficarão feitas memórias na minha vida, sem dúvida. Mais uma vez.
O teatro é poesia... o sentimento partilhado, as emoções vivenciadas, o eu que se expõe.
Fiz acontecer teatro...fruto da poesia escondida em mim.

Obrigada a todos os que hoje sorriram para mim, nessas presenças que iluminam o palco da minha existência.

2 comentários:

Paola disse...

É tarde ou cedo, nem sei. Lá fora oiço vozes que perpetuam cânticos de aniversário... Cá dentro, ouço-te e sinto-te nas vozes dos teus "lindinhos". Eles preencheram as tuas palavras. Eles imitaram os teus gestos. Eles disseram a cumplicidade que edificaram contigo. Por isso, se calhar por nada disso, ofereceram-te flores. Que mereceram. Tu e eles. E os aplausos!

Bjos

Sr Joao disse...

Bela descrição.