Antestreia...
Ensaio pelo Alentejo...
(Fotos de GMV -Milfontes)
Ensaio sobre "nós"...
Uma representação teatral será sempre mais rica, quanto maior for o tempo dedicado à complexidade das relações humanas. Desde as grandes tragédias gregas, às densas peças de Shakespeare, que uma boa peripécia passa por essa luta constante entre "um" e "outro". Leia-se homem e mulher, homem e homem, mulher e mulher. Relações humanas. Muitas vezes, nessas peças de cinco actos, o verdadeiro clímax surgia com o eterno desencontro, ou com o efémero encontro. Teatro, já se vê!
E no palco improvisado desta nossa existência? Provavelmente, a asserção devia ser a mesma.
Peguemos num exemplo mitificado de uma relação que, sendo produto de uma criativa ficção helénica, podia muito bem ilustrar algumas "cenas" na peça real. Eco e Narciso. O mito é simples. Narciso, dono de uma beleza incomparável, arrastava paixões. Eco, ninfa há muito castigada por ser "tagarela", apaixonou-se pelo dito. Perseguia-o por todo o lado, mas incapaz de comunicar com ele. Ele ignorava-a, ostentando com segurança a sua beleza. Eco perdeu a vontade de viver, até que se transformou numa rocha. As outras ninfas pediram castigo exemplar para o elemento masculino. Assim foi. Castigado a ter um amor impossível. Um dia viu a sua imagem reflectida num rio e apaixonou-se por ela. Nunca mais conseguiu tirar os olhos da sua imagem, até que definhou e morreu.
Os gregos eram espantosos! Tanta conversa para chegar à brilhante conclusão que, por vezes, as relações humanas são autênticos desencontros. Eu acrescentaria, se me é permitido, que o grande problema reside na dificuldade que as pessoas têm de dizer "nós". Vive-se, narcisicamente, na sociedade do "eu". O ser humano isola-se, por opção egoísta, em si mesmo, esquecendo que temos uma necessidade intrínseca de nos darmos ao outro. Já alguém dizia que ninguém consegue viver só, ou então é uma besta, ou um deus.
Mas insistimos nessa autêntica representação do "eu". Eu sou. Eu posso. Eu quero. No Teatro não aprecio monólogos. Podem ser alvo de magníficas críticas, podem ser o momento alto na carreira de um actor. Contudo, quando assisto a este tipo de peça, acho que falta sempre qualquer coisa. Falta o outro. Aquele que permite todo o despique verbal, toda a essência da linguagem que criou três pessoas e não uma. Que só entende um "eu" em função de um "tu" e, de preferência, que fale de um "ele".
Qualquer mito faz-nos pensar. O de Eco e Narciso traz-me ao pensamento duas ilações. Que é difícil viver sem poder comunicar (Eco). Que colocar no centro da nossa existência a nossa própria pessoa pode levar à não existência (Narciso).
Hoje, no meu singelo palco, sou pela pluralidade de um nós, que respeite a singularidade do meu eu.
Ensaio sobre representações
(No Rio Coura)
Das pessoas existentes.
Algumas vão ter ensejos,
Outras vão mudar de fato,
E outras são inteligentes.
Não conheço ali ninguém.
Nem a mim eu me conheço.
Olho-os sem nenhum desdém.
Também vou mudar de fato.
Também vivo e também esqueço.
Passam na rua comigo,
E eu e eles somos nós.
Todos temos um abrigo,
Todos mudamos de fato,
Ai, mas somos nus a sós.
Ensaio sobre apartes...
O sangue da terra...
Não vou dizer que passei a noite em claro preocupada com a sociedade, cada vez mais violenta; ou com a possibilidade de se iniciar uma guerra "quente" (para não repetir a fria) no Cáucaso; ou ainda desiludida com a prestação olímpica das gentes afonsinas. Não. Tenho preocupações mais válidas: as minhas (e num acto de puro egoísmo, não as partilharei).
Serve este início para explicar porque tive um dia diferente. Levantei-me com vontade de fazer algo que me preenchesse a alma. Que me aquecesse o sangue. Ora bem, diz o povo minhoto que "A água é o sangue da terra". Impregnada de uma vontade de sentir o "sangue" correr, partimos, eu e o meu companheiro de viagem, para uma verdadeira homenagem à Água.
Não foi preciso ir para muito longe. Nesta terra, a água brota a cada canto, jorra do monte, serpenteia pelos caminhos, gargalha por entre os seixos, murmura escondida na sombra dos pinheiros.
Fomos. Primeira paragem, no silêncio contemplativo de um rio. Diria o povo chinês que "O rio entrega todas as suas águas ao oceano e nem por isso está vazio". Verdade. Ia cheio...
Seguimos. A terra é conhecida pela sua dedicação à cultura, à arte.
Também, reconhecida pela sua religiosidade, que eu não entendo. Pelo menos, não nesta forma de apresentar Cristo!
A elegante e tradicional Vila tem um Aqua Museum! Estivemos, claro, reverenciando a dita fonte de vida, o verdadeiro sangue da terra.
O dia ia longo, neste palco de procura. Senti que estava próximo o que almejava, desde manhã. Deixámos a cultural vila, à beira rio erigida e voámos(?!) em direcção à última paragem. Antes de o ver, já se ouvia o seu bramir. Estava bravo, sem dúvida. Revolto pelas preocupações dos dias. O Mar. Fui ver o Mar. Sentir a sua imensidão. A sua força. Deixar que a sua energia, feita espuma branca, me inundasse, por breves momentos que fossem. O Mar... Inspirei o ar salgado. Repus o meu equilíbrio.
O dia revelou-se quase uma demanda. Na peça faltava o protagonista. Surgiu, na sua magnitude, perto do fim do dia. Pude então regressar, com nova alma, com o sangue fervendo de vida. Hoje, vou talvez dormir.
Bons passeios.
No intervalo: romarias...
(foto da net - constelação de escorpião)No intervalo: sentires...
No intervalo: leituras...
Ensaio sobre férias...
Ensaio sobre gostos...

Ensaio sobre a criação...
(foto de GMV)Ensaio sobre o futuro...
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Ao chegar a casa, a vontade de fazer qualquer coisa aproveitável era nenhuma. À distância de um telefonema, combinei a saída. Desejava a noite, com a sua brisa reparadora, com a sua cor que não ofusca, com a companhia perfeita.
Junto ao rio, o descanso ganhou sabores de conversa, sons de bebida fresca.
O meu companheiro é dado a uma boa cavaqueira, de preferência raiada de contornos filosóficos. E rapidamente chegámos ao âmago da questão: e o fututo?
Não sou pelo futuro, aliás, quando, no meio de uma aula, é premente explicar o tempo, aos meus lindinhos, transformo o futuro num automático presente. É difícil tornar inteligível a noção do tempo. Um presente que logo deixou de o ser, porque já passado... um futuro que nunca o será, porque sempre presente...
Não gosto de pensar no fututo. Sou pela vivência de cada dia, como se fosse o único. Não gosto de pensar o amanhã. Sou pelo agora, se possível já. Talvez por isso planificar seja um trabalho penoso. Como marcar algo para daqui a uns dias? Como dar por adquirido que se quer ir? Que a disposição se mantém? Que não surgiu algo mais importante para fazer?
Não gosto de longo prazo. Sou pela validade diária, sem corantes, nem conservantes. Fui interrompida pela pergunta incrédula: Estás bem? Claro que estou bem, só manifesto o meu pensar confuso, porque sou assim. A noite estava agradável, o rio escuro espelhava o céu, com poucas estrelas visíveis, por ser um céu de cidade. Ah, que saudades do céu do meu monte, ponteado de pequenas luzes...
Entre uma bebida e uma gargalhada, lá continuou a conversa sobre o porvir. Argumentei, clarifiquei, pedi explicações... nada me convenceu. O futuro não existe. O meu tempo é sempre presente. Tenho de acompanhar o meu tempo, tenho de o sentir passar, tenho de gastá-lo. E isso, meu amigo, só é possível no agora...sempre agora, sempre presente.
E amanhã o que fazes? (já na despedida) Amanhã, quando for hoje, te direi.
Agora, vou dormir!
Despedidas breves...
" Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser..."
Álvaro de Campos
