Antestreia...

(Quinta dos Lilases - Lisboa - foto de GMV)

A representação que antecede a estreia tem a sua importância. Procuram-se os primeiros comentários, verbalizam-se as primeiras críticas. A plateia diz-se entendida, conhecedora das cenas e dos actos. A sala enche. Afinal, quem vem foi escolhido pelas provas dadas no assunto. O espectáculo pode terminar nesse dia, ou seguir o seu natural percurso rumo ao sucesso. Depende da boa vontade, da disposição do público.

Serve o intróito para antecipar essa temporada que se diz lectiva. O sucesso de mais um ano, vai estar subordinado a esse momento de "antestreia". O público docente chegará ao teatro escolar desconfiado. Resultado de um espectáculo anterior que somou fracassos atrás de fracassos. Mostrar-se-á magoado também, pela surdez às críticas tão bem redigidas e tornadas verbais, ao longo de todo um ano. No fundo, o conhecimento deste público não encontrou qualquer eco nessa encenadora prepotente, disfarçada de anjo condescendente perante as câmaras da comunicação social.

As aulas vão começar. Num cenário que não mudou, salvar-se-ão os Aprendizes de Actor, no papel de alunos, a quem os professores, como eu, desejarão ensinar.

Ensaio pelo Alentejo...


Já, muitas vezes, neste meu palco, ensaiei sobre locais que gosto. É certo que quase todos no Minho, quase todos pintados de verde, quase todos rodeados de majestosos picos de Natureza.

Nesta semana, que antecede a nova temporada lectiva, ando por outros palcos. Ontem, foi dia de ir ver o mar vicentino. Curiosa a expressão, dita assim. Vicentino é o teatro! Ornado de personagens-tipo, fazendo rir pelos costumes, criticando o Mundo. Este e até o outro.

"Ridendo castigat mores" era o lema de Gil Vicente. Claro que nada disto vem a propósito do Alentejo, mas os ensaios são como as cerejas... pelo menos comigo.

Ora bem, ontem foi dia de visita. No Alentejo costeiro. Confesso que não é o meu preferido. Gosto das vilas e aldeias perdidas na raia... do sossego das terras mouras, não selvaticamente ocupadas pelos turistas. Gosto dos postigos nas portas das casas que reflectem a brancura da cal. Gosto das cadeiras à soleira da porta, em noites quentes de conversas cantadas. Gosto dos tons amarelos da planície, ponteada na lonjura de pequenos "montes".

Ontem, o Alentejo cheirava a mar. Espreitava as gaivotas inquietas pela multidão. Resguardava os barcos coloridos no porto de pesca.

Ontem, o Alentejo foi um mero pretexto. Para a partilha desta amizade que não escolhe localidades, nem tem medo de distâncias.



(Fotos de GMV -Milfontes)

Ensaio sobre "nós"...

(Ηχώ και Νάρκισσος - Eco e Narciso - de Carlo Rochas)

Uma representação teatral será sempre mais rica, quanto maior for o tempo dedicado à complexidade das relações humanas. Desde as grandes tragédias gregas, às densas peças de Shakespeare, que uma boa peripécia passa por essa luta constante entre "um" e "outro". Leia-se homem e mulher, homem e homem, mulher e mulher. Relações humanas. Muitas vezes, nessas peças de cinco actos, o verdadeiro clímax surgia com o eterno desencontro, ou com o efémero encontro. Teatro, já se vê!

E no palco improvisado desta nossa existência? Provavelmente, a asserção devia ser a mesma.

Peguemos num exemplo mitificado de uma relação que, sendo produto de uma criativa ficção helénica, podia muito bem ilustrar algumas "cenas" na peça real. Eco e Narciso. O mito é simples. Narciso, dono de uma beleza incomparável, arrastava paixões. Eco, ninfa há muito castigada por ser "tagarela", apaixonou-se pelo dito. Perseguia-o por todo o lado, mas incapaz de comunicar com ele. Ele ignorava-a, ostentando com segurança a sua beleza. Eco perdeu a vontade de viver, até que se transformou numa rocha. As outras ninfas pediram castigo exemplar para o elemento masculino. Assim foi. Castigado a ter um amor impossível. Um dia viu a sua imagem reflectida num rio e apaixonou-se por ela. Nunca mais conseguiu tirar os olhos da sua imagem, até que definhou e morreu.

Os gregos eram espantosos! Tanta conversa para chegar à brilhante conclusão que, por vezes, as relações humanas são autênticos desencontros. Eu acrescentaria, se me é permitido, que o grande problema reside na dificuldade que as pessoas têm de dizer "nós". Vive-se, narcisicamente, na sociedade do "eu". O ser humano isola-se, por opção egoísta, em si mesmo, esquecendo que temos uma necessidade intrínseca de nos darmos ao outro. Já alguém dizia que ninguém consegue viver só, ou então é uma besta, ou um deus.

Mas insistimos nessa autêntica representação do "eu". Eu sou. Eu posso. Eu quero. No Teatro não aprecio monólogos. Podem ser alvo de magníficas críticas, podem ser o momento alto na carreira de um actor. Contudo, quando assisto a este tipo de peça, acho que falta sempre qualquer coisa. Falta o outro. Aquele que permite todo o despique verbal, toda a essência da linguagem que criou três pessoas e não uma. Que só entende um "eu" em função de um "tu" e, de preferência, que fale de um "ele".

Qualquer mito faz-nos pensar. O de Eco e Narciso traz-me ao pensamento duas ilações. Que é difícil viver sem poder comunicar (Eco). Que colocar no centro da nossa existência a nossa própria pessoa pode levar à não existência (Narciso).

Hoje, no meu singelo palco, sou pela pluralidade de um nós, que respeite a singularidade do meu eu.

Ensaio sobre representações


Quem me conhece, ou quem tem passado neste espaço de mim, sabe o quanto eu gosto de teatro. O verdadeiro. O Teatro. A minha ligação a esta manifestação artística passa por ser encenadora, por vezes cenógrafa, aderecista, sonoplasta, mas acima de tudo, dramaturga. O nome, de origem grega, soa a desactualizado e o drama já não é aquilo que era. Escrevo peças de teatro... com gosto.

Só existe algo que eu nunca fiz: representar! Sou péssima actriz. Nunca consegui deixar de ser eu, para assumir uma qualquer personagem. Por vezes, durante um ensaio, e na falta de algum dos meus actores, já subi ao palco, mas sei que não saí de mim. Continuei a ser o que sempre sou. Não sei fingir?

No palco da vida parece mais fácil. Ainda há pouco, depois do almoço, representei exemplarmente uma cena. Verdade. Merecia aplausos de pé!

Dei por mim a pensar que, ao longo de um dia de existência, representamos tão bem os nossos vários papéis. Somos contínuos actores. Fingimos magnificamente na vida.

O que me leva, então, a não gostar de subir ao palco e ser uma outra que não eu?

Resolvi afastar-me um pouco da minha companhia do repasto, do meu público, enfim! Desci a íngreme encosta e procurei o rio. Apetecia-me ficar só. Sem papéis, sem fingir, sem aplausos... "despir o fato".

O cenário natural embelezava o palco... perdi-me nos meus pensamentos, ao sabor do meu olhar.

O mais curioso foi a irónica resposta dada pela Natureza, às minhas silenciosas perguntas. De repente, percebi que estava a olhar não para o céu azul, mas para o reflexo do céu na água; não para as frondosas árvores, mas para o reflexo do verde na água; não para a ponte que me levaria para outro lado, mas para o reflexo desta passagem na água! E continuava tudo tão belo. O real e o reflexo do real confundiam-se.


(No Rio Coura)


Seria a minha resposta? No palco real serei o reflexo de mim? Fingir é ser verdadeiro? Se um actor é mais aplaudido, quanto maior for o seu fingimento, porque não o reconhecimento também no palco da vida, quando representamos os nossos papéis?

Tanta reflexão é fruto, sem dúvida, da ociosidade das férias!
De qualquer forma, as palavras do meu adorado Pessoa teriam simplificado este ensaio.
Ficam, para que conste que era só isto que me apetecia dizer...

Passam na rua os cortejos
Das pessoas existentes.
Algumas vão ter ensejos,
Outras vão mudar de fato,
E outras são inteligentes.

Não conheço ali ninguém.

Nem a mim eu me conheço.
Olho-os sem nenhum desdém.
Também vou mudar de fato.
Também vivo e também esqueço.

Passam na rua comigo,

E eu e eles somos nós.
Todos temos um abrigo,
Todos mudamos de fato,
Ai, mas somos nus a sós.

Ensaio sobre apartes...

(No rio Minho)

Numa peça de teatro, alguns dos momentos mais interessantes podem provir dos chamados apartes. Profere-se uma palavra, uma frase, um pensamento, que não é suposto ser ouvido pelas outras personagens que interagem em cena.

Ora bem, qual é a intenção? Muitas vezes, fazer rir, outras não é mais do que uma voz da consciência... que se dispara em direcção ao público. Isto no teatro. E no palco da vida?

Neste palco que eu enceno, não raras vezes os apartes assumem o papel de texto principal. Clarifico (se conseguir!). É frequente assistir a conversas onde o objectivo de cada interveniente não é ouvir o outro, mas tão somente ouvir-se. Neste contexto, as palavras dos outros são sempre apartes, que não integram o texto representado. Outras vezes, no decorrer de um diálogo, o interlocutor finge não entender o outro. Como se, sistematicamente, fizesse apartes em cima do palco.

(A vida, por vezes, assemelha-se a um arco-íris, que só se realiza em contexto específico, que não mistura cores, que dura tão pouco...)

A vida, muitas vezes, não lembra o arco-íris, parece mais um aparte. Uma fala dita para fora da cena, que não permite retorno.

Nesta confusão de ideias, o que pretendo dizer é que fico furiosa, quando digo algo a alguém e esse alguém continua o seu monólogo, como se eu não tivesse dito nada, como se não fosse importante... ou então, pior ainda, quando alguém pega nas minhas palavras para lhes dar outro sentido, fingindo não entender a denotação tão clara dos meus ditos.

Neste palco da vida, é difícil explicar aos actores que, para que a peça mereça os aplausos, é fundamental que oiçamos os outros. Só assim apanharemos a deixa, e não esqueceremos o nosso papel.


Boas conversas. (ainda de férias)

O sangue da terra...


Ao fim de uma semana de boa vida, ou seja, de férias, de excessos, de desvarios, de nada, de tudo, tive mais uma das minhas insónias. Parece rídículo falar aqui da minha relação atribulada com o sono, até porque já me habituei a ela. Curiosamente, quando chego a estas paragens nortenhas, costumo ter uma benesse. Durmo. Mas ontem não!
Não vou dizer que passei a noite em claro preocupada com a sociedade, cada vez mais violenta; ou com a possibilidade de se iniciar uma guerra "quente" (para não repetir a fria) no Cáucaso; ou ainda desiludida com a prestação olímpica das gentes afonsinas. Não. Tenho preocupações mais válidas: as minhas (e num acto de puro egoísmo, não as partilharei).
Serve este início para explicar porque tive um dia diferente. Levantei-me com vontade de fazer algo que me preenchesse a alma. Que me aquecesse o sangue. Ora bem, diz o povo minhoto que "A água é o sangue da terra". Impregnada de uma vontade de sentir o "sangue" correr, partimos, eu e o meu companheiro de viagem, para uma verdadeira homenagem à Água.
Não foi preciso ir para muito longe. Nesta terra, a água brota a cada canto, jorra do monte, serpenteia pelos caminhos, gargalha por entre os seixos, murmura escondida na sombra dos pinheiros.
Fomos. Primeira paragem, no silêncio contemplativo de um rio. Diria o povo chinês que "O rio entrega todas as suas águas ao oceano e nem por isso está vazio". Verdade. Ia cheio...

Seguimos. A terra é conhecida pela sua dedicação à cultura, à arte.


Também, reconhecida pela sua religiosidade, que eu não entendo. Pelo menos, não nesta forma de apresentar Cristo!

Bem, já se vê que a visita resultou em reportagem fotográfica, (não é um fotoblogue, pena!), contudo, o nosso propósito mantinha-se. Água. Perpassámos na homenagem ao provérbio "Água mole em pedra dura tanto bate até que fura". Tão verdade. Só não consigo destrinçar facilmente quando sou água, quando sou pedra!...

A elegante e tradicional Vila tem um Aqua Museum! Estivemos, claro, reverenciando a dita fonte de vida, o verdadeiro sangue da terra.


O dia ia longo, neste palco de procura. Senti que estava próximo o que almejava, desde manhã. Deixámos a cultural vila, à beira rio erigida e voámos(?!) em direcção à última paragem. Antes de o ver, já se ouvia o seu bramir. Estava bravo, sem dúvida. Revolto pelas preocupações dos dias. O Mar. Fui ver o Mar. Sentir a sua imensidão. A sua força. Deixar que a sua energia, feita espuma branca, me inundasse, por breves momentos que fossem. O Mar... Inspirei o ar salgado. Repus o meu equilíbrio.

O dia revelou-se quase uma demanda. Na peça faltava o protagonista. Surgiu, na sua magnitude, perto do fim do dia. Pude então regressar, com nova alma, com o sangue fervendo de vida. Hoje, vou talvez dormir.

Bons passeios.

No intervalo: romarias...

(foto da net - constelação de escorpião)


É do conhecimento geral que, durante o mês de Agosto, há perto de 300 romarias no Alto Minho! Um exagero, bem sei... quer dizer, o reflexo de um país que se diz católico, por isso aproveita as férias para pedir perdão!

Não sou católica. Aliás, não sei que sou, porque nunca me dediquei a pensar muito nisso. Não gosto de religiões. Costumo dizer, em ar de brincadeira séria, que sou crente: creio em mim! Pretensão? Não sei.

Voltando às romarias. Acabei de chegar de mais uma. O que mais aprecio, nestas festas tão populares, é o fim do dia, ou o princípio da noite, ou a própria noite, quando, no escuro dos céus, estalam foguetes armados em arte de cor. As pessoas olham, talvez pela primeira vez no dia, para o alto. O fogo de artifício. Que ofusca por momentos a imensidão de um céu negro... a sua cor real. Aquela que permite ver constelações cheias de estrelas.

Quando era pequena, não havia electricidade aqui nestas paragens. O meu passatempo, à noite, era olhar o céu deitada ao relento. O meu pai, achando-se o maior conhecedor de astronomia, ia nomeando e apontando os desenhos no céu (hoje sei que inventando, também). Eu gostava dos nomes: Sete Estrelos, Três Marias, a Carroça... bem, eu olhava e contava. "Não se contam as estrelas!" dizia ele. Nunca perguntei porquê, mas o Santo aqui do pequeno burgo é dedicado a tirar cravos dos dedos (suponho que por muita gente apontar às estrelas).

Olhar o infinito céu é também um acto de crença. Uma espécie de veneração perante a essência do Universo. Perante o sentido da vida.

Voltando às romarias. Os andores saem em procissão. O folclore sapateia em estrado improvisado. As bandas tocam ao despique. Os bombos percorrem ruas rodeados de gigantones. O baile anima-se pela voz do grupo jovem e espanhol (quase tanto como o meu Benfica!). Comem-se farturas, roscas e papudos. Mas o que eu gosto mesmo é do fogo de artifício. Esse hino gritado em cor, que só tem beleza, porque a tela é o misterioso firmamento.

Quem vai a uma romaria minhota sabe que todas serão iguais. Contudo, tenta-se o maior número possível de festas. Uma espécie de colecção. Mas, cá para mim, ninguém me tira da ideia de que vão só para olhar o céu! Eu vou.


Boas romarias.

No intervalo: sentires...

(foto de GMV)

Transcrever o real não é tarefa fácil. Principalmente, quando o meu real se transfigurou de Natural e emana diversidades. Não é fácil reproduzir os sentires de um dia que amanhece verde e anoitece paleta de cores.

Tenta-se compor a tela. Na sinestesia antecipada, os olhos tocam, calmamente, a ave negra que rasga os céus matinais. O ar sabe a flores que, acariciadas pelo Sol, vão acordando... devagar. Hortênsias também, muitas hortênsias, mas sem a vaidade dessa personagem dramática de Leandro, Rei da Helíria. Aliás, os meus lindinhos, ao fim de uma aula, já tinham interiorizado que flores só mesmo Violetas.

Por aqui, não há violetas. A terra exibe gladíolos vermelhos, canas da Índia vermelhas, rosas bravas e, desculpem, vermelhas. Nunca parei muito para pensar nas razões que pintaram o meu jardim de três tons... o verde, o vermelho e essa cor que têm as hortênsias. No entanto, agrada-me, o vermelho, claro!

O céu impõe os sabores da chuva, que não cai. Fica retida, nas formas disformes que desenham o azul. De quando em vez, as nuvens, umas brancas, outras cinzentas escuras, afastam-se ligeiramente, deixando que o calor da estrela-mãe se possa espargir sobre os campos ornados de videiras...

A tela parece monótona... É o campo, bem sei. Tão difícil de descrever!

Sempre que o meu palco se transforma em Natural, as palavras ficam presas, custam a brotar, ressentem-se de tanta cidade, apavoram-se com o brilho das cores, com os sons dos seres vivos, que fazem questão de gritar que estão vivos... os sons que calam as palavras. No silêncio da noite, a encenadora descansa... sem peça, sem personagens, sem fingir... sem palavras.

Transcrever este real não é tarefa fácil, porque o meu sentir... os meus sentires quase me levam a acreditar que podia ser um sonho.


Bons sonhos!

No intervalo: leituras...

(Foto de GMV)

No intervalo de uma peça de teatro, aproveita-se o tempo para os primeiros comentários, para antecipar finais, para beber café, comprar uma água, ou simplesmente tossir à vontade sem sentir o peso reprovador de plateias resistentes ao ar condicionado. (confesso: aconteceu-me uma vez no Trindade, durante essa obra magnífica que é Othelo)
Em casa, no intervalo de um filme que passe num qualquer canal da nossa televisão, dá para fazer quase tudo. O poder da publicidade quebra a ligação à história, às personagens, à imagem... muda-se de canal, várias vezes, diga-se, arruma-se a cozinha, faz-se um telefonema, enfim, quase que dá para ver outro filme.

Ao longo do ano, nos intervalos das preocupações, das alegrias, do trabalho, dos encontros, dos risos, do sono (que custa a chegar), aproveito para me dedicar à leitura.

De férias, entre os passeios, as viagens, as conversas, as animadas refeições, as caminhadas sem destino, leio e releio.

Dizia Umberto Eco que "a leitura é uma necessidade biológica da espécie". Ora, sendo eu dessa espécie, sinto-a a cada intervalo. A necessidade. Alimento-me de livros totalmente desconhecidos, encontrados perdidos numa prateleira de qualquer livraria; de livros sugeridos por amigos, ou mesmo alunos, que gostam de ler; de livros alvo de críticas nas revistas dedicadas à literatura; de livros de autores que aprendi a gostar, de autores que já nasci gostando...

A minha relação com a literatura é de amor ou ódio. Quando, por alguma razão do acaso, tropeço num autor desconhecido e gosto, será para a vida. O inverso é válido, não gosto de Saramago, esse autor conhecido e reconhecido, será para a vida.

Vem este conjunto de pensamentos soltos a propósito das minhas últimas leituras, nos intervalos das minhas férias. Primeiro, convém dizer que gosto tanto de ler, como de reler. Aliás, considero que o amor a um autor tem de passar por esse acto de repetição, quase como numa relação pessoal... não se ama alguém por duas horas e depois arruma-se no móvel. No meio das minhas leituras, reli, então, um autor que muito aprecio, Mário de Sá Carneiro. Primeiro a poesia, porque, enfim... depois, uma novela extraordinária, A Loucura. Gosto de voltar a este pequeno livro, de vez em quando. Comprei-o, ainda andava na Faculdade. É um dos meus preferidos.
Hoje, alguém me emprestou um livro de uma autora que não conheço. Provavelmente, é um sucesso, ou não fosse a dita norte-americana. Se calhar, já deu filme, mas eu não conheço e, portanto, vou iniciar a leitura, no próximo intervalo, amanhã talvez. Neste momento, estou cansada da intensidade de mais um dia de férias para abrir o romance A Vida Secreta das Abelhas.

Neste palco de palavras, termino com Fernando Pessoa, "A literatura, como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta." Talvez por isso, porque a vida não basta, eu necessite de ler.

Boas leituras.

Ensaio sobre férias...

(foto de GMV)

Férias são descanso. O momento de repouso, de afastamento do que nos enche a maior parte dos dias do ano. Oficialmente, estou de férias há dois dias, mas, por conveniência de serviço (ah expressão majestosa!), continuo a trabalhar! Eu e mais três almas magníficas dadas a uma boa conveniência.

Quando era miúda, as férias começavam a ser faladas lá por casa, por alturas de Maio. À noite, ao colo do pai, assistia ao desdobrar do mapa, ao marcar de percursos, com uma bic azul. Os meus queridos pais sempre foram apologistas de viajar. Pegavam nas suas duas meninas (porque a terceira veio muito mais tarde) e percorriam quilómetros por este nosso lindo país, ou pelo outro com quem fazemos fronteira. Avião nem pensar, o meu pai tinha, e tem, um medo atroz. Desses tempos, recordo a tristeza com que abandonava a minha cidade, pela Avenida Gago Coutinho, direitos a uns poucos quilómetros de auto-estrada que acabavam em Vila Franca de Xira. Depois, era estrada e mais estrada, curva e mais curva, cidade após cidade, igrejas, monumentos, jardins, pousadas, hotéis, quartos alugados, pensões, estradas, vilas, aldeias, serras, rios, planícies, praias... até que chegava finalmente o momento de ir à Terra.

Sempre gostei da expressão "Vamos para a terra." Ouvi-la era a minha verdadeira alegria. Minho. Não a minha terra, porque nasci em Lisboa, mas a Terra, com maiúscula, porque sempre um paraíso de emoções.

Ao longo dos anos, as minhas férias sofreram grandes mudanças, até porque deixei de as fazer com os meus pais. Mas sempre guardei, devotamente, uns dias que fossem para ir à terra.

Neste momento, estou contando as horas para partir. Falta-me o cheiro da terra, o negro do céu desenhado de estrelas, o verde escuro dos pinheiros, os milheirais dançando ao vento, o rio Coura cantando alegremente, o fogo de artifício cortando o silêncio da meia-noite... faltam-me esses dias de campo... de monte.

Os outros dias, depois pensarei nisso. Não gosto muito de planos, gosto de andar ao sabor da minha vontade.

Neste palco da vida, que é a minha, a Encenadora vai descansar. Voltarei cheia de personagens e papéis, pronta para uma nova peça.

Boas férias à plateia que resiste às minhas humildes representações.

Ensaio sobre gostos...


Hoje, durante os momentos dedicados a alimentar o físico, surgiu uma conversa interessante. Gostos. Claro que não sobre o sentido que nos permite distinguir o sabor das coisas. "Gosto" no seu sentido mais figurado, daquilo que nos dá prazer. "Gostos não se discutem", ou não se deviam discutir, quando se reúnem pessoas dadas a uma boa discussão. Foi o que fizemos, ao longo do almoço.

Do Teatro ao Cinema, da Literatura à Música, tudo foi abordado de forma ligeira, mas séria, entre uma garfada e outra. Curiosa foi mesmo a reacção que se instalou nos meus companheiros de repasto, quando apresentei os meus gostos.

O ensaio podia versar sobre o preconceito, esse conceito que se forma sem fundamento e por antecipação. Clarifico... ao falar sobre os meus gostos, fui ouvindo comentários do género "Não me digas!", "Tu? Estás a brincar...", ou tão somente uma boca que não se fecha e prolonga o advérbio de negação "Nãaaaooooo!".

Tenho de reconhecer que deve ser difícil perceber o díspar que me dá prazer, os pólos que alimentam o meu sentir. Do cinema francês pouco conhecido, pouco visto pelas salas do King, às americanadas protogonizadas por Johnny Depp (qualquer uma, se com ele); da "La Traviata" de Verdi (chorei, quando vi ao vivo) à "Scorpion Flower" dos Moonspell (foi aqui que alguns queixos quase caíram... sou metaleira, sim); do "Waiting for Godot" do grande Beckett, às produções musicais de La Féria; de Dostoievsky, no seu O Jogador, à quase desconhecida norte-americana Lois Lowry, com o magistral O Guardião de Memórias (fiz a apologia do livro, quase que aposto que vão procurar). Abreviando, já no café, acabei a falar do quanto gosto de pintura! Sim, pintura. "Mas pintura como?" perguntou alguém. Lembrei-me então da pergunta do outro dia. Não sei porque gosto de pintura, não domino conceitos, nem estilos pictóricos. Gosto, pronto. Sou capaz de me espantar em frente a uma obra de um pintor e voltar rapidamente à idade em que se quer respostas para tudo. Como se faz? Como se conseguem aqueles efeitos de cor? Como é que um pincel, passado a toque na palete, cria a sensação do real? Há uns tempos atrás, fiz estas mesmas perguntas a quem me acompanhava no Rijksmuseum, em Amesterdão. A obra era famosa (que emoção por estar a um passo dela!), De Nachtwacht, de Rembrandt. A resposta veio rápida "Estás maluca?".

Não estou não. Tenho os meus gostos. Não discuto os dos outros. Respeito-os, enfim. Os meus são estranhos porquê?

O almoço acabou. Voltámos para o meio dos papéis e desculpem, mas esqueci-me de dizer que gosto mesmo de computadores!
(Foto retirada da net)

Ensaio sobre a criação...

(foto de GMV)

Um dia destes, no meio de uma conversa sobre teatro, alguém perguntou: "Mas afinal como é que escreves uma peça?"

A minha resposta foi quase automática, imbuída da ironia que tanto gosto, "Escrevendo...". Claro que a pessoa não desistiu, a curiosidade era genuína, mesclada de admiração. "Como é que se inventa uma história? Pensas em quê primeiro?"

Não sei! Seria a resposta mais correcta. Não sei! Nunca pensei nesse acto de criação como algo explicável. Acontece. Do nada. Uma vezes, nasce primeiro o título... outras imagino antes as personagens... frequentemente invento, por antecipação, diálogos, ainda sem personagens... algumas vezes só visualizo gestos... é difícil exprimir o que ocorre no meu pensamento, quando um texto dramático começa a dar os primeiros sinais de vida.

O mais curioso é que sempre tive essa mesma dúvida em relação aos escritores que admiro. Principalmente os poetas. Como se cria um poema? Pensa-se em quê primeiro? É sentido o que se escreve? Ou meramente inventado, com o dicionário sempre pronto à ajuda?

Estou, neste momento, esboçando a minha próxima peça. Uma espécie de parto provocado. Não escrevo. Concebo-a, ainda só no mundo das ideias (gosto de Platão!). Na ausência do sono, recrio cenários, pinto trajos, sugiro movimentações em palco. Só mais tarde pegarei no meu caderno e, com a minha caneta de tinta preta, iniciarei o texto, ordenando as palavras em falas e didascálias. O título, por enquanto, é provisório, as personagens ainda sem a vestimenta dos meus adoráveis actores dos Trinta por Uma Linha. Sei, como sempre acontece, que vou gostar de partilhar as minhas ideias com aqueles que as transformam em momentos únicos. Sou apologista dessa troca, reconheço que o sucesso será garantido, se cada um dos meus actores se sentir bem no papel que eu inventei.

Afinal, como se escreve uma peça? Ora, escrevendo...

Ensaio sobre o futuro...



O dia foi abrasador. Principalmente para quem o passou, como eu, encafuada numa sala da Escola, entre papéis e mais papéis, dossiês e mais dossiês, computadores, lápis, borrachas, decretos e despachos, sem esquecer as últimas portarias! A tarefa ingrata de distribuir serviço, de perspectivar horários, de condensar a vida dos professores numa tabela cheia de colunas e linhas.

Ao chegar a casa, a vontade de fazer qualquer coisa aproveitável era nenhuma. À distância de um telefonema, combinei a saída. Desejava a noite, com a sua brisa reparadora, com a sua cor que não ofusca, com a companhia perfeita.

Junto ao rio, o descanso ganhou sabores de conversa, sons de bebida fresca.

O meu companheiro é dado a uma boa cavaqueira, de preferência raiada de contornos filosóficos. E rapidamente chegámos ao âmago da questão: e o fututo?

Não sou pelo futuro, aliás, quando, no meio de uma aula, é premente explicar o tempo, aos meus lindinhos, transformo o futuro num automático presente. É difícil tornar inteligível a noção do tempo. Um presente que logo deixou de o ser, porque já passado... um futuro que nunca o será, porque sempre presente...

Não gosto de pensar no fututo. Sou pela vivência de cada dia, como se fosse o único. Não gosto de pensar o amanhã. Sou pelo agora, se possível já. Talvez por isso planificar seja um trabalho penoso. Como marcar algo para daqui a uns dias? Como dar por adquirido que se quer ir? Que a disposição se mantém? Que não surgiu algo mais importante para fazer?

Não gosto de longo prazo. Sou pela validade diária, sem corantes, nem conservantes. Fui interrompida pela pergunta incrédula: Estás bem? Claro que estou bem, só manifesto o meu pensar confuso, porque sou assim. A noite estava agradável, o rio escuro espelhava o céu, com poucas estrelas visíveis, por ser um céu de cidade. Ah, que saudades do céu do meu monte, ponteado de pequenas luzes...

Entre uma bebida e uma gargalhada, lá continuou a conversa sobre o porvir. Argumentei, clarifiquei, pedi explicações... nada me convenceu. O futuro não existe. O meu tempo é sempre presente. Tenho de acompanhar o meu tempo, tenho de o sentir passar, tenho de gastá-lo. E isso, meu amigo, só é possível no agora...sempre agora, sempre presente.

E amanhã o que fazes? (já na despedida) Amanhã, quando for hoje, te direi.

Agora, vou dormir!

Despedidas breves...

(foto de Vasco)

Ontem, no meu momento de encontro comigo, não fui escrever... fui ler! É para lá que volto sempre que algo não flui como desejado. Em cada palavra lida, egoisticamente penso que escrita para mim. Pretensão bacoca, bem sei. Quem escreve não pensa em quem lê! A escrita é egocêntrica. Mas não resisto. Aquelas palavras podiam muito bem ter sido escritas para mim.

Refugiei-me nos meus Poetas de eleição. António Nobre, Fernando Pessoa. De um retenho a simplicidade da dor feita poema, de outro a complexidade de uma razão em busca da felicidade. Em tempos ensinaram-me que o sentido das palavras do Poeta é o que, naquele momento, o leitor lhe dá. Em cada palavra residem mil outras palavras...

Ontem, no momento em que uma breve sombra tapou o meu sol, fugi para as palavras dos outros, silenciosamente criando mil significações diferentes. Todas para mim. De António Nobre, o saudosismo de um passado feliz, porque ignorante. De Pessoa, o interseccionismo de sentimentos futuros, porque desejados.

Fui ler. Fui ser leitora. Atenta. Crítica. Consciente. Fui ler poesia. "Quanto mais poético, mais verdadeiro." Procurei a minha verdade na poesia de outros.

Por isso, por tanto ter lido ontem, vou descansar da escrita. Serão despedidas breves, bem sei. Mas, neste momento, quero alimentar-me das palavras dos outros.



" Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser..."

Álvaro de Campos


Ensaio sobre nada...


Diz o meu dicionário que a palavra em causa significa a não existência, coisa nenhuma, ninharia, inutilidade...

Retenho a última, porque me agrada. Inutilidade. Não sei porquê, ou sabendo claramente, este meu blogue, hoje, extravasa a inutilidade. Criei-o num momento em que me parecia positivo ter um espaço para guardar tantas palavras que não cabem em mim. Não era suposto ser encontrado. Era um eu que se queria escondido, recatado, num infindável mundo virtual. No entanto, o meu desejo rapidamente se contrariou. Por amizade, bem sei. Acontece que o meu espaço já não condiz com os fundamentos da sua criação.

No dia que é hoje, necessitava de estar comigo, passar-me a mão na cabeça, animar-me nas palavras que tão bem sei usar, fazer um ensaio sobre tudo... mas resigno-me à inutilidade, ao nada, à coisa nenhuma. O ser pública, hoje, só porque é hoje, incomoda-me. Vou, por isso, pegar no meu caderno e escrever, escrever-me...

Amanhã estarei melhor!