Hoje
é dia dos meus Pais! Um 25 de abril comemorado há 50 anos.
Cinquenta anos de uma “liberdade” feita “prisão” desejada, feita partilha dos
momentos tristes e dos felizes; das
raivas e dos sorrisos; dos obstáculos e das gargalhadas; dos desencontros e das
reconciliações; das dificuldades e das recompensas; de pequenos nadas e de
imensos tudos; de histórias e de vidas; de sabedoria e de afetos... cinquenta
anos cheios de vida! A vossa, que também é nossa! Parabéns.
Ensaio já velho
No primeiro dia do ano, reuniram-se, em consílio, as palavras. Cansadas da anarquia reinante, na casa da língua, exigiam ser ouvidas. Reclamavam por uma deliberação justa, que impedisse que fossem truncadas, aleatoriamente, na sua essência morfológica, ou substituídas por estrangeirismos petulantes. Queriam, ainda, que as não disfarçassem, de forma sistemática, de sentidos que nunca pediram...
Tentou-se uma certa ordem na assembleia. Deu-se, assim, palavra à primeira palavra. Falou, com voz serena, em nome de todas as palavras gastas. Essas que se proferem, vezes sem conta, sem que se pense no gosto de saboreá-las. Essas que, de tanto serem ditas sem sentimento, perdem a cor do significado. Gastas pelo abuso único de quererem fazer delas meras muletas linguísticas. Pediam unicamente a denotação primeira. Aplauso na reunião. "Que não se gastem as palavras!", perpassava no auditório.
Fizeram-se ouvir outras palavras... interditas, populares, insurgentes, esquecidas, amadas, odiadas, vivas, vazias, correntes, cuidadas...
Quase no final do encontro, levantou-se uma palavra diferente. Permanecera calada, no meio dos acalorados discursos. O murmurar que, entretanto, se instaurou, ressumava a admiração de todas as outras. Conheciam-na por resistente. Disse:
Que a deliberação seja uma, apenas. São belas todas as palavras. Procuremos, então, quem com elas estabeleça uma relação de amor ingente, quem as pronuncie com paixão, quem as procure nos recônditos cantos desta casa da língua, quem as reorganize em efeitos conotativos, quem as crie em renovação constante... quem as saiba usar no quebrar do silêncio.
E nada mais havendo a tratar, deu-se por encerrada a reunião.
No início de um novo ano, que as palavras regressem, em arestas aladas de esperança, para a voz de quem as ama.
Ensaio do exagero...
Por vezes, sabe tão bem ser-se surpreendida, com as palavras, ainda que hiperbólicas, que outros nos dirigem.
É assim, também, este palco: cheio de mim!
Ensaio por um Natal...
[Luís]
[republicação]
Cenário despido de adereços. Foco de luz difusa, em tons de vermelho-sangue. Duas personagens [sempre duas], vestidas de preto, sentadas no meio do palco. Costas com costas. Silêncio absoluto. Fim da didascália. Início absurdo de uma peça por inventar.
UM - Dizem que o Natal chegará, quando uma estrela solidária ecoar distante, no cume de uma árida montanha.
OUTRO - Dizem que sim! que chegará inquieto num braço de insónia, aniquilando todas as falsidades.
UM - Dizem que, nesse dia, os rios alucinados semearão enchentes de paz em margens distraídas.
OUTRO - E que o sol parará o tempo, recusando o renascer de todas as solidões.
UM - E que as mãos dos homens se transformarão em garras de afectos.
OUTRO - Dizem que o Natal chegará, quando as árvores se enraizarem em terrenos arados de verdade.
Silêncio. Apaga-se o foco. Ouvem-se apenas as vozes, no palco escuro.
UM - E dizem quanto faltará para esse dia?
OUTRO - Tanto!... que faltará sempre tanto!
Fim de cena.
[Bom Natal, para quem passa neste palco.]
Ensaio por um sorriso...
Naquele dia, solitária em cima de um palco noturno, a encenadora esperava que alguém lhe colasse um sorriso na sua face.
Fitava o pó espalhado pelo chão vazio, cravado de tantas memórias felizes... Ao fundo, alguns adereços esquecidos pareciam gritar as tantas gargalhadas outrora divididas com a vida.
Centralizou o seu olhar no pano de cena. Gasto, velho, cansado das imensas aberturas aplaudidas com genuíno sentimento. Um sorriso. Faltava-lhe um sorriso. Um sorriso que, como diria Saramago, não tivesse a definição pobre e fria de um dicionário. Um sorriso que apagasse todas as mágoas, que varresse as dúvidas, que clarificasse todas as incertezas.
Um sorriso verdadeiro... daqueles que aquecem o sabor dos dias no calor de um olhar. "Não custa nada..." - ouvira algures - "... colocar um sorriso no dia de alguém."
Não custa nada! No entanto, naquele dia, no centro de um palco apagado, gélido de ausências, nada faria sorrir a encenadora. Sentia a peça raiada a falsidade. E as personagens? Tipo, personagens-tipo de uma sociedade massificada pela mentira.
Queria a verdade, unicamente a verdade que a faria, de novo, sorrir.
"Não custa nada!"
Ensaio para empatar...
O meu palco anda perdido... no eterno adiar da vontade. Preencho, então, o vazio com outras palavras, também minhas, mas longe, muito longe de qualquer palco.
Chegarei...
Sei de um lugar longínquo
Onde os dias renascem,
Dissipando a espuma das noites
No rebentar do sonho.
Sobre os trilhos sinuosos da floresta,
Dançam silfos desenhados no ar.
Cingem regatos bem-aventurados,
Num desejo veemente
Que antecipa o eterno reencontro.
Sei de um lugar longínquo
Onde os dias renascem,
Dissipando a espuma das noites
No rebentar do sonho.
Sobre os trilhos sinuosos da floresta,
Dançam silfos desenhados no ar.
Cingem regatos bem-aventurados,
Num desejo veemente
Que antecipa o eterno reencontro.
Cruzarei o fogo encantado,
Chama viva de sentimentos por escrever…
Devorarei todas as cinzas da teimosa Fénix,
Para que as palavras se renovem
À minha chegada.
Irei!
Espera-me, no lugar de sempre!
Onde a poesia nos protegerá
Do esquecimento dos deuses.
Ensaio pelo vazio...
[Luís]
trago os dedos cansados de me escrever
no silêncio das folhas brancas
vazias
tão vazias
houve tempos em que acreditei
ingenuamente
que o delírio com que desenhava cada letra
me libertaria esta alma agrilhoada
e escrevia-me
como se cada palavra
fixasse no papel sentimentos permanentes
como se cada frase ortografasse raivas
e desejos
sorrisos
e lamentos
como se cada verso
coerentemente dissesse a minha vida
houve tempos em que a tinta
foi lastro de fúria incontrolável
foi mel derramado sílaba a sílaba
foi matiz de felicidade
foi desilusão líquida em cristais salgados
trago os dedos cansados de me escrever
no silêncio das folhas brancas
vazias
tão vazias
de mim
Ensaio sem imagem...
Vesti-me nas sombras
de um palco gasto,
rouco de tantas deixas perdidas.
Há muito que as luzes
se diluiram no cântico
grosso de todas as chuvas.
Há muito que o pano
confirmou a inutilidade
de um poema envenenado.
Estendi-me no pó sagrado
que queimava o sal líquido das recordações...
Um eco
entre as cadeiras vazias.
Um coração breve
no silêncio
das vozes.
Pensei-me no sentido
dos ponteiros do relógio.
Devagar, entrei na realidade
E cansei-me,
cansei-me
de tanto esperar
as palavras.
de um palco gasto,
rouco de tantas deixas perdidas.
Há muito que as luzes
se diluiram no cântico
grosso de todas as chuvas.
Há muito que o pano
confirmou a inutilidade
de um poema envenenado.
Estendi-me no pó sagrado
que queimava o sal líquido das recordações...
Um eco
entre as cadeiras vazias.
Um coração breve
no silêncio
das vozes.
Pensei-me no sentido
dos ponteiros do relógio.
Devagar, entrei na realidade
E cansei-me,
cansei-me
de tanto esperar
as palavras.
Ensaio pouco dramático [porque quase poético]
Falemos dos caminhos
Monótonos
Sulcos gastos na indiferença dos dias
No cruzar dos gestos vazios
Resguardemos o sorriso que nos basta
E nas ruas sujas de pedras frias
Nas portas anónimas e sempre fechadas
Incrustemos uma vontade aderente de ser
Brademos no silêncio da multidão confusa
A espera de campos cultivados de esperança
São ternas as searas que não plantámos
São ávidas as palavras de que não falámos
Não fujamos, então, da memória
Abracemos o leito que nos aguarda
E recomecemos
Sem medo
Sem vergonha
Sem hipocrisias…
A tecer os filamentos aguerridos
Que sarem todas as feridas.
Ensaio pela verdade semântica...
[Luís Rodrigues]
O 'outono' chegou diferente. Não falo dos dias quentes e solarengos com que nos tem brindado. Nem tão-pouco das noites vestidas desse vento boreal, desnorteado, sem rédeas na intensidade desmedida. Falo de um outono minúsculo, que, à conta de um acordo tão desacordado, surge sem identidade própria. Sem a marca de orgulho de quem é nome não comum.
Como compreender que a minha estação perdeu a sua entidade única de ser, como diria Nietzsche, 'mais estação da alma do que da natureza'? Nasci no Outono... a estação de todas as verdades... o verde amarelece, lentamente, como tem de ser, relembrando que, na vida, há que mudar de papel; a luz não ofusca; a beleza dos troncos aparece ao cair da folha, não porque as folhas envelheceram, mas porque há que dar espaço ao renascer da vida; a chuva, miudinha, não aborrece, lava todos pensamentos negativos, acumulados no estio desértico de sentimentos; o Outono fala a verdade dos "equinócios", procurando, mesmo que por breves momentos, mostrar que os dias e as noites são iguais; e os dias não ficam mais curtos, como se diz por aí, são as noites que ficam mais longas... ah! as noites, na sinceridade da estação da alma. Gosto do Outono.
Como entender, então, que, por decreto, o meu Outono não seja agora ele próprio? Perdeu a maiúscula!
E, de repente, imaginei o meu palco, minúsculo, também... perdendo a sua identidade. Visualizei todas as palavras, reclamando a sua maiúscula, numa peça absurda, em que as personagens olhassem uma lua, também ela minúscula, e lhe sentissem, pela primeira vez, a frieza de não ter luz própria. Pensei no pano vermelho, gasto de tanto ser aberto e fechado ao longo dos anos, desejando, ele mesmo um adjectivo 'escuro' preso por um hífen.
Sou do Outono. Com letra maior. Porque a minha alma anseia pela verdade semântica do sentir, que nenhum acordo mudará.
Ensaio pela palavra... [antes de o ser]
Cenário despido de adereços fúteis. Palco difusamente iluminado a verde esperança. No centro, imponente, um tronco de árvore. Duas personagens [sempre duas], uma em cada canto da boca de cena, olham o tronco, num silêncio respeitoso. Fim da didascália, de mais uma cena do absurdo.
UM - Talvez um dia haja forma de saber, porque o canto dos pássaros se pintou de ausência...
OUTRO - Talvez se possa descobrir onde se enraizaram todos os sonhos a haver.
[silêncio]
UM - Sentiremos, nesse dia, que o tempo não escorrerá pela ampulheta dos dedos solitários; que os dias amanhecerão, no eterno retorno de rasgos de felicidade; que a brisa suave apagará todas as marcas de memórias magoadas, dessa pele sedenta de vida.
OUTRO - Talvez o rio se embriague, no sorriso das folhas perenes... vigilante, no cântico doce de prazeres anelantes. Talvez tenhamos de mergulhar de novo no desejo de ser.
UM - Aprenderemos, então, a desencarcerar todos os sentimentos cativos, pelos grilhões resistentes de quem não quis acreditar. Procuraremos a ara genuína, onde se resguarda a dádiva do amor. Seremos... um e outro, num futuro plural, num espelho inquebrável e natural, ramos férteis e frondosos de nós.
[silêncio]
OUTRO - Talvez falte algo...
UM [levanta-se, devagar, e dirige-se ao tronco que abraça, num sorriso] - "Talvez tenhamos de [nos] repetir à exaustão, pela vida fora,/ no oco dos troncos onde residem/ todas as cirandas de sol e pedra,/ antes de ser palavra".
Cai o pano.
[entre aspas, versos de Mel de Carvalho]
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