Ensaio pela renovação...

[Luís]


Adormecera no centro do palco, resguardada pelo peso de um pano cansado. E sonhou-se.

Sonhou-se barco, deslizando no rumor doce do rio, a esmorecer por entre as brumas. Sentiu o alargar das margens, clamando um desaguar perfeito nos braços de um mar revolto. Fez dessas águas o lavar das suas memórias; rasgou, na correnteza desenfreada, cada palavra não recebida; afogou todas as ausências não desejadas; fundeou cada desilusão trazida por silêncios permanentes.

Sonhou-se barco sem leme, ateado no seu peito, seguindo o seu curso de sentido único. E a noite já não era noite. E o pano de cena, abrigo da sua alma, abrir-se-ia a outros aplausos. E vogaria pela vida, ao sabor de uma indefinida inquietação. Renovando o seu papel a cada sinal de tormenta, nessa peça por inventar.

Ensaio sobre o tempo...

[Luís]

Incansável é o tempo. Insiste, ininterruptamente, sem grande alarido, na sua passagem. E assim, na quietude dos dias, Dezembro aproxima-se do fim.

Para alguns, é o momento ideal para olhar o palco, relembrar todas as representações falhadas, guardar na memória todos os intervalos que espelharam a rebeldia da alma, contabilizar todas as vezes que o pano caiu de cansaço... e rapidamente antecipar desejos de mudanças, imaginar novas peças, perspectivar prolepses de uma outra vida que não a vivida.

Não gosto de olhar o passado, nem de idealizar o futuro. Vivo o presente como o único tempo que vale a pena. Dezembro caminha, calmamente, em direcção ao final do ano. E eu também. Agradecendo, apenas, o alvorecer de cada dia... que me permite estar, que me permite ser, que me permite amar esta vida que tenho.

Ensaio por um voo...

[Luís]


Quantos voos cabem numa asa fatigada? Quantas esperanças vãs se rasgam no apagar de um sol impermanente? Quantos sonhos se diluem num planar solitário?

[E o horizonte sensível esvai-se na distância...]

Ensaio para um poeta...

[Luís]

Falemos desse lugar... onde as palavras se derramam, nas raízes do sentimento, onde pulsam inquietas desventuras, na quietude dos troncos rubros.

Deixemos que se acendam todos os sorrisos arrojados, no exalar dos ventos clementes. Que sejamos ramos poentes, rendidos ao som alado desse vértice onde se encerra uma alma tranquila.

Falemos apenas do lugar dos sonhos… onde se encontram todos os poetas.

Ensaio sobre nada...

[Luís]

Todos os dias, quando o 'pano' cai, no final de mais uma representação, há um momento solene, de silêncio breve. As palavras embatem no fechar da boca, rebelam-se, querem-se libertas num rasgo de pensamento. No entanto, a oclusão labial é mais forte. amuralha a vontade.

Este é um ensaio sobre nada, sobre aquele tempo que não existe, sobre um palco de peças vazio, sobre uma personagem que se diluiu numa máscara de cansaço. Este é um ensaio sobre palavras por haver, palavras gastas, despidas de semânticas falsas.

Este é um ensaio que não chegou sequer a tentativa. Perdeu-se nas inutilidades da repetição. Dos dias. De todos os dias em que o 'pano' cai e as palavras se agrilhoam.

Todos os dias, a encenadora resiste e insiste. Baralha as personagens, numa representação que ninguém entende... porque nem a encenadora entende!

Este é um ensaio sobre coisa nenhuma, sobre palavras desassossegadas, que só encontram paz na voz do Poeta. Seja.

"Tenho neste momento tantos pensamentos fundamentais, tantas coisas verdadeiramente metafísicas que dizer, que me canso de repente, e decido não escrever mais, não pensar mais, mas deixar que a febre de dizer me dê sono, e eu faça festas com os olhos fechados como a um gato, a tudo quanto poderia ser dito." (Bernardo Soares)

Um intervalo [pela poesia]

[Luís]




Encriptou as estrelas no olhar, numa noite fria, sem tempo. Esperou, calmamente, que as sílabas colhessem a poesia do orvalho... e escreveu-se na rouquidão do vento.

Ensaio sobre a desilusão...




"Se olharmos as coisas de perto, na melhor das hipóteses chegaremos à conclusão de que as palavras tentam dizer o que pensámos ou sentimos, mas há motivos para suspeitar que, por muito que procurem, não chegarão nunca a enunciar essa essa coisa estranha, rara e misteriosa que é um sentimento." [José Saramago]

Andamos, pelo palco escolar, às voltas com aqueles momentos aterrorizadores, para qualquer aluno, que são as exposições orais. O momento em que se deixa o resguardo do colectivo, para encarar uma 'plateia'. Muito antes deste momento, trabalhámos algumas técnicas para falar em público. Entre tantos aspectos a ter em conta, reforçou-se a ideia de que há que olhar o outro, nunca fugir desse contacto, que prende a atenção, que passa a segurança de quem fala. Teoricamente, os ensinamentos são interiorizados, o pior é aplicá-los.

Hoje, um dos meus lindinhos, aluno daqueles que vestem esse papel, desde que entram na sala, levantou-se, quando chegou a sua vez, e literalmente arrastou-se até ao quadro. Virou-se para a turma, olhou para mim, no fundo da sala, e iniciou o seu discurso. Num instante, o seu olhar perdeu-se entre o branco sujo das paredes, defenestrou-se por janelas de vidros foscos, contou lâmpadas no tecto, fixou-se num chão de seguranças inseguras. No final da sua intervenção, dirigiu-me o seu brilhante e meigo olhar e, confrontado com o silêncio que se fazia ouvir, disse, quase num murmúrio :"Desiludi-a, Professora".

Faltaram-me as palavras, naquela fracção de segundo... "desilusão". A palavra ecoou na minha mente. Aliás, nos últimos tempos, ganhou dimensões indizíveis na minha vida; ocupou um espaço que, há tanto, permanecia vazio; gravou-se em mim, como que aspirando a sentimento. O que era a desilusão de um miúdo de treze anos, na sua primeira experiência de comunicação formal, não encarar o olhar dos outros, comparado com os adultos que, conscientemente, nos negam essa verdade? Respondi, rápido: "Desiludir? Não tinha criado ilusões... Na próxima, fará melhor, de certeza."

E o pensamento de Saramago? O resumo, não da aula, mas da minha representação, por estes dias, neste palco da vida.


Ensaio pelo palco... [iluminado de palavras]

[Luís]

Desde manhã que ressoava, na sua consciência, o comentário proferido por uma das suas aprendizes das artes teatrais: "O palco assusta!".

Lá fora, o dia permanecia cinzento. De quando em vez, os céus libertavam sentires diluídos numa raiva de enchente. Sentou-se no silêncio escuro da sala vazia, numa das últimas cadeiras daquela plateia solitária, e olhou o palco. "O palco assusta!" tinha dito a sua lindinha, quando convidada ao improviso, sem papel, sem deixa, sem peça...

Olhou atentamente o palco, ocupado tão-somente pelas sombras disformes, desenhadas na pouca claridade que entrava pela porta entreaberta.

O palco não assustava... só as palavras gastas em peças de desilusão podiam causar algum receio. Só as palavras perdidas em monólogos repetidos assustavam. Palavras que nunca chegariam a ser 'falas', palavras vestidas de fingimentos, de intransponíveis semânticas. Palavras desprovidas de sentimento, palavras exaustas por não encontrarem destino, no labirinto da vida. Só as palavras ocas, petulantes, truncadas da verdade fariam oscilar o palco.

O seu olhar encheu-se de palco... um palco de saudade, onde se resguardavam as memórias felizes de outras representações. Lembrou, uma a uma, todas as palavras que iluminaram a sua peça feliz. Deixou que, no seu pensamento, se acendessem as falas desejadas, como velas frementes por reais despiques dialécticos... O palco assusta? Talvez, por breves instantes, enquanto se aguarda a entrada em cena. Depois, o palco enche-se de palavras e a vida acontece.

Lá fora, anoitecia num dilúvio que lavava a alma. Sentada ao fundo da sala, envolta pela escuridão, sentiu a saudade desse seu palco... e dentro de si choveu, também... uma chuva miudinha, que ninguém viu cair.

Silêncio...

[Joaquim Cardoso Dias]



É de silêncios que se preenche o vazio do palco. De silêncios que resguardam toda uma imensidão de palavras. São palavras por dizer, são palavras que anseiam existir, são palavras que renascem a cada intervalo. É de silêncios que se compõe o abrir do pano. Só o silêncio cumpre o entardecer da encenadora...

Encerrado!

[Luís]



O Teatrices encerra amanhã. Fecha as suas portas indefinidamente, porque nada é definitivo na viagem da vida.
Para todos os que se sentaram, nesta plateia, ao longo destes dois anos e meio, fica o meu respeito, a minha gratidão, o meu carinho...

Quanto à encenadora, continua a acreditar em ilhas desconhecidas.

Ensaio na quietude...

[Luís]


Sábios silêncios, que resguardam o anseio de quietude.

Aí me encontro... permaneço, entre esse espaço onde o sonho finda e a realidade se veste de ti.

Ensaio pela verdade...

[Luís]

"Que coisa é essa que procuras dentro das coisas?
Qual o pensamento que o teu pensar não alcança?
Por que céu voam as poderosas asas do teu espírito?
A que altas visões lhe é doloroso estar cego?"
[Fernando Pessoa]

Acercou-se, devagar, sorrateiro, ainda no resquício dos dias quentes, esse mês de Setembro. Não dei pela sua chegada, abstraída que sou das folhas de calendário, sempre que ausente do palco escolar, onde o registo burocrático de ser, implica o conhecimento dos dias, dos meses, dos anos.

A minha relação com o tempo é difícil. A minha percepção do dito é, na maioria das vezes, meramente psicológica. Um minuto que tem a dimensão de uma vida. Um ano que parece não ser mais do que um minuto de vivência, um minuto de memória.

No entanto, hoje, senti a imensidão do tempo que já passou, desde o início do ano. Oito meses concluídos...

E, assim, sem ruído, sem palco ou aplausos, chegaste, Setembro! Fala-me, de novo, da vontade de abarcar os dias, num abraço intemporal. Fala-me de equinócios de igualdade, na correspondência entre as partes desse todo que sou. Fala-me do brilho do olhar, que ainda deve existir, pelo desejo de aprender, em cada dia, uma palavra, em cada palavra, um objectivo de vida. Fala-me de palcos cheios de mãos que se encontram no silêncio do acreditar. Fala-me pouco de bastidores... ou melhor, não me fales. Fala-me de um tempo melhorado, em que os silêncios sejam apenas o repouso consciente da partilha, e não a negação da existência, numa história que há por contar. Fala-me dos risos sinceros, redobrados no trinar de dias felizes. Fala-me de mim, no acolher da minha estação, fala-me do Outono, estação de verdades naturais... conta-me como o verde amarelece, lentamente, relembrando que na vida há que mudar de papel.

Fala-me de um novo papel, de uma personagem renovada, numa peça que se ensaie, dia após dia, com a confiança de que, no palco, se encene sempre a verdade.

No palco... [como na vida?]

[Luís]


[Por vezes, a encenadora chega atrasada ao ensaio. Improvisa-se, apenas.]


Teatro vazio. Pano aberto. Palco numa intencional obscuridade. Cenário de um único adereço: uma rocha imensa, ao centro. Duas quase personagens. Uma de cada lado da rocha. Sem se olharem. Em momento algum da representação. Que se improvisem as falas, de uma peça quase absurda.

UM - Sinto que as palavras cavalgam distâncias, por planícies desérticas de mim, num galope sem freio.

OUTRO - "Numa intensa e tranquila galopada/ estanquei nos corvos do teu olhar/estranhei/ amansei."

UM - Sinto que as palavras anseiam quebrar os elos que as agrilhoam, no escuro do meu olhar... voar nas crinas de um poema por inventar.

Um e outro permanecem imóveis. Colados na rocha imensa que invade o palco.

OUTRO - "Num galopeio mais aperfeiçoado/ refreei no regozijo de te arrecadar..."

UM - Sinto que as palavras agasalham gritos perfeitos de silêncio, galgando penedos frios e irracionais, numa corrida sem volta.

Silêncio. Um tempo.

OUTRO - "Hoje, neste farto vale que tu és,/ pasço bucólicas ervas devolutas/viciado no doce feno das palavras."

UM - Sinto que as palavras se podiam alimentar do desejo, tatuado nos poros distantes da tua pele...

OUTRO - "...esvoaçando no silêncio dos ventos..."

UM - ... sinto que as palavras renunciam, cansadas...

Um e outro afastam-se da rocha. Olham o fundo da sala. Escura. Onde, no meio da plateia vazia, a encenadora assiste em silêncio.

UM - Saio de cena?

OUTRO - Saio de cena?

Encenadora - Apenas... e sem mais palavras!

[Por vezes, a encenadora chega atrasada ao ensaio, e a representação perde todo o sentido!]


[Com alguns versos de L Silva, entre aspas, de um poema que me foi dedicado, em 2009]

[Intermédio]

[Graça]

Por vezes, a encenadora sente que o enredo dos dias reclama novos ensaios, outro palco, actores sem máscara. Por vezes, a encenadora resiste à vontade de fechar o teatro, cancelar a peça e calar o ponto.

Por vezes, a encenadora pinta-se de verde natural e tudo é mais simples.

Ensaio à minha Deusa...

[Luís]

A minha relação com os deuses nunca foi favorável. Ou nunca existiu. Uma relação pressupõe um laço de afectividade entre duas pessoas. Ora, impossível esta ligação. Apenas. No entanto, hoje, lembrei-me de Cronos e de como gostaria de lhe pedir que anulasse o mês de Agosto da minha vivência do tempo.

Inevitável associar este mês à tristeza com que todos os dias recordo a tua partida. Fazes-me falta, tanta falta. Ainda sinto o calor da tua mão na minha, quando, na calma do silêncio, apaziguavas a minha rebeldia feita palavras. Ainda vejo o sorriso meigo com que secavas todas as minhas lágrimas. Ainda te sinto, num abraço intemporal, quando me resguardavas da vontade imensa que sempre tive de partir. Ainda ouço a tua voz cantante, no embalo suave com que tentavas distrair-me da árdua tarefa que, pelas manhãs, te cabia... pentear-me a farta cabeleira encaracolada. E eu premeditava a fuga, e tu, no meio de uma gargalhada, dizias que até as 'Graças' se penteavam, para poderem acompanhar Afrodite. Eu serenava e calava a dor que o pente trilhava nas ondas castanhas, em nome da Deusa do Amor. No tempo em que me fizeste quase acreditar que a relação com o divino era possível.

Ensinaste-me a ser o que sou. Como sou. Ensinaste-me que os sentimentos se dizem, sem pudor, nem receio, nem exigências de retribuição. Ensinaste-me que os dias são vividos um de cada vez, como se fossem únicos, como se contivessem em si a aurora da felicidade, em ciclos repetidos que recusam o ocaso. Ensinaste-me a cultivar os meus sonhos, em pequenos vasos, arrumados desordenadamente nas varandas da minha alma, e a regá-los todos os dias com sorrisos líquidos de persistência. Ensinaste-me a arriscar tudo, porque a passividade do nada é tão sem-sabor. Ensinaste-me a ser tolerante com o outro, porque é impossível sermos sós. Ensinaste-me o poder inabalável do 'nós', no respeito pela diferença essencial do 'eu' e do 'tu'. Ensinaste-me a vida, quando me contavas, em jeito de narrativa aberta, momentos da tua. Fazes-me falta.

Partiste num mês quente de Agosto e eu gelei. O Tempo roubou-me a tua presença. Ironicamente, quis levar-te para o panteão dos Deuses. Porque tu não tinhas só nome de Deusa, minha Avó Artemiza, eras uma Deusa. A única em quem eu acreditei, porque verdadeiramente Humana.

[Fazes-me falta. Tanta falta.]