Ensaio seguro...

[Alexandre]


Há uma rocha que, no desassossego da espuma onde te resguardas, explode em estáticas sombras de um passado agrilhoado no azul do céu. E silhuetas de nuvens intraduzíveis murmuram-te as tréguas ambicionadas.

Há um mar mais próximo que, no clamar de um porvir de onde foges, se entranha no escorrer dos teus olhos salgados, cristalizados, resistentes ao galopar prometido pelo vaivém das ondas. Onde bramidos de sentires nunca gastos te imploram um ancoradouro perene. Irresistentes promessas de um mar tão perto... que persiste em apagar os sulcos penosos que marchetaste nas areias.

E há as palavras que não migram, as minhas, as tuas... palavras que rodeiam os dias de novas semânticas, que renascem na força da maré dos ensaios, que encenam seguras pela fragilidade do palco, que projectam diálogos difusos num foco de esperança, que intervalam certezas...

E há estas palavras que não desistem... que jamais deixarei de espraiar em ti.

Talvez aí [num intervalo]

[Luís]



Talvez um adereço diminuto de uma paisagem impenetrável...
movimentação que agita a cena de um labirinto perdido...
falas-deixas mudas, rendilhadas a verde esperança
personagem diáfana, tecida em hastes sombrias da floresta...

Talvez uma peça escrita na aragem de um poema...
palavras ávidas do que pareço...
enredo por encontrar, na percepção do musgo do poscénio.

Intervalo enraizado de agrestes sinestesias...

E só me reconheço...

[talvez]

Um espreitar [breve]...

[Graça]


Naquele início de noite, todas as personagens, numa revolta consentida, fugiram de uma peça por estrear. Persistente, o encenador observou o palco silencioso, analisou cada detalhe do pobre cenário, concentrou o olhar no vazio da plateia e recolheu do nada o desejo de tudo recriar... em breve, voltaria aos ensaios.
[E as personagens?? Apaziguariam o motim na foz de um rio e desaguariam num mar de palavras.]

Até...

[Graça]



Talvez o pano volte a subir. Talvez os ensaios se renovem. Talvez os intervalos se encham de palavras... Talvez.


[Obrigada a todos por serem... ]

Num intervalo [sei-te...]

[Luís]


Sei-te para lá da monotonia caótica dos dias, numa demanda pela ara templária, onde receberás a oferenda da inquieta ordem. Sei-te em escalada telúrica, pela serra guardiã de todos os sonhos, na crença irreverente de que afastarás cada nuvem do turbilhão do pensamento. Sei-te espelho da multiplicidade de "eus" que te assolam, que te acendem estrelas no cerúleo olhar. Sei-te alma em espiral dissonante, agnóstica até de ti. Sei-te num acaso de silêncios que são palavras, que são beijos, que são palavras-beijos plagiadas do teu discorrer inconstante. Sei-te hermético, na certeza da genialidade tecida letra a letra. Sei-te desejo liquefeito, quando, no frio escuro da noite, um sussurro quente e imperceptível se encosta ao teu ouvido... Sei-te. Céus! Sei-te tão pouco!

Sabes-me [...] num aprendizado de convicções, pleonasticamente convictas. Por ti.

Ensaio pelo passado [presente...]

[com 15 anos, tirada pelo meu Pai]

Nunca fui muito de relembrar o passado, nem de fomentar esse sentimento saudosista tão português. Gosto do presente, viver cada dia como se fosse único, porque irrepetível. Sempre considerei pouco produtivos os discursos repetidos à exaustão, por algumas pessoas que me rodeiam, e que começam, invariavelmente, por "se": se tivesse menos 'x' anos... se, naquela altura, tivesse tido coragem... se tivesse... se não tivesse... se... se...

Tive a sorte de nascer numa família que nunca foi apologista de peias. Percorri o meu caminho, numa liberdade consentida, que me permitiu aprender com os erros, porque os cometi... chorar as minhas tristezas, porque as tive... construir a minha felicidade, porque a procurei.

Vem isto a propósito de há quase três décadas, devia ter 15, 16 anos, ter assistido ao meu primeiro grande concerto: Spandau Ballet. Lembro-me de, num dia ao jantar, ter pedido ao meu pai, se me deixava ir. Era sempre mais fácil começar pelo meu pai! Nunca me recusara um pedido. Apesar de não entender o que me levava a quer ver aqueles jovens, que 'só faziam barulho', para reproduzir as suas contidas palavras, lá foi, entre uma garfada e outra, lançando as perguntas verdadeiramente paternais... onde era o concerto?... a que horas acabava?... com quem ia? Cedo aprendi que todas as perguntas merecem uma resposta. E mais cedo ainda compreendi que a 'chave' do sucesso só podia ser a verdade. Assim, obtive a minha permissão.

Escrevia, há pouco, que os dias são irrepetíveis... no entanto, hoje à noite, repeti as duas horas vividas há mais de 20 anos atrás. Fui ver os Spandau Ballet. Só o local foi diferente. A mesma companhia [na felicidade de quem tem amigos perenes], as mesmas músicas, a mesma alegria. Por momentos, fechei os olhos, no meio daquela multidão revivalista, e quase senti o tempo parado. Por instantes, tive uma breve visão da miúda que fui. Sorri. E abri os olhos... sem razões para saudosismos.

Ensaio na plateia [nossa...]

[da internet]


Na véspera de mais um dia 'convencionado', ensaio baralhar o calendário, de mulher vestir o papel de filha, e parar o tempo burocrático num sorriso de cumplicidade. Ensaio pelo meu Pai.

Quem se tem sentado, nesta minha plateia, ao longo destes dois anos de um palco tão cheio de mim, sabe o quanto gosto de bailado. Conhece também o quanto o meu Pai labutou, para fazer germinar em mim o gosto pela música clássica. Ontem, unimos as memórias de tempos sempre felizes, contrariámos os ponteiros incansáveis na voragem dos dias, e fomos ao ballet. Nem dia da Mulher, nem dia do Pai... unicamente, dia de Nós.

Há muito que a vida nos devia este momento. A Bela Adormecida, de Tchaikovsky, baseado no conto de Charles Perrault, é um bailado lindíssimo. E, quando dançado pelo Moscow Ballet, é de uma indizível beleza. No palco, em pontas de sotaque russo, os bailarinos, numa simbiose perfeita, tocaram magnificamente a música, como se instrumentos humanos fossem. Na plateia, eu e o meu Pai partilhámos o mesmo brilho no olhar, de quem entende, no silêncio, a alegria de estar ali, cúmplices num amor que não carece de palavras.

Há dias e dias... uns abrem noticiários por todo o mundo, outros mascaram-se de hipocrisia em comemorações internacionais... o nosso, meu e do meu Pai, vive-se diariamente, num calendário solene, onde apenas se agradece a existência partilhada... assim!

Intervalo [tão perto...]

[Luís]


Sei de um lugar onde silfos irrequietos cantam desventuras passadas. Onde o musgo esconde passos magoados por uma uma dança interrompida. Onde as nuvens clementes resguardam o pranto, por entre sorrisos alados. Sei de um lugar onde, na quietude das pedras, fervem desafios permanentes, que se demoram na escalada dos dias. Onde o bramido da serra promete disparos de verdade, arremessados pelo cristalino olhar. Sei de um lugar onde se acendem palavras de harmonia, simbolicamente esgotadas, na tempestade que se inventa em intervalos de nada.

Sei desse lugar, tão perto, tão dentro de mim.

Ensaio sobre o Teatrices...

[Luís]


Quem me conhece sabe que não gosto de falar de mim. Apesar de ser uma comunicadora extrovertida, quando o assunto assume dimensões em nome próprio, fecha-se a concha e visto o papel de boa ouvinte.

Perguntaram-me, um dia destes, porque criei o Teatrices. Sempre gostei de escrever. Na minha casa, atulham-se escritos, acumulados ao longo dos anos, cheios de pensamentos, contos, poemas, peças de teatro... eu, ortografada. Um dia, num desafio, quase provocatório, alguém me disse que estava na altura de arrumar a casa. Criei um blogue!

No início, pensei-o como a hipótese de guardar tantas palavras manuscritas, uma espécie de armário virtual, no entanto, até aqui me resguardei... e passei a escrever meros ensaios, pequenos intervalos. Ensaios só no sentido daquilo que se prepara... intervalos, sem tempo nem espaço, de uma vida real. Fi-lo, porque não pensei que pudesse vir a ser lida. O título surgiu de um comentário de um aluno, num ensaio verdadeiro, em cima do palco. "Isso são as teatrices da Professora." Achei a palavra uma delícia e assim ficou.

Durante algum tempo, o meu retiro resultou. Não o divulguei, não visitava outros blogues, enfim, limitava-me a desabafar o que me ia na alma. Efectivamente, só dois ou três amigos reais conheciam o caminho para o meu palco. Um dia, publiquei um ensaio sobre uma situação que estava a afectar, directamente, a minha alegria perante a vida. Um desses meus leitores, gostou tanto, que deu a chave do meu teatro a "meio mundo". E assim, uns atrás dos outros, os visitantes foram ocupando os seus lugares, na minha plateia. Felizmente. Ao longo destes dois anos, em cima deste palco, conheci pessoas incríveis, li centenas e centenas de posts, alguns passaram do palco virtual para o real...

O Teatrices levou, então, quase que inconscientemente, uma reviravolta. Os desabafos acabaram e as palavras começaram a surgir como personagens principais de uma peça dedicada à língua. Esta que eu amo. Esta que eu ensino.

Actualmente, estou sem tempo, para me dedicar a este acto maravilhoso de escrever. Admiro os meus visitantes por tudo o que escrevem. Gosto de os ler, mas falta-me tempo para os comentar. Só por isso retirei a possibilidade destes meus ensaios serem comentados. Uma relação vive também da partilha, gosto de dar, gosto de retribuir. Contudo, não tenho, por agora, esses momentos. Peço a todos que me desculpem. Abrirei o pano ao vosso carinho, quando puder devolvê-lo, como merecem.

Quanto ao Teatrices, por aqui andará... ao ritmo de uma vida cada vez mais preenchida, ao sabor de uma vontade inerente de dizer, pulsando palavras ensaiadas, num intervalo de vida. A minha...

No palco, como na vida...

[Luís]


O dia amanhecera cinzento. O frio trazia como companheira uma chuva monótona, que se arrastava pelo céu havia alguns dias. Início de tarde. Dia de ensaio.

Os meus jovens aprendizes da arte de "fingir" chegaram apressados. Nunca há espaço para tempo perdido, quando se fala de representar. Gostam.

Andamos, desde Dezembro, a ensaiar uma peça que escrevi propositadamente para eles. Cada personagem pensada para o actor, cada fala adequada à capacidade de expressão tão própria dos jovens e irreverentes sentires. "Um sonho de Mestre Gil".

No último ensaio, sem que lhes dissesse, tomei uma decisão: alterar toda a peça. Não porque não gostasse do original... não porque não me agradasse o desempenho dos meus lindinhos. Mas, sem saber explicar os porquês, senti que faltava qualquer coisa. No palco, como na vida...

Hoje, ao chegarem, apresentei-lhes uma nova peça. Espantados, sem no entanto reclamarem, pegaram nos papéis e começaram o ensaio. Correu bem. Interiorizaram as diferenças... e rapidamente transformaram as minhas palavras num momento que me fez sorrir. Esquecemos o frio molhado que fazia lá fora. Ignorámos a monotonia do dia cinzento.

No palco, como na vida, é preciso reconhecer que nada é definitivo.

Breve ensaio ardente...

[Luís]


Os corpos lembravam toros ardentes, num bailado impetuoso de paixão. Línguas de fogo emancipavam os ávidos desejos, por entre o crepitar dos murmúrios extasiados. Enlaçavam-se entregas veementes, de troncos colados na ânsia das labaredas. Impermanentes, as fagulhas deixavam um rasto de sentires pelo chão... ondulante fogueira, escorrendo amor em lava.

Inexplicavelmente, restariam apenas as cinzas.

Ensaio pelo "orgulho"...

[Luís]


Por este dias, no palco maior da Língua Portuguesa, caminhamos nessa estrada sinuosa que é o estudo d' Os Lusíadas.

Há muitos anos que os alunos chegam ao 9º ano cheios de preconceitos em relação à obra de Camões. Que é difícil, que é uma "seca", que não se percebe nada... numa palavra, chegam aterrorizados. Sorrio sempre, com estas iniciais manifestações de resistência, baseadas no famoso gosto português do "ouvi dizer".

Confesso que Camões não é o meu Poeta... no entanto, dá-me uma satisfação imensa estudar a epopeia com os meus lindinhos e provar-lhes que as ideias formadas por antecipação podem, rapidamente, esfumar-se no gosto de ter uma opinião própria, fundamentada no conhecimento.

Desde que sou professora que decidi que nunca poderia abordar semelhante obra da forma como me tinha sido apresentada, enquanto aluna. Detestei-a. Escandir versos, dividir orações, memorizar figuras de estilo descontextualizadas e saltar os episódios mais interessantes, não foram, decerto os objectivos do Poeta ao criar o poema épico.

Iniciámos, então, esta caminhada, partindo de uma proposta de leitura simples: demonstrar "o intuito de dignificar o homem na sua real grandeza, que resulta da sua vitória permanente sobre a sua congénita fraqueza". Vencer os medos, enfim... Sei que não é simples, de qualquer forma, fazê-lo perante alunos que, cada vez mais, desconhecem a sua História, a sua Língua... pouco sabem de geografia, de religiões, de política, de humanismo, de valores...

Serve-me, assim, a narrativa camoniana para ir preenchendo, aos poucos, algumas lacunas culturais dos meus meninos. A reacção é sempre boa, discutem, argumentam, falam, duvidam, perguntam... e gostam!

Ora, numa destas aulas, clarificávamos a forma como Camões defende a Pátria, apesar da consciência, inquieta e amarga, de que o seu tempo já não é um tempo de grandeza [nunca mais foi, mas isso é outra história]. Rapidamente, um dos meus lindinhos trouxe para a discussão o Amor... justificação fácil, de tantas coisas complicadas. Um outro resolveu acrescentar à conversa o "orgulho" de ser português. Foi aí que a aula enveredou por outros caminhos. Autênticos atalhos, que fazem a beleza da caminhada, e que nenhum Programa, nenhum Ministro, nenhum Governo pode prever [nem desvalorizar].

A turma em causa é constituída também por alguns alunos oriundos de países que não têm o Português como Língua Materna. A minha lindinha ucraniana ouvia tudo como muita atenção, escrevia algumas coisas, e, quando surgiu a palavra "orgulho", colocou o braço no ar. A dúvida, num sorriso: "Professora, eu não sei o que é orgulho.". "Sabe, sim." respondi "Mas os seus colegas vão explicar-lhe." E foi assim que, gota a gota, pelas explicações dos meus alunos, o sorriso da minha menina transbordou, como um lago cristalino de certeza: "Já compreendi, Professora. Tenho orgulho em ser ucraniana."

Os Lusíadas são uma obra difícil? Talvez... contudo, receber um sorriso, porque se compreende, é tão fácil!

Ensaio pelo presente [feliz...]

[Alexandre]


Sei bem que um dia terei de dissolver cada momento desta história, no mar do nosso encontro...

No bramido de sal, afundarei os resquícios de saudade. No ímpeto da maré-cheia, apaziguarei cada elo da intrusa consciência. No delírio da espuma, arrancarei a âncora de um genuíno sentir.

Sei bem que um dia, junto ao mar do nosso encontro, conjugarei o tempo num impossível porvir.

Até lá deixa-me fundear contigo neste cais de felicidade.

Ensaio extraviado...

[Luís]


Olhou vezes sem conta a folha branca. A noite estava fria. As nuvens pesadas agitavam-se na antecipação da impetuosa torrente. Lavar-se-iam as horas vazias... e o caos do pensamento alinharia rasgos de ordem.

A folha branca, expectante, calma, iluminava o escuro que jorrava da janela. Era já uma decisão: escreveria aquela carta. Começou resoluta... Hoje, algures por aqui, no ano em que te perdi.

Depois, com determinação, tingiu cada palavra com os afectos nunca pronunciados; desenhou em cada letra o silêncio da ausência; translineou os momentos vividos; relembrou, sílaba a sílaba, as gargalhadas de dias felizes; e a cada ponto final sentiu as promessas vãs de uma mudança de parágrafo.

Em momento algum redigiu um lamento, não podia, não havia... antes agradeceu as vivências partilhadas. Aquietou-se no final da carta, "tudo acaba/no começo de um dia". Assinou-se, corpo e alma, simplesmente, EU.

Lacrou-se em envelope de correio azul, mas antes, num acto de consciência, colocou a cruz na opção a preencher pelo destinatário: "Mudou de endereço".

Era isso, correspondência extraviada, para quem já não morava na sua vida.



Talvez... [não seja tarde]

[Luís]


Ainda o palco. O cenário previsível: reduzido a nada. Luzes - dois focos difusos, derramando sombras cansadas nas paredes. Silêncio na sala. Vazia, a plateia. Ensaio apenas. Sempre.

Boca de cena. Duas quase personagens, lado a lado. Fim da didascália. Algumas falas de uma peça talvez absurda...

UM - Talvez o rio se aprisione nas margens do não-dito, ou permaneça leito emergente de um desejo por inventar...

[sem gestos, sem movimento]

OUTRO - "Ainda não é tarde, para descobrir a verde planície que conduz ao mar."

[sem um único movimento]

UM - Talvez o vento desfaleça no cântico breve da poesia, ou se esconda nas arestas da insónia...

OUTRO - "Ainda não é tarde, para atingir a colina suave onde podes adormecer."

[silêncio prolongado]

UM - Talvez o orvalho se esvaeça nos grilhões da distância, ou deslize etéreo num morder desértico de lábios...

OUTRO - "Ainda não é tarde, para beijar o estigma róseo da flor do cacto!"

UM - Talvez a asa se rasgue no som abafado da impermanência, ou alinhave nervuras paralelas no coração...

OUTRO - "Ainda não é tarde, para alcançares a dimensão de um sonho real!"

[cada vez menos luz na sala]

UM - Talvez nunca seja tarde para mais um ensaio...

[escuridão total. silêncio unicamente quebrado pelo sorrir da encenadora]
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[entre aspas, versos de Albino Santos]