Um olhar sobre ...


Esta é a minha Lisboa, em rabiscos descendentes, perdidos na ruela vazia.

Ensaio pelo regresso...





        Um dia não haverá regresso e ficarei por aí, entre o azul e o verde da minha alegria.

Já não...



     Já houve dias em que acreditei que a subida seria natural. Qualquer subida, principalmente a profissional. Tinha o sonho, passível de ser real, de contribuir de forma natural e única para a transmissão de saberes, de valores, de conhecimentos, de experiências positivas de vida. Não foi real! Ou melhor, durante uns anos, e para ser justa, foi mesmo materialmente real.
    Tudo mudou. Os alunos já não o são, passeiam em espaços ficticiamente fechados e seguros, carregados de tecnologias, ligados a pilhas de lítio, massacrando a íris com gráficos repetitivos e obtusos. Os alunos já não são miúdos com receios naturais em crescer, com crises pré-adultas, já não...
   Em algum momento falhámos, talvez quando deixámos de ter tempo. Os valores perderam-se e os sentimentos, sim, os sentimentos já não grassam nos corações dos nossos jovens. Os alunos são indiferentes, incultos, insensíveis. Curiosamente, penso tantas vezes que a utopia tornar-se-á realidade, em breve, e, sem muito esforço, seremos governados por máquinas... os nossos alunos.

Ao longe... uma luz






Por vezes, gostava de ser um barco, navegar na gávea da proa, só para ser a primeira a avistar a terra serena onde os ventos se amainam e repousam todos os pensamentos.

Ensaio pelos meus pais....

Hoje é dia dos meus Pais! Um 25 de abril comemorado há 50 anos. Cinquenta anos de uma “liberdade” feita “prisão” desejada, feita partilha dos momentos tristes e  dos felizes; das raivas e dos sorrisos; dos obstáculos e das gargalhadas; dos desencontros e das reconciliações; das dificuldades e das recompensas; de pequenos nadas e de imensos tudos; de histórias e de vidas; de sabedoria e de afetos... cinquenta anos cheios de vida! A vossa, que também é nossa! Parabéns. 

Ensaio já velho




No primeiro dia do ano, reuniram-se, em consílio, as palavras. Cansadas da anarquia reinante, na casa da língua, exigiam ser ouvidas. Reclamavam por uma deliberação justa, que impedisse que fossem truncadas, aleatoriamente, na sua essência morfológica, ou substituídas por estrangeirismos petulantes. Queriam, ainda, que as não disfarçassem, de forma sistemática, de sentidos que nunca pediram...


Tentou-se uma certa ordem na assembleia. Deu-se, assim, palavra à primeira palavra. Falou, com voz serena, em nome de todas as palavras gastas. Essas que se proferem, vezes sem conta, sem que se pense no gosto de saboreá-las. Essas que, de tanto serem ditas sem sentimento, perdem a cor do significado. Gastas pelo abuso único de quererem fazer delas meras muletas linguísticas. Pediam unicamente a denotação primeira. Aplauso na reunião. "Que não se gastem as palavras!", perpassava no auditório.

Fizeram-se ouvir outras palavras... interditas, populares, insurgentes, esquecidas, amadas, odiadas, vivas, vazias, correntes, cuidadas...

Quase no final do encontro, levantou-se uma palavra diferente. Permanecera calada, no meio dos acalorados discursos. O murmurar que, entretanto, se instaurou, ressumava a admiração de todas as outras. Conheciam-na por resistente. Disse:

Que a deliberação seja uma, apenas. São belas todas as palavras. Procuremos, então, quem com elas estabeleça uma relação de amor ingente, quem as pronuncie com paixão, quem as procure nos recônditos cantos desta casa da língua, quem as reorganize em efeitos conotativos, quem as crie em renovação constante... quem as saiba usar no quebrar do silêncio.

E nada mais havendo a tratar, deu-se por encerrada a reunião.

No início de um novo ano, que as palavras regressem, em arestas aladas de esperança, para a voz de quem as ama.

Ensaio do exagero...




     Por vezes, sabe tão bem ser-se surpreendida, com as palavras, ainda que hiperbólicas, que outros nos dirigem.
     É assim, também, este palco: cheio de mim!

Ensaio sobre a memória...



Uma janela  resguarda as memórias...

Ensaio por nós...


Nós... como as nozes.

Ensaio por uma flor...



Trouxe do jardim...

Ensaio por um Natal...


[Luís]

[republicação]

Cenário despido de adereços. Foco de luz difusa, em tons de vermelho-sangue. Duas personagens [sempre duas], vestidas de preto, sentadas no meio do palco. Costas com costas. Silêncio absoluto. Fim da didascália. Início absurdo de uma peça por inventar.

UM - Dizem que o Natal chegará, quando uma estrela solidária ecoar distante, no cume de uma árida montanha.

OUTRO - Dizem que sim! que chegará inquieto num braço de insónia, aniquilando todas as falsidades.

UM - Dizem que, nesse dia, os rios alucinados semearão enchentes de paz em margens distraídas.

OUTRO - E que o sol parará o tempo, recusando o renascer de todas as solidões.

UM - E que as mãos dos homens se transformarão em garras de afectos.

OUTRO - Dizem que o Natal chegará, quando as árvores se enraizarem em terrenos arados de verdade.

Silêncio. Apaga-se o foco. Ouvem-se apenas as vozes, no palco escuro.

UM - E dizem quanto faltará para esse dia?

OUTRO - Tanto!... que faltará sempre tanto!

Fim de cena.

[Bom Natal, para quem passa neste palco.]

Ensaio por um sorriso...



Naquele dia, solitária em cima de um palco noturno, a encenadora esperava que alguém lhe colasse um sorriso na sua face.
Fitava o pó espalhado pelo chão vazio, cravado de tantas memórias felizes... Ao fundo, alguns adereços esquecidos pareciam gritar as tantas gargalhadas outrora divididas com a vida.
Centralizou o seu olhar no pano de cena. Gasto, velho, cansado das imensas aberturas aplaudidas com genuíno sentimento. Um sorriso. Faltava-lhe um sorriso. Um sorriso que, como diria Saramago, não tivesse a definição pobre e fria de um dicionário. Um sorriso que apagasse todas as mágoas, que varresse as dúvidas, que clarificasse todas as incertezas.
Um sorriso verdadeiro... daqueles que aquecem o sabor dos dias no calor de um olhar. "Não custa nada..." - ouvira algures - "... colocar um sorriso no dia de alguém."
Não custa nada! No entanto, naquele dia, no centro de um palco apagado, gélido de ausências, nada faria sorrir a encenadora. Sentia a peça raiada a falsidade. E as personagens? Tipo, personagens-tipo de uma sociedade massificada pela mentira.
Queria a verdade, unicamente a verdade que a faria, de novo, sorrir.
"Não custa nada!"

Ensaio para empatar...


O meu palco anda perdido... no eterno adiar da vontade. Preencho, então, o vazio com outras palavras, também minhas, mas longe, muito longe de qualquer palco.


Chegarei...

Sei de um lugar longínquo
Onde os dias renascem,
Dissipando a espuma das noites
No rebentar do sonho.

Sobre os trilhos sinuosos da floresta,
Dançam silfos desenhados no ar.
Cingem regatos bem-aventurados,
Num desejo veemente
Que antecipa o eterno reencontro.

Cruzarei o fogo encantado,
Chama viva de sentimentos por escrever…
Devorarei todas as cinzas da teimosa Fénix,
Para que as palavras se renovem
À minha chegada.

Irei!

Espera-me, no lugar de sempre!
Onde a poesia nos protegerá
Do esquecimento dos deuses. 

Ensaio pelo vazio...

[Luís]


trago os dedos cansados de me escrever
no silêncio das folhas brancas
vazias
tão vazias

houve tempos em que acreditei
ingenuamente
que o delírio com que desenhava cada letra
me libertaria esta alma agrilhoada

e escrevia-me
como se cada palavra
fixasse no papel sentimentos permanentes
como se cada frase ortografasse raivas
e desejos
sorrisos
e lamentos
como se cada verso
coerentemente dissesse a minha vida

houve tempos em que a tinta
foi lastro de fúria incontrolável
foi mel derramado sílaba a sílaba
foi matiz de felicidade
foi desilusão líquida em cristais salgados

trago os dedos cansados de me escrever
no silêncio das folhas brancas
vazias

tão vazias
de mim