Ensaio com destinatário...

[Graça]


Falas-me do nevoeiro que te abraçou no cansaço dos dias. Da inquietude que não te permite ver a distância, sem o prazo denso da névoa. Falas-me da ausência que te esgotou, nas palavras com que acendias o amor...

Cedo-te a lembrança da dança dos faunos, na embriaguez dos sons da floresta. Do cantar profético das árvores, no enraízar dos sentimentos serenos. Da brisa meiga dos caminhos, na procura de um verde chegar. Dos raios persistentes de luz, no saciar da sede de verdade.

Dou-te um sorriso encantado pelos pinhais, no desejo que renasças... feito verso de um poema.

Ensaio pelo amanhã.

[Luís]

Hoje, acordei com o poeta no pensamento. Acontece-me algumas vezes, quando os meus dias adormecem no cansaço da tristeza; quando a minha noite se resume ao sono agitado, feito batalha medieval, no duelo suado entre os cavaleiros da razão e do coração. Ou, então, quando as paredes brancas do meu quarto se pintam de insónia, e, nas sombras desenhadas, surge aquela antiga balança da mercearia da minha infância, com o seu fiel em oscilação desesperada, sem conseguir o equilíbrio pretendido na fidelidade dos dois pratos de cobre. Tenho raras noites assim. Mas tenho!

Hoje, acordei com o poeta no pensamento. Há muito que me acompanha, neste caminhar pelas palavras que serenam o meu sentir, que me obrigam a denotar pensamentos, que preenchem a lacuna do meu dizer. O meu Poeta. Fernando Pessoa.

Há pouco, ao chegar a este canto de mim, peguei num dos seus livros. Abri-o, como quem precisa de clarear o espírito... e li:

"Que coisa é essa que procuras dentro das coisas?
Qual o pensamento que o teu pensar não alcança?
Por que céu voam as poderosas asas do teu espírito?
A que altas visões lhe é doloroso estar cego?"

Interiorizei as perguntas. Procurei as respostas. Calei a tristeza. E senti-me pronta para iniciar mais uma peça. Amanhã, abrirei, de novo, o pano aos dias felizes.

Um primeiro ensaio [que não é novo]


[Graça]

Diz quem sabe que o Teatro, enquanto manifestação artística, é tão velho quanto o Homem. Provavelmente, nasceu desse desejo intrínseco e inexplicável de se ser um outro, que não o próprio. Ou talvez não. Bem, seja como for, é incontornável o Teatro!

No meu Teatrices, tenho “brincado” com as analogias entre esta arte e a própria vida... a minha vida. Nada de estranho, é certo. As semelhanças são evidentes, e não é por acaso que se associa o aparecimento das primeiras "dramatizações" à própria história do ser humano. Depois, como é óbvio, vieram os Gregos, mas isso é outra história...

O palco dos dias, o pano cansado de tantas aberturas, o cenário por vezes vazio de entendimento, o actor de mil papéis, as falas perdidas no desconhecimento da deixa… adereços supérfluos, pontos que não existem, encenador rouco da marcação errada, dramaturgo gasto na repetição da peça. Palavras, meras palavras de significado conhecido e devidamente contextualizado. Teatrices, enfim.

No entanto, e para mim, a verdadeira razão de ser do Teatro é o Público. Essa realidade ideológica e culturalmente mutável, que tanto se levanta no aplauso a raiar o bravo, quanto se retrai no apupo sentido e sonoro. É destas expectativas individuais, [e colectivas, porque não], que nasce, sem dúvida, o sucesso da representação.

Serve o intróito, a ante-cena, a pré-peça, sei lá, para dizer tão-somente que Setembro começou... e eu tenho saudades do meu público! O meu verdadeiro e espontâneo público. Os meus alunos. Essa alegre plateia que regressa, no início da temporada lectiva, cheia de novas esperanças. Que aplaude, sem pudor, o entusiasmo da actriz, que, da mesma forma e criticamente, rejeita as falas gastas e descaracterizadas de um programa irreal. O meu jovem público é exigente. Gosta de argumentar, de explicar, de dizer e contradizer, de escrever, de ler, de fazer poesia para agradar a encenadora.

Tenho saudades do meu público. Do brilho de cada olhar, marcado pelo silêncio de quem guarda anseios a partilhar; do calor de cada sorriso, reclamando um gesto de atenção; do sentido “bom-dia”, que requer um desenvolvimento, sem conclusão na afectividade. Tenho saudades de sentir, em cada aula, o crescer das ideias, o mudar da voz, o coração escrito nas primeiras paixões.

Tenho saudades do meu público. Esse que também resiste à leitura, porque soletra; o que foge à escrita, por ausência de teclas; o que tropeça nas muletas linguísticas, sem conseguir verbalizar o seu pensamento; o que se atrapalha no pegar da caneta, por ser mais leve que o telemóvel.

Neste primeiro dia de Setembro, sinto saudades dos meus alunos. Só por eles vale a pena representar esta “difícil” peça de ser Professora.

Uma nova temporada...

[Luís]

Suspendeu, com nó lasso, cada intervalo de si, no gancho resistente da memória. E, no silêncio de sombras do poscénio, preparou-se para mais uma representação.

Apeteceu-me [um breve ensaio]




O dia surgiu sem rasto de tristeza. No entanto, a chuva caía miudinha, irreverente na indecisão de molhar ou não molhar, de se fazer ouvir, ou nem por isso. E o céu, provavelmente cansado de um reinado de luz e calor dos últimos dias, fechara as portas cinzentas ao rei Sol.

Cenário mais-que-perfeito, em modo indicativo, para abrir o pano nesse palco de imensidão verde. A peça não teria metáforas gastas, nem hipérboles em forma de intervalo. Não se procurariam antíteses no dizer, nem sentires perifrásticos. Seria o real. Sem figuras poéticas.

Iniciámos a caminhada. Os brados do arroio, com pretensão a regato, rasgavam, alegremente, a descida íngreme do monte. No meio do matagal, começaram a surgir as primeiras construções de pedra. Chegáramos. Nem velas, nem pás, nem vento, nem Quixote... Moinhos de água. Apenas.


[Graça]


Pelo momento...

[Graça]

Sou pelo momento…

em que se inicia a subida da serra, na alegria frondosa de gigantescas árvores… em que se caminha, por trilhos árduos e quase secretos, calmamente até à penedia árida e cinzenta, que nos espera no cume…

Sou pelo momento…

em que se vê, lá em baixo, serpenteando com orgulho, esse curso de água quase a abraçar o mar… em que a paixão se desenha, na sua admirável natureza, verde e equidistante das margens… em que se agradece o azul pairando a um palmo do pensamento… em que se sente o sangue correr velozmente, em direcção à foz… em que se respira a própria Natureza… em que se imagina que a ilha é dos amores, e que o nosso coração está plantado no meio de um rio…

Sou por qualquer momento que, continuamente, me lembre de ti.

Pelo silêncio...


[Graça]



Sou pelo silêncio...

que abranda o calor dos dias... que se aquieta no ruído surdo do verdejante das árvores... que se propaga no regato de águas claras, rasgando trilhos serpenteados... que se abstém de palavras no remanso das rochas... que se cola na alegria calma das hortênsias... que se orna da dança de estrelas, no negrume do céu... que guarda as memórias decalcadas de te ser essencial... que apazigua a vontade de gritar o que não deve ser dito.

Sou pelo silêncio... que se emudece em mim.

Pelas horas...

[Graça]


Sou pelas horas...

que se despem do trinar monótono, na repetição dos dias... que tecem caminhos indeterminados, no vagar que não cansa... que se divertem no amalgamar de sóis e luas, sem poentes minguantes... que respiram o silêncio telúrico entre serras paradas... que rasgam ondas de sal no abrigo das enseadas... que alimentam o calor das mãos presas no brilho de um olhar... que sorriem na recusa da contagem.

Sou pelas horas... que se gastam em mim.

Ensaio sobre a partida...

[Graça]


Quando entrou no camarim, sentia-se vazia. Destituída de si. Era sempre assim, no final de mais uma temporada.

Sentou-se em frente ao espelho e começou a limpar a personagem. Lentamente. Cansada. A peça, que durante um ano representara, era um monólogo exigente. Fixou o olhar no reflexo da sua boca. Percebeu que as suas palavras tinham desertado, fatigadas de tanto serem ditas e reditas, sem o almejado retorno. Mas era peça de actriz única! Assumidamente, um solilóquio. Só o carinho do público a fizera estar todo aquele tempo em cena. E arrumou-o na saudade.

Esfregou energicamente os últimos vestígios da máscara que se apoderara da sua pessoa. Só então reparou na flor que alguém deixara sobre a mesa. A única que gostava. Levantou-se e espreitou o cartão. Sem assinatura. "O teu lugar é aqui!". Sorriu. Conhecia as palavras. Sabia o caminho. Pegou na flor, apagou as luzes, fechou a porta devagar... e partiu.


[Boas férias.]

Breve ensaio sobre o amor...

[Luís]

Há um véu de acalmia que cobre os meus dias. E posso, como dizia Eduardo Lourenço, encetar "a fuga para céus mais propícios"...

Refugio-me, então, no silêncio desses braços que me acolhem [sem perguntas, sem exigências, sem cansaços]. É uma relação despretensiosa, perene, que ilumina uma parte da minha vida. Perco-me nessa ligação que me compreende, que me dá as palavras que procuro.

Leio. Muito. Tanto que chego, numa atitude quase inconsciente, a apaixonar-me por um autor, por um livro, por algumas frases. Como estas: "Viver é muito fácil, porque meço a partir de ti o norte e o sul. Basta que existas para que os meridianos se arrumem e os oceanos não transbordem." [Teolinda Gersão]

Gosto de palavras, enfim...

Desce o pano...




Desce o pano, cansado, no palco de tantas representações....




[Graça]

.
... porque há um tempo de partir,
.
e uma outra peça por inventar...

.
... porque há palavras que sonham ser itinerantes,
.

e, no abrigo de um sorriso, renascer.

.

Num intervalo [dos opostos]...

[Paola]

Embrulhei o meu querer desavindo, na espuma insurgente do deserto.
.
Conciliei, por entre ondas de areia ardente, um desejo contraditório.
.
Fixei as raízes do meu sentir numa duna espelhada a sal.
.
E, finalmente, na aceitação dos opostos, serenei o meu amor.


[Luís]

Ensaio por um poema...

[Graça]


Por vezes, dava-me jeito as mãos de um poeta. Mãos calejadas da lavra, nos terrenos inóspitos da língua. Mãos desses seres admiráveis, que plantam árvores de sentires, onde se colhem palavras-frutos, recusando peias de gramática.

Por vezes, gostava de ter o olhar de um poeta. Olhar fulgente da ilógica das emoções. Olhar translúcido na métrica desmedida, que ressuma, a cada sílaba, a visão de um mundo inverso.

Por vezes, precisava do saber-dizer de um poeta....

...quando sinto que o mar, fugidio e teimoso, insiste em esconder o cais, onde eu sempre quis aportar... quando me gasto em ondas de palavras que nenhuma rocha compreende... quando, no adensar das nuvens, tento vislumbrar um farol de entendimento... quando o vento, disfarçado de doce zéfiro, me sopra imperativos adversos ["que se rasgue o sonho!"].

Se hoje, por um mero acaso, tivesse acordado poeta, não rasgaria o meu sonho... ele seria somente um poema a navegar em mim.

Um intervalo [na fonte]...

[Graça]



Pararam, um pouco antes da ponte.

- Vamos à fonte?

A pergunta acordou, no fundo da sua memória, outras tardes como aquela...

- Queres ir à fonte?

... a sinuosa descida, até à nascente, estava sempre salpicada de amoras. O canto alegre da água, a gargalhar na pedra cinzenta, ouvia-se muito antes de avistar, por entre os milheirais, aquele tanque natural... e, finalmente, a alegria de colar os lábios no frescor líquido que brotava da serra...

- Vamos à fonte?

Há muitos anos que não ia à fonte!

- Outro dia...

E assim calou o receio de que, da rocha imensa, já não jorrassem as tardes límpidas da sua infância.

Um ensaio passado [pelo presente]...

[Ηχώ και Νάρκισσος - Eco e Narciso - de Carlo Rochas]

Uma representação teatral será sempre mais rica, quanto maior for o tempo dedicado à complexidade das relações humanas. Desde as grandes tragédias gregas, às densas peças de Shakespeare, que uma boa peripécia passa por essa luta constante entre "um" e "outro". Leia-se homem e mulher, homem e homem, mulher e mulher. Relações humanas. Muitas vezes, nessas peças de cinco actos, o verdadeiro clímax surgia com o eterno desencontro, ou com o efémero encontro. Teatro, já se vê!

E no palco improvisado desta nossa existência? Provavelmente, a asserção devia ser a mesma.
Peguemos num exemplo mitificado de uma relação que, sendo produto de uma criativa ficção helénica, podia muito bem ilustrar algumas "cenas" na peça real. Eco e Narciso. O mito é simples. Narciso, dono de uma beleza incomparável, arrastava paixões. Eco, ninfa há muito castigada por ser "tagarela", apaixonou-se pelo dito. Perseguia-o por todo o lado, mas incapaz de comunicar com ele. Ele ignorava-a, ostentando com segurança a sua beleza. Eco perdeu a vontade de viver, até que se transformou numa rocha. As outras ninfas pediram castigo exemplar para o elemento masculino. Assim foi. Castigado a ter um amor impossível. Um dia viu a sua imagem reflectida num rio e apaixonou-se por ela. Nunca mais conseguiu tirar os olhos da sua imagem, até que definhou e morreu.

Os gregos eram espantosos! Tanta conversa para chegar à brilhante conclusão que, por vezes, as relações humanas são autênticos desencontros. Eu acrescentaria, se me é permitido, que o grande problema reside na dificuldade que as pessoas têm de dizer "nós". Vive-se, narcisicamente, na sociedade do "eu". O ser humano isola-se, por opção egoísta, em si mesmo, esquecendo que temos uma necessidade intrínseca de nos darmos ao outro. Já alguém dizia que ninguém consegue viver só, ou então é uma besta, ou um deus.

Mas insistimos nessa autêntica representação do "eu". Eu sou. Eu posso. Eu quero. No Teatro não aprecio monólogos. Podem ser alvo de magníficas críticas, podem ser o momento alto na carreira de um actor. Contudo, quando assisto a este tipo de peça, acho que falta sempre qualquer coisa. Falta o outro. Aquele que permite todo o despique verbal, toda a essência da linguagem que criou três pessoas e não uma. Que só entende um "eu" em função de um "tu" e, de preferência, que fale de um "ele".

Qualquer mito faz-nos pensar. O de Eco e Narciso traz-me ao pensamento duas ilações. Que é difícil viver sem poder comunicar [Eco]. Que colocar no centro da nossa existência a nossa própria pessoa pode levar à não existência [Narciso].

Hoje, no meu singelo palco, sou pela pluralidade de um nós, que respeite a singularidade do meu eu.

[Tem quase um ano o ensaio... passado, portanto... mas, hoje, só porque é hoje, pareceu-me tão presente.]