Breve ensaio sobre o amor...

[Luís]

Há um véu de acalmia que cobre os meus dias. E posso, como dizia Eduardo Lourenço, encetar "a fuga para céus mais propícios"...

Refugio-me, então, no silêncio desses braços que me acolhem [sem perguntas, sem exigências, sem cansaços]. É uma relação despretensiosa, perene, que ilumina uma parte da minha vida. Perco-me nessa ligação que me compreende, que me dá as palavras que procuro.

Leio. Muito. Tanto que chego, numa atitude quase inconsciente, a apaixonar-me por um autor, por um livro, por algumas frases. Como estas: "Viver é muito fácil, porque meço a partir de ti o norte e o sul. Basta que existas para que os meridianos se arrumem e os oceanos não transbordem." [Teolinda Gersão]

Gosto de palavras, enfim...

Desce o pano...




Desce o pano, cansado, no palco de tantas representações....




[Graça]

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... porque há um tempo de partir,
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e uma outra peça por inventar...

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... porque há palavras que sonham ser itinerantes,
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e, no abrigo de um sorriso, renascer.

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Num intervalo [dos opostos]...

[Paola]

Embrulhei o meu querer desavindo, na espuma insurgente do deserto.
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Conciliei, por entre ondas de areia ardente, um desejo contraditório.
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Fixei as raízes do meu sentir numa duna espelhada a sal.
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E, finalmente, na aceitação dos opostos, serenei o meu amor.


[Luís]

Ensaio por um poema...

[Graça]


Por vezes, dava-me jeito as mãos de um poeta. Mãos calejadas da lavra, nos terrenos inóspitos da língua. Mãos desses seres admiráveis, que plantam árvores de sentires, onde se colhem palavras-frutos, recusando peias de gramática.

Por vezes, gostava de ter o olhar de um poeta. Olhar fulgente da ilógica das emoções. Olhar translúcido na métrica desmedida, que ressuma, a cada sílaba, a visão de um mundo inverso.

Por vezes, precisava do saber-dizer de um poeta....

...quando sinto que o mar, fugidio e teimoso, insiste em esconder o cais, onde eu sempre quis aportar... quando me gasto em ondas de palavras que nenhuma rocha compreende... quando, no adensar das nuvens, tento vislumbrar um farol de entendimento... quando o vento, disfarçado de doce zéfiro, me sopra imperativos adversos ["que se rasgue o sonho!"].

Se hoje, por um mero acaso, tivesse acordado poeta, não rasgaria o meu sonho... ele seria somente um poema a navegar em mim.

Um intervalo [na fonte]...

[Graça]



Pararam, um pouco antes da ponte.

- Vamos à fonte?

A pergunta acordou, no fundo da sua memória, outras tardes como aquela...

- Queres ir à fonte?

... a sinuosa descida, até à nascente, estava sempre salpicada de amoras. O canto alegre da água, a gargalhar na pedra cinzenta, ouvia-se muito antes de avistar, por entre os milheirais, aquele tanque natural... e, finalmente, a alegria de colar os lábios no frescor líquido que brotava da serra...

- Vamos à fonte?

Há muitos anos que não ia à fonte!

- Outro dia...

E assim calou o receio de que, da rocha imensa, já não jorrassem as tardes límpidas da sua infância.

Um ensaio passado [pelo presente]...

[Ηχώ και Νάρκισσος - Eco e Narciso - de Carlo Rochas]

Uma representação teatral será sempre mais rica, quanto maior for o tempo dedicado à complexidade das relações humanas. Desde as grandes tragédias gregas, às densas peças de Shakespeare, que uma boa peripécia passa por essa luta constante entre "um" e "outro". Leia-se homem e mulher, homem e homem, mulher e mulher. Relações humanas. Muitas vezes, nessas peças de cinco actos, o verdadeiro clímax surgia com o eterno desencontro, ou com o efémero encontro. Teatro, já se vê!

E no palco improvisado desta nossa existência? Provavelmente, a asserção devia ser a mesma.
Peguemos num exemplo mitificado de uma relação que, sendo produto de uma criativa ficção helénica, podia muito bem ilustrar algumas "cenas" na peça real. Eco e Narciso. O mito é simples. Narciso, dono de uma beleza incomparável, arrastava paixões. Eco, ninfa há muito castigada por ser "tagarela", apaixonou-se pelo dito. Perseguia-o por todo o lado, mas incapaz de comunicar com ele. Ele ignorava-a, ostentando com segurança a sua beleza. Eco perdeu a vontade de viver, até que se transformou numa rocha. As outras ninfas pediram castigo exemplar para o elemento masculino. Assim foi. Castigado a ter um amor impossível. Um dia viu a sua imagem reflectida num rio e apaixonou-se por ela. Nunca mais conseguiu tirar os olhos da sua imagem, até que definhou e morreu.

Os gregos eram espantosos! Tanta conversa para chegar à brilhante conclusão que, por vezes, as relações humanas são autênticos desencontros. Eu acrescentaria, se me é permitido, que o grande problema reside na dificuldade que as pessoas têm de dizer "nós". Vive-se, narcisicamente, na sociedade do "eu". O ser humano isola-se, por opção egoísta, em si mesmo, esquecendo que temos uma necessidade intrínseca de nos darmos ao outro. Já alguém dizia que ninguém consegue viver só, ou então é uma besta, ou um deus.

Mas insistimos nessa autêntica representação do "eu". Eu sou. Eu posso. Eu quero. No Teatro não aprecio monólogos. Podem ser alvo de magníficas críticas, podem ser o momento alto na carreira de um actor. Contudo, quando assisto a este tipo de peça, acho que falta sempre qualquer coisa. Falta o outro. Aquele que permite todo o despique verbal, toda a essência da linguagem que criou três pessoas e não uma. Que só entende um "eu" em função de um "tu" e, de preferência, que fale de um "ele".

Qualquer mito faz-nos pensar. O de Eco e Narciso traz-me ao pensamento duas ilações. Que é difícil viver sem poder comunicar [Eco]. Que colocar no centro da nossa existência a nossa própria pessoa pode levar à não existência [Narciso].

Hoje, no meu singelo palco, sou pela pluralidade de um nós, que respeite a singularidade do meu eu.

[Tem quase um ano o ensaio... passado, portanto... mas, hoje, só porque é hoje, pareceu-me tão presente.]

Ensaio pelo encantamento...

[Graça]


Gerara em si, desde sempre, o desejo de ser luz difusa trancada à chave num imenso pinhal.
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Queria, num só olhar, morder juncos quebrados na margem do rio. Ambicionava adormecer naquele curso de água do esquecimento, embalada pelo harmonioso linguajar do verde. Saborear, em cada sorriso, o tempo a cinzel inscrito nos penedos. Respirar o som das asas da liberdade. Ser raíz de torga sem beleza florida.

Queria, num só olhar, trepar troncos carinhosos e tecer abraços naqueles ramos frondosos. Desejava tocar o pó das nuvens, geometricamente desalinhadas, no azul do céu. Procurar o beijo doce do vento, dançando melodias de caruma, nos sinuosos atalhos. Beber com paixão a gargalhada quente do dia sedutor.

Gerara, em si, desde sempre, o desejo de, por mero encantamento, se perder na sinestesia desse encontro natural.

Um ensaio que não meu [ainda a noite...]

[Jorge Soares]



"Há momentos em que passo

Colho tuas palavras

Na inocência dos teus olhos…

Há momentos em que fico

Quando a noite

Em teus olhos de lua

Me prende ao seu fascínio…"



Albino Santos [5/07/2009]

Um ensaio pela noite...

[Luís]


Quis aprisionar o dia nas grades da memória.


Mas a razão, astuta, escancarou as portas do cárcere do pensamento.



E o dia esvaiu-se, calando o traço do horizonte, num lacónico poente.

Um ensaio feliz...

[Graça]


Tecem-se tramas de vida, em liços de alegria. O pente, na urgência do vaivém, desfaz os nós dos dias. E há um pedal, teimoso no seu laborar, urdindo peças felizes.

"Quero ser Professora!"

[Graça]


Desde que entrei no palco escolar, há quase duas décadas, que visto com alegria o papel de directora de turma. Gosto de pegar nos meus lindinhos, no início do terceiro ciclo, e acompanhá-los até ao final da sua escolaridade. Vê-los crescer, mudar a voz, assistir às suas primeiras lágrimas de amores não correspondidos, fomentar as suas certezas, partilhar as suas dúvidas, incentivar escolhas, são as 'deixas' diárias, nos anos que passamos nesta peça conjunta.

Há uns anos atrás, já num momento da vida em que tem de se começar a pensar no futuro, trabalhávamos, eu e a minha direcção de turma, as possíveis saídas profissionais. Foi um ano rico em encontros com vários profissionais de áreas diferentes, que os meus lindinhos foram conhecendo, no sentido de orientar os seus dias a haver. Sempre fui apologista de que se deve escolher a área de que se gosta, independentemente de tudo o resto. Gosto de pensar que, antes de mais, os meus lindinhos serão adultos felizes, realizados numa profissão que lhes encha a alma. Como eu!

Num determinado momento do ano, os meus alunos tinham de responder a um questionário, onde uma das perguntas era clara: o que se imaginava a fazer, dentro de dez anos. Uma das minhas lindinhas escreveu "Professora, quero ser professora."

Na altura, já tanto tinha mudado no sistema de ensino, já se tinha perdido o respeito por esta bela profissão. Não tentei demovê-la. Seria contra todos os meus princípios. Optei por lhe explicar como poderia ser o seu futuro, sem trabalho garantido, sem noção de dias da semana, porque todos iguais, sem reconhecimento pela dedicação extrema que leva muitas vezes a descurar a outra parte da nossa vida... mas a resposta foi sempre a mesma "Quero ser professora!". Os pais vieram assustados falar comigo, o que poderiam fazer para retirar ideia tão absurda da mente da sua filha. Tentámos, de novo, pintar o possível cenário de uma vida incerta. Não foi suficiente. E a minha menina seguiu o seu rumo. Perdi-lhe o rasto...

Hoje, passeava, com a minha companhia habitual, junto ao rio da minha cidade, saboreando, finalmente, a tarde de um sábado descansado, quando, de repente, ouvi alguém chamar-me: "Professora?!". Já não era a minha menina que tinha à frente... era uma jovem mulher, de olhos doces, como ainda recordava. Conversámos um pouco. O curso tirara... o estágio fizera, sim, tinha sido um dos anos mais felizes da sua vida... dar aulas de Português. "Sabe, Professora, também eu chamava 'lindinhos' aos meus alunos!..."- e sorriu. "E agora?", perguntei com algum receio. Trabalha ao balcão de uma loja de relógios... é vendedora, num centro comercial, da minha cidade. Sabe tudo sobre o tempo... esse, marcado pelos relógios de marcas caras. Continuou, sorrindo: "Só tenho saudade de algo... sabe o quê?". As palavras pareciam ter fugido da minha boca... abanei a cabeça. "De alguém a chamar-me Professora! Como é bonito..." Despedi-me, rapidamente. A minha lindinha lá seguiu, no meio de um sorriso, apressada... ia fazer o turno da noite.

Continuámos o nosso caminho, em silêncio, tanto silêncio! Às tantas, a pergunta: "Estás bem?"... olhei as águas calmas do rio, na certeza de que não seriam suficientes para lavar a minha mágoa. "Sim..." [o resto pensei... "também acho tão bonito que alguém me chame Professora!"]

Ensaio fugaz...

[Graça]


A rota era incerta. Perdida num trilho de esperança remota. As pedras, já roucas de tanto conter gestos esquecidos, escondiam o caminho. Aqui e ali, um esboço de flor lembrava o viço colorido de um outro sentir.
Era possível que a memória se apagasse... Mas uma árvore persistente guardaria, na fugacidade eterna, o desejo de se encontrar.

Um intervalo [sentido]...

[Luís]


Ingente era o silêncio que figurava no branco do papel. As personagens diluíram-se no vazio. O tempo desabou pelas escadas, fugindo do espaço, degrau a degrau. O narrador, cansado, partiu num barco à deriva, quebrando os remos à imaginação... E a história ficou por contar.

Ensaio pela representação...




A última semana, no palco escolar, abriu o pano às verdadeiras representações. Acabaram-se os ensaios que, durante meses, se vestiram dessa vontade inexplicável de subir ao palco, enfrentar a plateia e ser... outros que não eles... os nossos jovens actores.

A Sala Gil Vicente, habituada a esta azáfama, acompanhou, desde o início do ano, o brilho expectante nos olhos de quem recebe o seu papel... as birras de quem considera que a sua personagem está pouco tempo em cena... os risos nervosos de quem falha a deixa, vezes sem conta... a alegria de quem consegue, finalmente, memorizar o texto... e o orgulho de quem os vê chegar crisálidas envergonhadas e sabe que, no final, as asas coloridas de borboletas esvoaçarão, sem medo, pelo palco... os nossos jovens actores.

Iniciámos, segunda-feira, essa maratona teatral que atingirá, na sexta-feira, a ambicionada meta, cansada, mas feliz. Sete peças, em cinco dias. Representações de manhã, à tarde, à noite... mais de oitocentos espectadores. Na Sala Gil Vicente. A nossa. A do Teatro. O nosso.

Hoje, o foco dos projectores incidiu numa representação diferente. A sala estava cheia de um público jovem que largara a irreverência lá fora. A peça era especial e eles sabiam-no. Uma peça de actriz única... também ela especial. A nossa lindinha tem uns olhos claros e brilhantes. O sorriso nunca se apaga do seu rosto. Apelidada, por decreto do Ministério, como aluna com necessidades educativas especiais, a nossa menina frequenta a Escola num currículo diferente. Não será, de certo, doutora, nem engenheira, mas hoje foi actriz, como todos os outros. Subiu ao palco, com o seu Professor, e não se assustou com as mais de cem pessoas que a olhavam. Disse as suas falas... ao seu rítmo... articulou algumas palavras com dificuldade... movimentou-se no palco incentivada pelos gestos do Professor... mas nunca perdeu o sorriso! No final, aquele público aplaudiu entusiasticamente. Ela agradeceu. O pano fechou. Quando a sala ficou vazia, saiu por detrás do palco. Veio dar-me um beijo e perguntou, na sua fala atabalhoada, se estivera bem. Magnífica, respondi. E saí.

A Sala Gil Vicente ficou, sem dúvida, feliz, por ter sido, por uns momentos, Teatro... assim.

Ensaio pela chave...

[Graça]

Sempre se conhecera assim. Incrustada entre ombreiras sólidas. Era uma porta fechada, que nunca se abrira de verdade.

Maciça e robusta, ostentava uma fechadura inviolável... recusara a função primordial de ser mera passagem. A antítese da entrada e saída nunca lhe parecera fundamento de vida.

Tinha, ainda, da sua distante juventude, vestígios de verniz, já quebrado, já sem cor... o tempo deixara as marcas do seu indiferente transitar. E orgulhosamente resistira. Fechada.

Não quisera batente, nem postigo. Rejeitara sempre qualquer tentativa de casuais e efémeros visitantes. Gostava de se imaginar porta secreta de dias por descobrir.

Sempre se conhecera assim... aguardando, pacientemente, que alguém lhe encontrasse a chave.