No palco, como na vida...

[Luís]


O dia amanhecera cinzento. O frio trazia como companheira uma chuva monótona, que se arrastava pelo céu havia alguns dias. Início de tarde. Dia de ensaio.

Os meus jovens aprendizes da arte de "fingir" chegaram apressados. Nunca há espaço para tempo perdido, quando se fala de representar. Gostam.

Andamos, desde Dezembro, a ensaiar uma peça que escrevi propositadamente para eles. Cada personagem pensada para o actor, cada fala adequada à capacidade de expressão tão própria dos jovens e irreverentes sentires. "Um sonho de Mestre Gil".

No último ensaio, sem que lhes dissesse, tomei uma decisão: alterar toda a peça. Não porque não gostasse do original... não porque não me agradasse o desempenho dos meus lindinhos. Mas, sem saber explicar os porquês, senti que faltava qualquer coisa. No palco, como na vida...

Hoje, ao chegarem, apresentei-lhes uma nova peça. Espantados, sem no entanto reclamarem, pegaram nos papéis e começaram o ensaio. Correu bem. Interiorizaram as diferenças... e rapidamente transformaram as minhas palavras num momento que me fez sorrir. Esquecemos o frio molhado que fazia lá fora. Ignorámos a monotonia do dia cinzento.

No palco, como na vida, é preciso reconhecer que nada é definitivo.

Breve ensaio ardente...

[Luís]


Os corpos lembravam toros ardentes, num bailado impetuoso de paixão. Línguas de fogo emancipavam os ávidos desejos, por entre o crepitar dos murmúrios extasiados. Enlaçavam-se entregas veementes, de troncos colados na ânsia das labaredas. Impermanentes, as fagulhas deixavam um rasto de sentires pelo chão... ondulante fogueira, escorrendo amor em lava.

Inexplicavelmente, restariam apenas as cinzas.

Ensaio pelo "orgulho"...

[Luís]


Por este dias, no palco maior da Língua Portuguesa, caminhamos nessa estrada sinuosa que é o estudo d' Os Lusíadas.

Há muitos anos que os alunos chegam ao 9º ano cheios de preconceitos em relação à obra de Camões. Que é difícil, que é uma "seca", que não se percebe nada... numa palavra, chegam aterrorizados. Sorrio sempre, com estas iniciais manifestações de resistência, baseadas no famoso gosto português do "ouvi dizer".

Confesso que Camões não é o meu Poeta... no entanto, dá-me uma satisfação imensa estudar a epopeia com os meus lindinhos e provar-lhes que as ideias formadas por antecipação podem, rapidamente, esfumar-se no gosto de ter uma opinião própria, fundamentada no conhecimento.

Desde que sou professora que decidi que nunca poderia abordar semelhante obra da forma como me tinha sido apresentada, enquanto aluna. Detestei-a. Escandir versos, dividir orações, memorizar figuras de estilo descontextualizadas e saltar os episódios mais interessantes, não foram, decerto os objectivos do Poeta ao criar o poema épico.

Iniciámos, então, esta caminhada, partindo de uma proposta de leitura simples: demonstrar "o intuito de dignificar o homem na sua real grandeza, que resulta da sua vitória permanente sobre a sua congénita fraqueza". Vencer os medos, enfim... Sei que não é simples, de qualquer forma, fazê-lo perante alunos que, cada vez mais, desconhecem a sua História, a sua Língua... pouco sabem de geografia, de religiões, de política, de humanismo, de valores...

Serve-me, assim, a narrativa camoniana para ir preenchendo, aos poucos, algumas lacunas culturais dos meus meninos. A reacção é sempre boa, discutem, argumentam, falam, duvidam, perguntam... e gostam!

Ora, numa destas aulas, clarificávamos a forma como Camões defende a Pátria, apesar da consciência, inquieta e amarga, de que o seu tempo já não é um tempo de grandeza [nunca mais foi, mas isso é outra história]. Rapidamente, um dos meus lindinhos trouxe para a discussão o Amor... justificação fácil, de tantas coisas complicadas. Um outro resolveu acrescentar à conversa o "orgulho" de ser português. Foi aí que a aula enveredou por outros caminhos. Autênticos atalhos, que fazem a beleza da caminhada, e que nenhum Programa, nenhum Ministro, nenhum Governo pode prever [nem desvalorizar].

A turma em causa é constituída também por alguns alunos oriundos de países que não têm o Português como Língua Materna. A minha lindinha ucraniana ouvia tudo como muita atenção, escrevia algumas coisas, e, quando surgiu a palavra "orgulho", colocou o braço no ar. A dúvida, num sorriso: "Professora, eu não sei o que é orgulho.". "Sabe, sim." respondi "Mas os seus colegas vão explicar-lhe." E foi assim que, gota a gota, pelas explicações dos meus alunos, o sorriso da minha menina transbordou, como um lago cristalino de certeza: "Já compreendi, Professora. Tenho orgulho em ser ucraniana."

Os Lusíadas são uma obra difícil? Talvez... contudo, receber um sorriso, porque se compreende, é tão fácil!

Ensaio pelo presente [feliz...]

[Alexandre]


Sei bem que um dia terei de dissolver cada momento desta história, no mar do nosso encontro...

No bramido de sal, afundarei os resquícios de saudade. No ímpeto da maré-cheia, apaziguarei cada elo da intrusa consciência. No delírio da espuma, arrancarei a âncora de um genuíno sentir.

Sei bem que um dia, junto ao mar do nosso encontro, conjugarei o tempo num impossível porvir.

Até lá deixa-me fundear contigo neste cais de felicidade.

Ensaio extraviado...

[Luís]


Olhou vezes sem conta a folha branca. A noite estava fria. As nuvens pesadas agitavam-se na antecipação da impetuosa torrente. Lavar-se-iam as horas vazias... e o caos do pensamento alinharia rasgos de ordem.

A folha branca, expectante, calma, iluminava o escuro que jorrava da janela. Era já uma decisão: escreveria aquela carta. Começou resoluta... Hoje, algures por aqui, no ano em que te perdi.

Depois, com determinação, tingiu cada palavra com os afectos nunca pronunciados; desenhou em cada letra o silêncio da ausência; translineou os momentos vividos; relembrou, sílaba a sílaba, as gargalhadas de dias felizes; e a cada ponto final sentiu as promessas vãs de uma mudança de parágrafo.

Em momento algum redigiu um lamento, não podia, não havia... antes agradeceu as vivências partilhadas. Aquietou-se no final da carta, "tudo acaba/no começo de um dia". Assinou-se, corpo e alma, simplesmente, EU.

Lacrou-se em envelope de correio azul, mas antes, num acto de consciência, colocou a cruz na opção a preencher pelo destinatário: "Mudou de endereço".

Era isso, correspondência extraviada, para quem já não morava na sua vida.



Talvez... [não seja tarde]

[Luís]


Ainda o palco. O cenário previsível: reduzido a nada. Luzes - dois focos difusos, derramando sombras cansadas nas paredes. Silêncio na sala. Vazia, a plateia. Ensaio apenas. Sempre.

Boca de cena. Duas quase personagens, lado a lado. Fim da didascália. Algumas falas de uma peça talvez absurda...

UM - Talvez o rio se aprisione nas margens do não-dito, ou permaneça leito emergente de um desejo por inventar...

[sem gestos, sem movimento]

OUTRO - "Ainda não é tarde, para descobrir a verde planície que conduz ao mar."

[sem um único movimento]

UM - Talvez o vento desfaleça no cântico breve da poesia, ou se esconda nas arestas da insónia...

OUTRO - "Ainda não é tarde, para atingir a colina suave onde podes adormecer."

[silêncio prolongado]

UM - Talvez o orvalho se esvaeça nos grilhões da distância, ou deslize etéreo num morder desértico de lábios...

OUTRO - "Ainda não é tarde, para beijar o estigma róseo da flor do cacto!"

UM - Talvez a asa se rasgue no som abafado da impermanência, ou alinhave nervuras paralelas no coração...

OUTRO - "Ainda não é tarde, para alcançares a dimensão de um sonho real!"

[cada vez menos luz na sala]

UM - Talvez nunca seja tarde para mais um ensaio...

[escuridão total. silêncio unicamente quebrado pelo sorrir da encenadora]
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[entre aspas, versos de Albino Santos]

Da coincidência do "submerso"...

[Almas Submersas - pintura de Teresa Ribeiro]


Pintar é também representar. Figure-se a tela, como palco que se espanta perante o enigma da existência; entenda-se o traçado, matizado pela essência do sentir, como personagem imprevisível; calem-se as palavras-falas, para que a trama se exprima na criatividade da forma, na elegância da cor.

Há uns dias, fui visitar mais uma exposição de pintura da minha amiga Teresa Ribeiro. Ecos e Ressonâncias. De pintura nada sei, unicamente gosto. Muito. Quando chego, percorro toda a exposição, tentando ler, em cada quadro, uma página de um livro que urge decifrar. O meu amor pelas palavras nunca me abandona e, sem qualquer dificuldade, em cada linha, em cada forma, conoto sentidos lexicais. A linguagem pictórica faz surgir, em mim, uma vontade indizível de escrever.

Desta vez, a minha atenção recaiu num quadro de nome sugestivo, "Almas Submersas". Provavelmente, influenciada pela coincidência de ter terminado a leitura dessa narrativa magnífica, Sonhos Submersos, do meu querido amigo A. Pinto Correia, fluíram as palavras... as minhas, submersas... que guardei! Talvez, um dia, as ofereça à minha amiga, como já fiz noutros momentos, decorrente de outras exposições, de outros quadros, de outras leituras.

No intervalo da peça maior, decorrem os dias plenos de outros palcos. Da pintura à literatura... "porque há sempre mundos antes impensados para explorar." [Sebastiana Fadda]

Ensaio pela sinestesia [de ser...]

[Luís]



O sorriso melífluo escorria por entre os dedos inquietos. Era inaudível o olhar, desatando brasas incandescentes do não-dizer. Saboreavam-se afectos numa sinfonia de respiração anelante. Os toques indeléveis espraiavam-se no aroma do desejo...
Na frágua do dia, vislumbravam-se, apenas, ondas sinestésicas no celebrar dos sentidos.

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[Há momentos em que é necessário fazer uma pausa... o meu é este. Obrigada. Tanto. Por tudo. A todos. Até...]

Para quem ama as palavras...

[Luís]


No primeiro dia do ano, reuniram-se, em consílio, as palavras. Cansadas da anarquia reinante, na casa da língua, exigiam ser ouvidas. Reclamavam por uma deliberação justa, que impedisse que fossem truncadas, aleatoriamente, na sua essência morfológica, ou substituídas por estrangeirismos petulantes. Queriam, ainda, que as não disfarçassem, de forma sistemática, de sentidos que nunca pediram...

Tentou-se uma certa ordem na assembleia. Deu-se, assim, palavra à primeira palavra. Falou, com voz serena, em nome de todas as palavras gastas. Essas que se proferem, vezes sem conta, sem que se pense no gosto de saboreá-las. Essas que, de tanto serem ditas sem sentimento, perdem a cor do significado. Gastas pelo abuso único de quererem fazer delas meras muletas linguísticas. Pediam unicamente a denotação primeira. Aplauso na reunião. "Que não se gastem as palavras!", perpassava no auditório.

Fizeram-se ouvir outras palavras... interditas, populares, insurgentes, esquecidas, amadas, odiadas, vivas, vazias, correntes, cuidadas...

Quase no final do encontro, levantou-se uma palavra diferente. Permanecera calada, no meio dos acalorados discursos. O murmurar que, entretanto, se instaurou, ressumava a admiração de todas as outras. Conheciam-na por resistente. Disse:

Que a deliberação seja uma, apenas. São belas todas as palavras. Procuremos, então, quem com elas estabeleça uma relação de amor ingente, quem as pronuncie com paixão, quem as procure nos recônditos cantos desta casa da língua, quem as reorganize em efeitos conotativos, quem as crie em renovação constante... quem as saiba usar no quebrar do silêncio.

E nada mais havendo a tratar, deu-se por encerrada a reunião.

No início de um novo ano, as palavras regressaram, em arestas aladas de esperança, para a voz de quem as ama.


Último ensaio...

[Luís]


Esperou, calmamente, que o público abandonasse a plateia. Na sala vazia, desligou, um a um, os cansados projectores. E sentou-se no meio do palco, abraçada pela escuridão. Fora a última representação de uma peça difícil de pôr em cena. A sua.

Nunca fora dada a despedidas. Pronunciar um "adeus" sempre lhe soara a renúncia, a desistência... palavras que há muito retirara do seu vocabulário. No entanto, sabia que o tempo não perdoa, incansável na sua voragem de passar... só por passar.

Era, então, tempo de terminar. Não faria analepses sobre os ensaios plenos de sentires, nem guardaria memória dos intervalos que lhe aligeiraram a alma. Muito menos deixaria vogar no seu pensamento, em prolepses desnecessárias, pedidos ritmados pelas dozes badaladas, ou desejos embebidos em champanhe. Concluiria, apenas.

Levantou-se e, no centro do palco, lembrou a "deixa" repetida à exaustão: ano novo, vida nova. Sorriu, por contrariar a sabedoria popular... não queria uma nova vida! Amava a sua. Quanto ao ano novo, seria, unicamente, mais um ano... Na escada da sua existência, 365 degraus a subir. Sem receio de tropeçar... Avançaria com a certeza de que, sempre que fosse imprescindível, representaria esse papel, que conhecia de cor, de resistente corrimão.

Fechou o pano e saiu.

[... que o vosso ano seja tudo o que desejarem...]

Intervalo [pela verdade da poesia]

[Luís]



"Sobre um sonho desfeito erguer a torre
Doutro sonho mais alto, e, se esse morrer,
Mais outro, e outro ainda, toda a vida!"

[Florbela Espanca]

Ensaio repetido [como o Natal...]

[Graça]

Há dias em que me apetece rasgar, letra a letra, as palavras que não escrevi. E os pensamentos?... perdê-los, feitos pó, num canto dos meus bastidores. Há dias em que se sente o aproximar de outros dias a que me apetece faltar...

No entanto, o sentir não muda... ficam, por isso, as palavras que têm um ano, mas que se mantêm iguais. Representar é também repetição...

Não há como fugir do Natal! Mesmo que se queira. Ainda que se evoquem tristezas, que se critiquem gastos, que se relembrem misérias, não há como evitar-se.
O Natal chega de mansinho, com o mês de Dezembro. Anuncia-se nas iluminações que invadem as ruas das cidades. Passeia colorido em cuidadosos embrulhos, ao som dos passos apressados. Arruma-se em montras com árvores cónicas. Espalha-se a branco sintético nos vidros transparentes. O Natal veste-se de vermelho anafado com barbas de algodão. Pendura-se artisticamente nas janelas que nunca se abrem. Articula-se na boca de toda a gente, acompanhado desse adjectivo Feliz, tantas vezes com entoação de antónimo.
Mesmo que alguém tente resistir, o Natal entranha-se na existência. Adocica-se em massa de sonhos, orgulhosamente empilhados em balcões de pastelaria. Chama-se Rei no bolo. Disfarça-se de bacalhau cozido, ou modernamente fingido por entre natas. O Natal reclama os holofotes do último mês do ano.
Mesmo que alguém não queira, é absorvido pelo espírito em crescendo, que termina nessa noite recheada de família... Uma noite que se exige alegre. Sem piedade dos lugares que, à mesa, foram vagando. Vidas ceifadas na seara da nossa vida.

É quase Natal. E só por isso escrevo estas palavras. Porque, mesmo que eu não queira, o Natal ressoa na minha mente. Não me deixa fugir.

Então, que FELIZ seja a minha e a VOSSA existência.

Quanto ao Natal... não há como fugir! Seja.

Ensaio pelo voo...

[Luís]


Anda cansado o meu palco. O pano oferece resistência à abertura dos escassos ensaios. A encenadora tem os dias gastos à nascença. Noutro palco, o escolar.

Desde o início de Novembro que, eu e os meus alunos, andamos a voar, por esse mundo infinito de sentidos que é o texto poético. Esvoaçamos por entre as palavras, desfazendo ambiguidades, apreciando usos figurativos, procurando associações, aclarando vivências. Eles gostam... eu fomento!

Nas últimas aulas, levei comigo uma parte da plateia deste Teatrices. Todos poetas que eu admiro. A Lídia, o Joaquim, a Isabel, a Branca, o Vieira Calado, o Nilson, a Paola. A primeira proposta foi simples. Ouviram os poemas, lidos por mim, e depois, a pares, tinham de escolher um dos nove, que tinham à sua frente. O objectivo inicial era pô-los a argumentar, com o colega, a sua escolha. No final, teriam de ter um único poema para defender e apresentar, oralmente, aos restantes colegas. As discussões começaram... um gostava mais deste poema, porque estranho... o outro preferia aquele, porque mais acessível. Argumentar nem sempre é fácil, no entanto, os meus lindinhos lá conseguiram chegar a consensos.

Seguiu-se a apresentação, à turma, da escolha de cada par. E foi uma delícia ver os meus meninos defender o "seu" poema, como se de um tesouro se tratasse. Aduziram argumentos, todos válidos, para quem desconhecia tudo sobre o poeta, para quem só tinha um poema como referência... falaram de gostos, de assuntos, de sentimentos, de aspectos formais, das palavras... tantas palavras. Ficou-me na memória a conclusão de dois dos meus alunos, no final da sua exposição... que, provavelmente, a interpretação que deram ao poema, não teria nada a ver com a verdadeira intenção do poeta, mas isso que importa. O que é a verdade, num poema? - perguntava a minha lindinha. E o seu colega rematou, dizendo que o poema pertencia a quem lê, portanto, era correcta a análise que fizeram. E eu sorri...

Os Poetas, que levei deste meu palco, foram as asas que permitiram aos meus alunos o voo pelo discurso argumentativo.

O trabalho continuará, poema a poema, numa análise mais cuidada, porque, no meu palco escolar, o pano nunca se fecha à representação das belas palavras.

Ensaio roubado [ao Poeta]...

[Luís]


"Tenho uma espécie de dever de sonhar sempre, pois, não sendo mais, nem querendo ser mais, que um espectador de mim mesmo, tenho que ter o melhor espectáculo que posso." [Fernando Pessoa]

... porque há dias em que só um Poeta me entende.

Ensaio narrado [no silêncio]...

[Luís]


Sempre gostara do silêncio. Respeitava-o incondicionalmente. Ouvi-lo era, tantas vezes, o apaziguar do seu preenchido mundo de palavras. Gostava do silêncio após a tempestade, quando a Natureza, depois de chorada a ausência e gritado o vazio, repunha a sua energia, na quietude do verde murmurante. Gostava do silêncio inquietador da cidade, quando o calar da noite abarcava as estrelas num dormir apressado. Gostava, essencialmente, do silêncio da casa, que gotejava ainda sussurros de emoções e se reflectia, ao amanhecer, no abraço daquele olhar esverdeado.
Sempre gostara de silêncios, mas nunca compreendera o silêncio de uma não-resposta. Por isso, naquele dia, decidira embrulhar todas as perguntas ignoradas, todas as palavras falhadas, as mensagens não entendidas, o canal destruído, o referente descontextualizado, o emissor solitário, o receptor inerte. Envolveu toda a falta de comunicação, num papel pardo de certeza. Chegou determinada ao cais edificado pela razão. Lançou o pesado embrulho no primeiro barco errante que encontrou. Ancorada na tristeza, viu-o partir. Silenciosamente. E desfez o cansaço na espuma sonora das areias.