
[Graça]
O pano subiu, para o início de mais uma temporada. A plateia surgiu vestida, ainda, pelos tons dourados dos raios quentes do Verão. O meu público. Os meus alunos. Traziam, no sorriso da saudade, o desejo de contar viagens, marcadas pelo carinho da companhia; de falar dos sonhos crescentes na proximidade do concluir de mais um ciclo de vida; de subir, na irreverente adolescência, ao palco e ser o próprio na personagem inventada. Chegou o tempo das aulas.
Começámos por falar de livros... esses que supostamente os deviam ter acompanhado nos dias de nada. Agradaram-me as respostas. A maioria leu mais do que um. Claro que outros só leram, provavelmente, as legendas dos filmes, no passar das tardes em frente à tela imensa, no centro comercial mais próximo. Poucos, pelas respostas.
Gosto de ler para os meus lindinhos. E a pergunta surgiu naturalmente: "Professora, não vai ler nada para nós, hoje?" Tirei um livro da mala. Sabia que o momento seria pedido. Os Cavaleiros do Conjuntivo. Comecei pela exploração do próprio título. Vagueámos, ao sabor das intervenções, até à Idade Média... imaginaram cavaleiros nobres, em busca do graal perdido... senhores feudais em grandes caçadas... histórias infantis, guardadas na memória, de cavalos e dragões, de donzelas em altas torres. Contive o riso. Continuei as perguntas. E o "conjuntivo"? Saiu, erradamente e de rajada, o "tempo" verbal... corrigido, pela voz mais atenta, para "modo" e explicada a sua expressão de sentido hipotético... o mundo do provável, do desejável... da dúvida, da espera, da esperança... e então? cavaleiros da esperança?... A conversa continuou animada, com hipóteses lançadas à discussão e defendidas com as certezas de quem tem 15 anos!
Sorri mais ainda, se possível... O livro é, unicamente, a prova de que a "língua" não é um corpo inerte, cansado dos abusos de actos de comunicação perdidos... antes um esqueleto firme, que possibilita os movimentos da vida!
Numa aula assim, o tempo voa... não iniciei a leitura da narrativa. Preferi lançar, para a reflexão colectiva, a pergunta que o inicia, destacada, numa imensa folha branca, numa letra muito miudinha: "Que seríamos nós sem a ajuda do que não existe?".
Colaram o brilho dos seus olhares em mim. Senti-lhes a dúvida de que eu pudesse, talvez, ter lido mal... A pergunta que esperava: "Professora, importa-se de repetir?". Escolhi um dos meus lindinhos, e repeti a pergunta... A resposta saiu, sem sinal de amarras, ou confusões: "Nada! O que não existe ainda é o que nos faz ser..." Os outros encararam o colega, sem terem percebido bem o raciocínio. Pedi-lhe que clarificasse. E o meu pretenso filósofo acrescentou: "Ó Professora, eu sou como um cavaleiro do conjuntivo... tenho esperança de um dia ser alguém... só aí, o que não existe passará a existir... outro eu!"
Tocou. Saíram a discutir o assunto. E eu fiquei com a certeza de que alguns, quando o pano cair, lá para Junho, no final desta peça de mais um ciclo escolar, terão o esqueleto pronto para suportar os movimentos, sempre incógnitos, da vida.