A última semana, no palco escolar, abriu o pano às verdadeiras representações. Acabaram-se os ensaios que, durante meses, se vestiram dessa vontade inexplicável de subir ao palco, enfrentar a plateia e ser... outros que não eles... os nossos jovens actores.
A Sala Gil Vicente, habituada a esta azáfama, acompanhou, desde o início do ano, o brilho expectante nos olhos de quem recebe o seu papel... as birras de quem considera que a sua personagem está pouco tempo em cena... os risos nervosos de quem falha a deixa, vezes sem conta... a alegria de quem consegue, finalmente, memorizar o texto... e o orgulho de quem os vê chegar crisálidas envergonhadas e sabe que, no final, as asas coloridas de borboletas esvoaçarão, sem medo, pelo palco... os nossos jovens actores.
Iniciámos, segunda-feira, essa maratona teatral que atingirá, na sexta-feira, a ambicionada meta, cansada, mas feliz. Sete peças, em cinco dias. Representações de manhã, à tarde, à noite... mais de oitocentos espectadores. Na Sala Gil Vicente. A nossa. A do Teatro. O nosso.
Hoje, o foco dos projectores incidiu numa representação diferente. A sala estava cheia de um público jovem que largara a irreverência lá fora. A peça era especial e eles sabiam-no. Uma peça de actriz única... também ela especial. A nossa lindinha tem uns olhos claros e brilhantes. O sorriso nunca se apaga do seu rosto. Apelidada, por decreto do Ministério, como aluna com necessidades educativas especiais, a nossa menina frequenta a Escola num currículo diferente. Não será, de certo, doutora, nem engenheira, mas hoje foi actriz, como todos os outros. Subiu ao palco, com o seu Professor, e não se assustou com as mais de cem pessoas que a olhavam. Disse as suas falas... ao seu rítmo... articulou algumas palavras com dificuldade... movimentou-se no palco incentivada pelos gestos do Professor... mas nunca perdeu o sorriso! No final, aquele público aplaudiu entusiasticamente. Ela agradeceu. O pano fechou. Quando a sala ficou vazia, saiu por detrás do palco. Veio dar-me um beijo e perguntou, na sua fala atabalhoada, se estivera bem. Magnífica, respondi. E saí.
A Sala Gil Vicente ficou, sem dúvida, feliz, por ter sido, por uns momentos, Teatro... assim.







