Ensaio sobre o "palavreado"...
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Ensaio pela diferença...
Ensaio no masculino...
De volta aos ensaios...[a mentira]
No intervalo [lembrei-me]...
Recordo, com certa nostalgia, confesso, algumas aulas, de pauta à frente, pés nos pedais, mãos nas teclas, uma voz que me dizia "Comece!" e o meu pensamento transformava claves em palavras, teclas pretas em histórias de encantar... resistia! Quantas vezes, o meu paciente pai se sentava ao piano, ao fim da tarde, e tocava, enquanto eu, no meu quarto, percebia a intenção e fingia nem ouvir.
Comecei a tocar sozinha, longe das aulas que abandonei... só abria o piano, quando o vazio enchia a casa. Adorava improvisar sem a prisão de uma pauta. Sem a presença de incautos ouvintes. Mas nunca aprendi a tocar! Nesses momentos, a casa respirava os sons do meu desafinado sentir... as paredes brancas reflectiam o segredo partilhado... as teclas doridas, [ainda ressoa em mim o seu lamuriar], renovavam o meu ser. Depois, fechava o piano e, serenamente, voltava para esse instrumento que sempre quis tocar... as palavras.
Um dia destes, volto a essa casa atenta e dou uma alegria ao meu pai. Tocarei para ele!
No intervalo [muito pessoal]...
(foto de Luís)Ensaio pela salvação...
Sem máscara...
Ensaio por um sonho...
(pintura de Fá Duarte - que mora, desde hoje, na minha parede)No intervalo...
Ensaio por uma "deixa"...
Ensaio para uma Deusa...
(foto de Tinta)A minha Avó ensinou-me tanto. Desse tanto-alicerce da minha representação. Ofereceu-me os primeiros livros de encantar, contou-me histórias ditas em tom suave, ao fim da noite, para adormecer. Ensinou-me a ouvir rádio, a cozinhar, a costurar, a cantar os fados de Amália... A minha Avó tinha a mais linda voz que eu já escutei.
Nunca lhe ouvi uma palavra mais alta, ou zangada... tinha sempre um sorriso perfeitamente desenhado nas suas feições doces. Partilhava o seu ser magnificamente. Era Mãe! A Encenadora que qualquer actor almeja.
Um dia, essa doença de nome gélido e estrangeiro (Alzheimer) começou a apagar as memórias da minha Artemiza. Desvaneceu-se a memória de mim, também! Só o seu sorriso permaneceu até ao fim.
A minha Avó não tinha só nome de Deusa. Era uma Deusa.
[No dia que é hoje, a minha Mãe Artemiza cumpriria mais um ano de vida... dessa vida que nenhuma morte apagará em mim.]




