Ensaio por tudo o que não tem sido escrito



     Há caminhos difíceis de trilhar. Não falo, obviamente, de caminhos reais, aliás, nem o verbo trilhar fica correto no contexto em que está a ser utilizado. Por vezes, munidos de uma veleidade inexplicável, consideramos que podemos descontextualizar os vocábulos e dar-lhes a roupagem da expressividade.
     Resumindo [já?], deixei o meu palco abandonado por nenhuma razão aparente, ou melhor, por uma razão bem palpável: esgotei as palavras.
     Dito desta forma, quase parece o início de um poema de um grande e respeitado poeta, no entanto, retrata a mais pura verdade [haverá verdades impuras?], de repente, num ápice, acabei com as palavras. Assim. Sem mais nem menos.
     Se escrever com franqueza, a razão foi simples. Perdi o meu palco, deixei de ligar as luzes, abrir o pano, bater o texto, sentir o nervoso miudinho da estreia... deixei de ensaiar. Literalmente. Os meus atores trocaram a madeira ressonante pelo ecrã gélido e silencioso [mais ou menos].
     O meu palco mudou. Assoberbado pelas milhares de páginas a preencher, pelas grelhas, pelas fórmulas, pelos cargos, pelas flexibilidades de cabeças pouco pensantes e nada pedagógicas.
     Esgotei as palavras, gastas noutros tantos registos desnecessários, embrulhadas, encapotadas num cumprimento difícil de cumprir.
     Há textos difíceis de ler. Não falo, obviamente, de textos reais, falo dos meus ensaios, perdidos num palco empoeirado, à espera de um espanador qualquer.

     Se ainda gosto do meu palco? Enquanto houver palavras, gastá-las-ei por aí. Ensaios? São palavras apenas.

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