Ensaio pouco dramático [porque quase poético]




Falemos dos caminhos
Monótonos
Sulcos gastos na indiferença dos dias

No cruzar dos gestos vazios
Resguardemos o sorriso que nos basta
E nas ruas sujas de pedras frias
Nas portas anónimas e sempre fechadas
Incrustemos uma vontade aderente de ser

Brademos no silêncio da multidão confusa
A espera de campos cultivados de esperança
São ternas as searas que não plantámos
São ávidas as palavras de que não falámos

Não fujamos, então, da memória
Abracemos o leito que nos aguarda
E recomecemos
Sem medo
Sem vergonha
Sem hipocrisias…
A tecer os filamentos aguerridos
Que sarem todas as feridas.

8 comentários:

Mar Arável disse...

A vida é um palco

com muitos apeadeiros

Bj

Lídia Borges disse...

Gastamos os dias
À margem da dor e do descanso
Espetros na imobilidade das horas
Gastas em em debelados silêncios
Inibidores.

"Não fujamos, então, da memória
Abracemos o leito que nos aguarda
E recomecemos"

Lindo Graça!

Um beijo

Sonhadora disse...

Minha querida

Um poema INTENSO e IMENSO como sempre as tuas palavras gritam.

Beijinhos com carinho

Sonhadora

Maria disse...

...'São ternas as searas que não plantámos'...
Tanta semente ainda por lançar à terra que a fará florir e dar fruto, ainda que regada com as lágrimas de um descontentamento já tão prolongado...

Beijo, Graça.

BRANCAMAR disse...

Graça,

Como gosto de voltar a esta tua casa e encontrar um ensaio poético de esperança, que não é "ensaio", mas uma "estreia" de sabedoria.

Beijos e bom regresso, belo regresso!

Branca

Irene Alves disse...

Um blogue em que a poesia e a pintura
dão as mãos para tornar os dias
mais sensíveis e bons a quem
aqui vier.
Foi um gosto,
e voltarei sempre
que possível.
Bj.
Irene

Maria João disse...

" no silêncio da multidão confusa",
emudeço. Olho-me e já nem me encontro, neste sufoco de peito em ferida.
"no silêncio da multidão confusa", repito-me. O eco sempre foi o mais fiel companheiro das horas quase mortas.

Recomeço. Recomeço sempre!

Um beijinho, Graça.
Saudades tuas!

Nilson Barcelli disse...

Não há como fugir da memória. Para o bem e para o mal...
Excelente poema, gostei imenso.
Querida Graça, boa semana.
Beijo.