Ensaio pela verdade semântica...

[Luís Rodrigues]


O 'outono' chegou diferente. Não falo dos dias quentes e solarengos com que nos tem brindado. Nem tão-pouco das noites vestidas desse vento boreal, desnorteado,  sem rédeas na intensidade desmedida. Falo de um outono minúsculo, que, à conta de um acordo tão desacordado, surge sem identidade própria. Sem a marca de orgulho de quem é nome não comum.
Como compreender que a minha estação perdeu a sua entidade única de ser, como diria Nietzsche, 'mais estação da alma do que da natureza'? Nasci no Outono... a estação de todas as verdades... o verde amarelece, lentamente, como tem de ser, relembrando que, na vida, há que mudar de papel; a luz não ofusca; a beleza dos troncos aparece ao cair da folha, não porque as folhas  envelheceram, mas porque há que dar espaço ao renascer da vida; a chuva, miudinha, não aborrece, lava todos pensamentos negativos, acumulados no estio desértico de sentimentos; o Outono fala a verdade dos "equinócios", procurando, mesmo que por breves momentos, mostrar que os dias e as noites são iguais; e os dias não ficam mais curtos, como se diz por aí, são as noites que ficam mais longas... ah! as noites, na sinceridade da estação da alma. Gosto do Outono.
Como entender, então, que, por decreto, o meu Outono não seja agora ele próprio? Perdeu a maiúscula!
E, de repente, imaginei o meu palco, minúsculo, também... perdendo a sua identidade. Visualizei todas as palavras, reclamando a sua maiúscula, numa peça absurda, em que as personagens olhassem uma lua, também ela minúscula, e lhe sentissem, pela primeira vez, a frieza de não ter luz própria. Pensei no pano vermelho, gasto de tanto ser aberto e fechado ao longo dos anos, desejando, ele mesmo um adjectivo 'escuro' preso por um hífen.
Sou do Outono. Com letra maior. Porque a minha alma anseia pela verdade semântica do sentir, que nenhum acordo mudará.


19 comentários:

AC disse...

O sentir não obedece a decretos nem amarras, necessita cultivar o vigor das asas...

Beijo :)

Nilson Barcelli disse...

A mim tanto me dá, não sou purista. De contrário estaria a escrever pharmácia convicto...
Mas o teu Outono será sempre igual, enquanto existires... pelo menos até o inverno chegar , já que ainda estás algures entre a primavera e o verão...
Belíssimo texto, gostei muito.
Beijos, querida amiga Graça. Tem um bom fim de semana.

Marta disse...

E abrirás a cortina vermelha e aquecerás o coração de todos os que escutam com alma...
O que se viveu no Verão e faz sorrir no Outono, com o O bem grande e redondo....
Como quando aprendemos a escrever....
Belo....
Beijos e abraços
Marta

BRANCAMAR disse...

Tão lindo, Graça!

Eu também sou pelo Outono e nem imaginava que lhe tinham decretado um nome comum.
Deve ser duro ser professor de língua portuguesa neste momento, mas enfim...! Há decretos para tudo e nem se deixa que as coisas evoluam ou se fundam naturalmente.

Eu também gosto imenso desta estação e até do Inverno, passaram todas a substantivos comuns?, pois para mim serão sempre substancialmente importantes, porque é na natureza que se renova toda a vida, como dizes.

Deixo-te um grande beijinho e adorei este teu regresso, em grande forma. :))

Paola disse...

que seja o outono, minha amiga. o tempo que inicia a fome do agasalho. que seja outono num tempo em que não importa a minúscula. a partilha do coração é escrita com letra grande.

beijo abraçado

Lídia Borges disse...

Belíssima abordagem!...

Um beijo

Sonhadora disse...

Minha querida

Uma abordagem muito bela a uma coisa não que não deveria existir.
Eu sou já Outono e todos os Outonos da minha vida vão ser escritos como aprendi.

Deixo um beijinho com carinho
Sonhadora

Mar Arável disse...

Outono

um apeadeiro
para as belas tempestades

Nilson Barcelli disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nilson Barcelli disse...

Querida Graça, voltei para te (re)ler e desejar uma boa semana.
Beijos.

Maria João disse...

Não há palcos minúsculos, e comuns são todas as coisas simples onde não cabe a deturpação dos homens .
Sabes, o Outono será sempre a verdade dos equinócios, aquela onde, ciclicamente, tudo se despe e a alma se revela mais intensa. Talvez por isso, tenhas nascido no Outono .
É um enorme privilégio ler-te de novo. Hoje, aqui, a manter erguida a força da maiúscula.

Um enorme beijinho, amiga.

MISSIONÁRIO RÉGIS CASTRO disse...

Quantas, quantas, quantas saudades de ti, minha querida...

tenho tantas novidades para compartilharmos, me tornei maduro, cresci... hoje sou cristão, casei com aquela linda menina daquele tempo, hoje sou pregador da palavra de Deus... e tantas coisas mais...

Sou muito grado a ti aprendi muitas coisas boas da vida!!!

Visite o meu espaço!

Abraços ternos, de um amigo cheio de saudades!!!

Whispers disse...

Querida,
Vim ver este cenario de palavras que se despem a medida que os olhos as vao lendo.
Como sempre teu palco ensaia momentos de boa leitura.

Amiga, desejo que estejas a viver momentos maravilhosos.

Boa semana e beijos mil
Rachel

O Profeta disse...

É com “Palavras” que pintarei sonhos
Navegarei mares, voarei sobre o azul do Mar
Aqui virei com elas pintadas de ternura
Aqui dexei um pouco do meu sonhar

Foi um gosto aqui passar


Terno beijo

Vieira Calado disse...

Não sou do outono

mas gosto do outono

e

estou no outono!

Bjsss

rosa-branca disse...

Olá amiga, o teu Outono será sempre especial, diferente, será sempre o Outono do teu sentir. Adorei o texto que como sempre é fabuloso. Beijos com carinho

Vieira Calado disse...

Nasci na primavera...

mas também sou (agora mais que nuca) do outono!

Bjsss

AC disse...

Graça, ande por onde andar, passei só para dizer que sinto falta da sua sensibilidade.

Beijo :)

Maria João disse...

Apetecia-me dar-te um abraço forte para te desejar um Bom Natal...
Apetecia-me voltar a ler-te, aqui, ali... em qualquer lado, tanto faz. Isto tudo, fica mais pobre sem a tua presença...

Beijinho muito grande, amiga e Boas Festas