Ensaio sobre a desilusão...




"Se olharmos as coisas de perto, na melhor das hipóteses chegaremos à conclusão de que as palavras tentam dizer o que pensámos ou sentimos, mas há motivos para suspeitar que, por muito que procurem, não chegarão nunca a enunciar essa essa coisa estranha, rara e misteriosa que é um sentimento." [José Saramago]

Andamos, pelo palco escolar, às voltas com aqueles momentos aterrorizadores, para qualquer aluno, que são as exposições orais. O momento em que se deixa o resguardo do colectivo, para encarar uma 'plateia'. Muito antes deste momento, trabalhámos algumas técnicas para falar em público. Entre tantos aspectos a ter em conta, reforçou-se a ideia de que há que olhar o outro, nunca fugir desse contacto, que prende a atenção, que passa a segurança de quem fala. Teoricamente, os ensinamentos são interiorizados, o pior é aplicá-los.

Hoje, um dos meus lindinhos, aluno daqueles que vestem esse papel, desde que entram na sala, levantou-se, quando chegou a sua vez, e literalmente arrastou-se até ao quadro. Virou-se para a turma, olhou para mim, no fundo da sala, e iniciou o seu discurso. Num instante, o seu olhar perdeu-se entre o branco sujo das paredes, defenestrou-se por janelas de vidros foscos, contou lâmpadas no tecto, fixou-se num chão de seguranças inseguras. No final da sua intervenção, dirigiu-me o seu brilhante e meigo olhar e, confrontado com o silêncio que se fazia ouvir, disse, quase num murmúrio :"Desiludi-a, Professora".

Faltaram-me as palavras, naquela fracção de segundo... "desilusão". A palavra ecoou na minha mente. Aliás, nos últimos tempos, ganhou dimensões indizíveis na minha vida; ocupou um espaço que, há tanto, permanecia vazio; gravou-se em mim, como que aspirando a sentimento. O que era a desilusão de um miúdo de treze anos, na sua primeira experiência de comunicação formal, não encarar o olhar dos outros, comparado com os adultos que, conscientemente, nos negam essa verdade? Respondi, rápido: "Desiludir? Não tinha criado ilusões... Na próxima, fará melhor, de certeza."

E o pensamento de Saramago? O resumo, não da aula, mas da minha representação, por estes dias, neste palco da vida.


9 comentários:

AC disse...

"...mas há motivos para suspeitar que, por muito que procurem, não chegarão nunca a enunciar essa coisa estranha, rara e misteriosa que é um sentimento."
Talvez, se as palavras valerem por si só. Mas, se as conjugarmos com outros factores - o brilho do olhar cúmplice, o vislumbre da descoberta, o simples calor das mãos dadas... - possivelmente as coisas não serão tão lineares...

beijo :)

E G Miranda disse...

Boa noite, Graça. Magnífico texto, esta reflexão sobre a desilusão alheia e a tua própria perante as mil coisas da vida... Ou talvez, antes, acerca da incapacidade, tantas vezes sentida, de se dizer claramente o que se sente e que se pensa sobre nós e/ou os outros. Nem sempre se trata de desonestidade; muitas vezes é mesmo incapacidade.
É aí que as outras linguagens exercem o seu papel. O passo, o sorriso, as mãos que se estendem... o abraço. Ou, em contrapartida...
Beijo.

Marta disse...

São momentos em que nos falta tudo...
As chamadas "horas negras", "horas do Diabo"....sem quaisquer explicações....
E, sim, nem sempre há palavras que definam o sentimento, seja ele desilusão ou euforia...
Brilhante, Graça
Beijos e abraços
Marta

Mar Arável disse...

Palavras sábias

São disse...

Por muito que doa, a desilusão faz parte da vida, não é?

Um bom final de semana, menina.

BRANCAMAR disse...

Olá Gracinha,

Poderia dizer muito, mas tal como diz Saramago as palavras não chegam nunca para enunciar um sentimento e fico-me apenas pela maior e mais bela proximidade que expressaste nas tuas próprias palavras: " O que era a desilusão de um miúdo de treze anos, na sua primeira experiência de comunicação formal, não encarar o olhar dos outros, comparado com os adultos que, conscientemente, nos negam essa verdade?"

Beijinhos Graça e fica bem.
Bom fim de semana
Branca

sideny disse...

Olá Graça

Que bom que voltou.

Bom fim de semana e um beijinho

RENATA MARIA PARREIRA CORDEIRO disse...

Não pensei que vinha aqui para chorar e sair tão triste. Mas, sem dúvida alguma, é um belo ensaio. Aliás, um dos seus melhores.
Best wishes for us, Graça.
Kiss
Renata

. intemporal . disse...

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. entre.a.azáfama.tanta .

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. um suspiro .

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. e,,, a des.ilusão é e será sempre um momento por ora presente .

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. um bom fim de semana, graça .

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. um beijo meu . teu e terno .

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