Ensaio pelo [verdadeiro] diálogo...

(Luís)

O pano abria devagar. Pelo palco despido de adereços, projectava-se uma luz difusa em tons de vermelho. A plateia, em silêncio, aguardava o início do primeiro acto de uma peça por inventar. Duas personagens, vestidas de preto, entravam, uma de cada lado do palco... costas voltadas. Silêncio. Nada...

Da sala cheia, ressumava a expectativa. Duas personagens? Antecipava-se um diálogo... Saiu um monólogo! A duas vozes. As palavras emergiram rápidas, arremessadas pelo sentimento.

Primeira voz: "Abençoada seja a tua vida!"
Segunda voz: Há um eco distante que me aflora a mente...
Primeira voz: "Que uma chuva de lírios perfume de paz todos os teus caminhos!"
Segunda voz: Estas nuvens escuras obstruem o meu pensamento...

Sentia-se a inquietude do público, na incapacidade de perceber a coerência das falas. Imóveis, as personagens continuavam disparando palavras.

Primeira voz: "Que a água viva da verdade possa saciar a tua sede de conhecimento!"
Segunda voz: As memórias escapam-se-me por entre dedos de éter.
Primeira voz: "Que de ti se afastem as mágoas e os espinhos!"
Segunda voz: Calma! Calma! nada de emoções...

Nas cadeiras, o incómodo era palpável. Quase se ouvia, nos olhares interrogativos, a tentativa de associação ao teatro do absurdo... seria? Numa plateia pretensamente culta, não podia haver lugar a falha do género dramático.

Primeira voz: E que desperte em ti o sol oculto do saber.
Segunda voz: Não sei o que faço aqui!

O pano fechou lentamente. Na sala perdurou o silêncio. Ainda o silêncio. O mesmo que as duas personagens representaram... para lá das palavras.


[com alguns versos de Helena Magalhães, entre aspas, de um poema que me foi dedicado, em 1987]

26 comentários:

ângela marques disse...

:)))))))))))

adorei, mas vou escolher uma frase absolutamente genial:
"Numa platei pretensamente culta, não podia haver lugar a falha do género dramático"

Desta vez levanto-me para aplaudir!

São disse...

Gostei dessa denúncia das gentes pretensamente cultas...

Que o teu final de semana seja tão bom como eu perspectivo o meu!

preto [e] branco disse...

"Que a água viva da verdade possa saciar a tua sede de conhecimento!"

Esta é para Ti Graça.

A "plateia pretensamente culta"
ansiava pelo rigor das palavras, que a pouco e pouco, iam surgindo. Mas...eram poucas e queriam mais. Queriam "assumir" um saber de quem, no teu palco, declamava. Nessa plateia, reinava o desassossego de quando um final para o "entendimento" e o receio de que o pano...fechasse, antecipadamente, omitindo palavras.

bj...nho

Jorge Vieira Cardoso disse...

perpétuamente o silencio é o palco com que deciframos qualquer mensagem anteriormente esgotada nas palavras que se zangam de intempéries.

corre o pano numa abertura de sorrisos para te dizer que estás elegantemente vestida de arte!

beijinhos ternos querida Graça...

Paola disse...

Ai, minha amiga!!! Os diálogos calados... monólogos a dois no absurdo do (de)entendimento... a pretensão do querer... do saber... do ser... do estar onde se estiver... Fico-me no silêncio de te ler... e ficar a pensar...

beijo abraçado

Paulo disse...

"Não sei o que faço aqui!"...

Este teu ensaio está magnífico, duas personagens que não se ouvem, que dizem palavras, cada uma por si, quantas vezes igual ao que se passa na vida. E quem assiste não compreende, porque não pode compreender tudo. Quem nos rodeia nem sempre nos entende. Nada absurdo o teu texto, mas aquela fala da segunda voz que destaquei tem resposta...o que fazes aqui é extraordinário.

Alonguei-me :)

Beijo com saudade.

PJB

(já te dedicavam poemas na faculdade???)

Anónimo disse...

:) volto para te dizer que esta música tem a tua cara, ou serão os olhos?

Paulo

Paulo - Intemporal disse...

____________________ querida Graça,

sei sim o que faço aqui. eu.

pudesse eu ser em mim todos os dias num só dia.

e poder estar aqui sempre, perto de ti, ouvindo o teu coração sublime a bater em vida que se des.garra ao momento da passagem.

adoro-TE. sabes disso.

porque é isso mesmo. isso.

o tempo, esse "maldito" vai-nos roubando tantos prazeres, como este de estar aqui. perene.

o teu beijo de bom dia.

o teu beijo e o desejo de um bom fim de semana.

:)

ParadoXos disse...

eis-me aqui, na plateia, de olhos bem abertos... nunca te revelei, acho, aproveito agora pra te dizer que este é um dos meus palcos preferidos... é mesmo!!
gosto imenso da gramática dramática das linhas originais deste cenário, tu sabes!

beijão tão teu como nosso!
bom fim-de-semana, sem chuva!

:-)

lili laranjo disse...

GRAÇA

um beijinho e deixo poesia...


Amar-te

Amar-te…
Amar-te muito…
Esperar e saber…
Que nunca virás…
Mas amar-te…
Da mesma maneira…
E com a mesma intensidade…
Pois amar…
É dar, e voltar a dar…
E nada esperar em troca…
E quando o Amor…
É mesmo desprendido…
É muito mais forte...
E pode ser que um dia…
Haja uma troca…
E venha a receber…
Aquilo que dou….



Lili Laranjo

Anónimo disse...

discretamente levanto um pouco o pano rubro.

e fico.


invisível. no maior dos silêncios.


aquele que é aplauso.



beijo Graça.


(piano)

f@ disse...

Olá Graça,

…E despertou o SOL em ti para iluminar o palco e dar ao pano o mistério mágico do silêncio ©ulto das vozes…
…estrelas cadentes ©intilam na água pura e límpida que rega os lí®ios…
Palco d e l í r i o s...

Imenso beijinho

José Carlos Brandão disse...

Muitas vezes não se percebe a coerência das falas. Talvez porque a imagem poética é (aparentemente) incoerente. Talvez porque a plateia é pretensamente culta...

Um beijo.

Conde Vlad Drakuléa disse...

O que seria de nós sem o teatro? Certo, precisamos de absurdos também, mas o teatro é a perfeita redenção da criatura humana na Terra!
Beijocas novas minha sempre adorada e preciosa amiga ^^

lupussignatus disse...

os ramos

do

silêncio



[tronco
que nos
enraíza]

f@ disse...

Olá Graça,

Vim escutar a tua música....

Bom domingo
imenso beijinho

Brancamar disse...

Olá Graça,

Chego depois de já ter passado por este ensaio diversas vezes.
Fiquei sem net a tarde inteira, mas a peça não tão absurda quanto isso ficou-me a bailar cá dentro.
Os versos que te dedicaram são lindos, cheios de luz e esperança e tu encaixaste-os genialmente neste diálogo-monólogo.
Não importa qual seja a classificação do género, a mensagem está lá. Quantos diálogos desses temos por aí, às vezes bem ao nosso lado, quantas vezes falamos para um outro e estamos sós, ficamo-nos pelo monólogo...para já não dizer que podemos mesmo falar para uma multidão normalizada que nem sempre ou quase nunca ouve. O eco não nos é devolvido, mas isso seria outro tema, que se entrelaça neste.
Adoro os teus ensaios.
Obrigada pelo muito que aqui nos dás.
Beijinhos de muita amizade.
Branca

A.S. disse...

Graça...

Belissimo post... ao ritmo doce e fascinante de uma melodia!
Senti cada uma das palavras como nitas de uma pauta...


Doces beijos...

Nilson Barcelli disse...

As referências que nos fazem, sejam elas sob a forma de poemas ou não, despertam sempre uma série de interrogações, meias certezas, conclusões, inconclusões, etc., etc.
Se tivermos o discernimento de as ligarmos, ainda que pelo meio faltem os dados que interligam a referência inicial à última voz, que é sempre a nossa, uma primeira leitura, menos atenta, pode soar a absurdo. Mas uma segunda, não...
A propósito do teu "Não sei o que faço aqui", acho que ninguém sabe. A menos que tenha fé... Mas na verdade não sabe, apenas acredita que sabe o que faz aqui... e mesmo assim, nem todos acreditam... penso eu...
Achei este teu texto magnífico, ainda que tenhas esticado a corda um bocadinho...
Querida Graça, uma excelente semana para ti.
Beijo.

Tchi disse...

E houve a respiração ofegante que ninguém conseguiu ver.

Este é um monólogo onde quero entrar, porque o silêncio é, tantas vezes, quem mais nos diz o caminho de viver.

E bato palmas. E felicito-te e a quem te dedicou esse poema, há 22 anos ido.

Beijinhos.

o que me vier à real gana disse...

Olá Grça! Eh pá, já há uns tempitos!... Disponibilidade... Já tinha saudades!

Excelente, heim! Oh, nunca aqui encontrara eu algo k classifique abaixo disso... portanto, por que me espanto eu?!... Ah, certo! Porque o espanto poderá - deverá! - ser constantemente renovado, se a isso estiverem abertos os espíritos e o génio de alguns/algumas generosamente se der!

Revejo-me naquela "Teatrice". Sempre k viajo sozinho, é um tal desvairar estrada fora... Os outros, agora k existem kits-mãos-livres, lá hão-de pensar: "aquele vai ao telele"... Antes partiam-se a rir: "ahahah!, ali vai um tolinho"... Era dantes, k eles estavam certos!

Bj,Graça

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Graça,
estou chorando muito, muito mesmo. Não consigo comentar o seu post. Desculpe-me, por favor.
Boa noite,
Renata

mundo azul disse...

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...pessoas que falam aleatoriamente...Isso é o que mais acontece no dia a dia...

Muito bom, como tudo que nos traz, Graça...Adoro vir aqui!


Beijos de luz e o meu carinho...GRANDE!


Zélia

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Whispers disse...

Olá Querida Graça!
O palco da vida é o que representamos o dia a dia

As sombras já nascem com a gente

Somos todos o actor principal desta comedia

Se a platéia aplaudiu ou não,pouco importa,o que importa é quando as cortinas correrem a gente saber que chegamos ao fim,sem muitos arrependimentos de ter vivido o que vivemos

Um beijo bem grande para ti
Rachel

São disse...

Bom resto de semana, linda!

JotaSP disse...

______________a primeira voz é um dedo de éter ou uma árvore arrancada do céu________________________________

Um beijinho, querida Graça!