Ensaio pelo encantamento...

(foto de Sérgio)

No lar da minha infância, não há "sussurro de tílias"... antes permanecem sinfonias, giradas vezes sem conta, no vinil matinal, que me acordava aos domingos. Domingo era o dia do meu pai. Ausente da passagem das horas, ao longo da semana, enchia a casa dos seus gostos musicais, assim que o dia abria os olhos. Aprendi a gostar de música clássica com o meu pai. Recordo essas manhãs, em que saltava da minha cama e, rapidamente, me lançava na dele, já Tchaikovsky ressumava de todas as paredes do quarto. A minha mãe gritava da cozinha "Baixa o som... olha os vizinhos!"... e o meu pai, indiferente aos protestos, pedia a minha atenção para a "Abertura 1812", a sua preferida: "Ouve, agora!". E eu ouvia... num silêncio devoto, que me permitia estar perto do meu pai, mesmo que o compositor romântico persistisse em fazer-nos companhia.

Depois, quantas vezes, após o almoço, partíamos para a visita à minha tia, no coração de Alfama. Aí, a música era outra. Nas escadinhas do bairro antigo, perto do 'chafariz de dentro', juntavam-se os amigos, cantava-se o fado vadio... e o meu pai incentivava-me. "Canta, filha, aquele fado que o pai te ensinou «Sou companheira do vento...»"... e eu cantava, enrouquecendo de propósito o timbre infantil da minha voz, só para o ver sorrir, sentindo-me uma autêntica rajada de vento... desse vento que soprava nos domingos da minha vida de criança. Fui, nessa feliz infância, a companheira do meu pai, nesse vendaval de sons tão díspares, que guardo, até hoje, na minha memória. [e nem vou falar de ópera, a mais marcante!]

Domingo... Cheguei há pouco do Coliseu. Fui ao Ballet. Cinderela, de Prokofiev. E, enquanto a gata borralheira, em pontas de sotaque russo, bailava a sua vida, em busca do príncipe vestido de "viveram felizes para sempre", inevitavelmente lembrei o meu pai... que nunca me contou histórias de encantar, "coisas de mulheres", dizia... mas que, sem saber, me abriu as portas a outros encantamentos da vida.

28 comentários:

André Sousa disse...

Boas teatrices, sem dúvida. Soam as pancadas no palco e a vida continua, indiferente ou apenas sem escolha. Parabéns.

Paulo disse...

É sempre bom começar a semana a ler-te, tem um quê de encantamento!

Beijo grande, querida Graça

PJB

preto [e] branco disse...

Querida Graça,

Agradeço a tua gentileza de, associares uma foto minha, ao encanto de um ensaio que revela os teus gostos e, principalmente, incentivados, com o "encanto eterno", do teu pai que, dá para observar e ler, o quanto te "marca" de alegrias e prazeres.

bj...nho

ângela marques disse...

Inevitavelmente este post trouxe-me as lágrimas à borda dos olhos...... porque me fez recordar episódios mais ou menos semelhantes com o meu, que guardo religiosamente na memória e não deixo que se esfumem com o tempo que passou desde o último beijo que lhe dei, antes de descer á terra.

Obrigada, Graça.
beijo

ângela marques disse...

... não sei dizer pq, faltou-me dizer: "o meu PAI"

:)

Nilson Barcelli disse...

Será que o teu gosto estético, das palavras às ideias, que tão bem expressas no blogue, vem dessa fase da tua vida?
Só posso louvar o teu pai pela vivência musical que te proporcionou, pois ainda vou ter o prazer de te ouvir (aqui, porque não...) a cantar o fado...
Querida Graça, uma semana boa para ti.
Beijo.

A.S. disse...

Graça...

Revejo-me muito no teu belissimo texto!

Há Momentos de puro encantamento! Ainda que alguns sejam recordados com fortes emoções...


Ternos beijos!

Paulo - Intemporal disse...

no lar da tua infância reinam ainda princesas vestidas de cor e sabor, de tacto e de olfacto, de corpo e de alma ávida do momento.

com que me és inspiração perene e presente.

o teu beijo de boa tarde Graça.
______________________________.

[querida, sempre. não esqueço ;)]

Paola disse...

E que dizer, minha amiga, que não não o que te disse já? Ai, quem me dera estar lá. E ficar! Finemos lá... na interrupção do sossego...

Beijo abraçado

Paola disse...

De novo... sem gralhas...

E que dizer, minha amiga, que não o que te disse já? Ai, quem me dera estar lá. E ficar! Fiquemos lá... na interrupção do sossego...

Beijo abraçado

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

O seu texto é lindo, Graça, fiquei muito emocionada. As memórias da infância, sobretudo se ligadas a uma pessoa tão querida, são aternas. Nem mesmo velhinha, você as perderá.
Hoje, tudo o que postei é especialmente para você, pois já tinha vindo aqui e espiado, e vi tanta sensibilidade que me comovi tanto que não pude conter as lágrimas.
Não deixe de vir hoje, amiga.
Saiba que temos os mesmos gostos.
Um beijo,
Renata

f@ disse...

Olá Graça,
ensaio encantado... a magia das tuas palavras sempre...
agora a melodia deste ensaio que abre a caixinha dos afectos únicos...
mto bonito ... é mto bom ler-te...

Imenso beijinho

BANDEIRAS disse...

Memórias da infância....essas, jamais esqueceremos.

Obrigada pela visita

Bjs

o que me vier à real gana disse...

Graça, muitas chaves devia ter ELE... acredito! Usou, porque já te sabia, as adequadas.

PS e como tu ensaias tão bem... até estas influências tipo "dominó"!

Bj

Tchi disse...

Legado extraordinário o do teu berço paterno.

O Profeta disse...

Encantado..fiquei...


Doce beijo

isabel mendes ferreira disse...

deus que beleza....que paz....que prazer.



.




obrigada G.




por tanto.

Nilson Barcelli disse...

Querida Graça, tem um óptimo resto de semana.
Beijo.

neo-orkuteiro disse...

Achei este texto-depoimento fascinante e muito bem escrito. Encerra o senso estético que no cultivo se adquire e mantém sempre mais apurado. Há um paralelo com uma canção francesa de que gosto bastante, La Mariza. A relação entre uma menina, um pai e uma música, exposta em forma de reminiscências dela, da menina. Tudo que ver, para mim.
Do Brasil, meus parabéns por mais esta sua teatrice.

Paulo disse...

Então, Graça?
Nada de novo? Sabes que eu acho que me lembro daquele fado? Nas nossas directas de estudantes...

Beijo, querida amiga

Mar Arável disse...

Boas memórias

Encantado

Bjs

JotaSP disse...

Querida Graça,

Que bonita fotografia e gosto muito, também, da força toda que esta frase contém "Domingo era o dia do meu pai"!

Boa noite e desculpa se não te visito mais e melhor.
Beijinhos «««

lili laranjo disse...

Graça...


Mais um sorriso teu...obrigada poe estares sempre...
deixo com cariho...

O riso e o sorriso


O riso e o sorriso
A flor e a pétala
As palavras são palavras
Que suavizam o pensamento...

No reverso da medalha
A medalha no reverso
As palavras são palavras
E servem para suavizar...


Lili Laranjo

mundo azul disse...

________________________________


...seu pai despertou bem cedo a sua sensibilidade afinada...

Que maravilha! Que cumplicidade...Que Deus os abençoe, sempre!

Beijos de luz e o meu carinho MUITO especial!!!

________________________________

Brancamar disse...

Foi bom ler-te, aqui, Graça!
Que infância feliz e bela!
Bem haja o teu pai por tanto que te transmitiu e por tanto que nos dás.
Beijinhos eternos.
Branca

Brancamar disse...

Voltei, porque esta gaivota que se reflete no rio, é uma interessantíssima fotografia, que me fez lembrar o estuário do meu rio Douro.
Parabéns ao Sérgio.
Beijos outra vez.
Branca

Gusto Vibe disse...

Se pudeste ver a lágrima nos meus olhos, não só por lembrar do meu querido pai, que foste cedo demais, e sim por lembrar de minha filha, que também ouve minha músicas predilectas só para alegrar-me. Entro no universo de suas brincadeiras também, e com extrema felicidade, volto a ter três anos de idade.

Vibrações Inteligentes...
Abraços...

Gusto

lupussignatus disse...

o cume

da

ternura