Ensaio pelo Desassossego...

(Graça)


Quando o pano se fecha, no final de uma peça, ainda ao som dos aplausos, um breve silêncio atravessa o palco. É o momento em que cada actor sente o vazio do despir da personagem, como se as palavras tivessem fugido. Esgotadas por tanto sentimento pronunciado.

Todos os dias, fecho o pano do meu palco e vivo esse momento na expectativa de que seja breve. Mas se, por acaso, as minhas palavras resistem em voltar, procuro-as, desassossegadamente... nas palavras de outros.

"Tenho neste momento tantos pensamentos fundamentais, tantas coisas verdadeiramente metafísicas que dizer, que me canso de repente, e decido não escrever mais, não pensar mais, mas deixar que a febre de dizer me dê sono, e eu faça festas com os olhos fechados como a um gato, a tudo quanto poderia ser dito." (Bernardo Soares)

E encontro-as... sempre [como hoje].

22 comentários:

Brancamar disse...

Querida Graça,

Lindo, como sempre este teu ensaio! Às vezes fico como agora sem saber que escrever, que seja capaz de traduzir a beleza que encontro nos sentimentos aqui descritos, nos momentos de vida, que passam por tantos de nós.
É sempre tão bom o que nos dás a ler e Bernardo Soares vem tão ao meu encontro, por estes dias! Às vezes é preciso fazer festas, assim em silêncio, ao mais íntimo de nós,porque nada que possamos dizer nesse momento sai completo, é preciso ficarmos inteiros de novo, para fazer jorrar as palavras com sentido.
Que bom que as encontras, que bom encontrá-las cheias de vida!
Beijinhos
Branca

Paola disse...

... e quem melhor para te dizer [no silêncio das palavras que te afagam, porque as disseste já]... o instante existe...

" Tenho vontade de erguer os braços e gritar coisas de uma selvageria ignorada, de dizer palavras aos mistérios altos, de afirmar uma nova personalidade larga aos grandes espaços da matéria vazia.

Mas recolho-me e abrando-me. "Sou do tamanho do que vejo!" E a frase fica sendo-me a alma inteira, encosto a ela todas as emoções que sinto, e sobre mim, por dentro, como sobre a cidade por fora, cai a paz indecifrável do luar duro que começa largo com o anoitecer."

Rasga a janela...

Beijo abraçado, amiga.

preto [e] branco disse...

As Palavras apaixonam quem com elas passeia sentimentos. As palavras enchem a mente afastando a desordem de sentidos que se misturam e nos afastam dos prazeres brilhantes de uma vida, de um palco, onde todos os dias somos personagens de uma realidade ainda, por vezes, por viver.
Acredito e sinto o teu silêncio e o teu olhar, enquanto assistes ao fechar de um pano no palco.

bj...nho
sérgio

A.S. disse...

Graça,

O palco está para lá de tudo quanto possamos ver. escuro vórtice, onde a luz se esvai. somos actores cegos. de tudo. actuando de improviso. sem guião.
é este o intenso medo, não pelas sugestões do vazio... mas pela pouca luz que nos cerca. mas os gatos vêm bem na escuridão. aproximam-se. ternos. meigos. oferecendo-nos o seu pelo macio para umas caricias!


Beijos...

f@ disse...

Gracinha nem te vou ler...
só deixar um beijinho.... desassossego não ....
a tua imagem sossega-me
imenso vermelho das palavras...
imenso beijinho

f@ disse...

Gracita afinal não resisti a ler-te e ainda bem....
Sigo e sinto os dois...in quieta... no rom rom e nos miaus...


imenso beijinho

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Graça, querida, não tenho condições psicológicas para comentar o seu posts. Fechei o TRISTÃO e o Jorge brigou comigo. Estou péssima.
Então, agora tenho outro Blog. O nome é AMOR: http://blogrenataamorr.blogspot.com
Vai ser como o Feminina, só um pouco mais intimista.
Dê uma força para essa amiga.
Beijos,
Renata

isabel mendes ferreira disse...

posso levar a ft?


posso?

só levo se disser que sim...:)


e assim se resiste ao desassossego maior. aquele que sendo criativo é tb ferida. tantas vezes.


o meu beijo.


agradecido.

ângela marques disse...

não acharemos nós sempre aqukilo que procuramos?...

beijo, Graça

ângela marques disse...

:)))) peço desculpa pela gralha: "aquilo", claro

Anónimo disse...

Mesmo que as palavras ficassem por dizer, o silêncio (o teu) trai-las-ía.
Beijo
Emília

Paulo disse...

Sabes, querida? Ficam-me as palavras de Pessoa, que tento ler como tuas. Tens tanto para dizer que te calas? Tu nunca te calas. Nunca te faltam palavras. Ou estou enganado? O pano só fecha para tornar a abrir, e o vazio do silêncio é o momento antes da explosão da palavra. Diz, Graça, sempre.

Beijo grande com saudade

PJB

porfirio disse...

.
.

bom apontamento.

... e gostei muito do que vi!

Mar Arável disse...

Nos palcos somos intemporais

mesmo com plateias em branco

Gostei de ti

Bjs

São disse...

Ser atriz dá uma paleta de vidas infinita, não é?
Abraços.

Anónimo disse...

obrigada Palco!



:)






imf.

Vieira Calado disse...

O Bernardo também fazia teatro.

O irmão era "um fingedor"

e o gato percebia toda a marosca!

Um beijinho, amiga!

lupussignatus disse...

a energia

da

inquietude

O Profeta disse...

No palco tal como na vida...


Doce beijo

Anónimo disse...

Decidiste não escrever mais?


:)



beijo no coração


Z.

Nilson Barcelli disse...

Que nunca te faltem palavras nem alguma vez tenhas necessidade de "fazer festas a tudo quanto poderias ter dito".
Ou seja, há pedras no sapato, por exemplo, que doem muito mais ao pé respectivo que a quem merece que as ditas lhe sejam atiradas...
Querida Graça, que os teus vazios, a existirem, sejam sempre breves como o teu pestanejar.
Uma noite boa para ti.
Beijo.

Brancamar disse...

Graça,

Não tendo lá no meu sítio uma flôr tua, também me está a apetecer "roubar" descaradamente esta foto. Se não gostares avisa, mas tem que ser agora para dar o efeito que pretendo.
Beijinho de boa noite.
Branca