Ensaio pelo "moinho"...

(foto de Luís)

Por estes dias, no palco da Língua Portuguesa, andamos ocupados com as palavras. Dito desta forma parece ridículo. Afinal, o que seria uma aula de Português sem palavras?

Clarifico. Iniciámos o estudo do texto poético! Sem poemas... ainda. Afinal, não se constrói uma casa sem tijolos... certo? Vestimos, então, o fato-macaco e metemos mãos à obra. Acarretámos tijolos...

Começámos pelas fundações, pelos alicerces do poema. As palavras! Fiadas de ladrilhos no chão da língua... Fizemos um pouco de tudo com as palavras... já as saboreámos nas suas doces sonoridades; sentimo-las no peso das oclusivas; arrastámo-las por campos consanguíneos; despimo-las de amarras semânticas; negámos a denotação e vestimo-las conotativamente... Temos tido muito trabalho! Felizmente.

Ora, hoje, resolvemos, aos poucos, juntá-las em expressões... idiomáticas, também. Lancei a primeira "beber as palavras"... saíram, quase em catadupa, mais algumas, explicadas pelos meus lindinhos: "medir as palavras", "ser de poucas palavras", "arrastar as palavras", "cortar a palavra", "dar a sua palavra", "mastigar as palavras"... e o desafio começou. Dirigi as perguntas: Que palavra "cortaria" da sua vida? Que palavra "arrastaria" por lhe ser pesada? As respostas foram surgindo, primeiro com estranheza, depois devidamente justificadas.

Até que nos centralizámos na pergunta: Que palavra moeria no seu "moinho" para lhe servir de alimento? [a Professora nunca facilita!] Reflectiram um pouco, e aventaram a lista das suas sementes: "sonho", "alegria", "amizade", "luz", "amor", "felicidade"... Quase no final de todos terem alimentado o seu "moinho", um dos meus lindinhos, oriundo da Guiné, fugido há poucos anos a uma vida escrita a sangue de guerra, pronunciou, na sua voz meiga: "PAZ!". Todos conhecem a sua história... talvez por isso se tenha feito um momento de silêncio. Senti, por instantes, uma turma inteira feita vento, soprando nas velas do meu aluno-moinho... para que o alimento nunca lhe falte.

19 comentários:

Brancamar disse...

Bom dia Graça,

Fizeste-me chorar Graça, eu sou uma chorona com as necessidades humanas e a realização delas. O final do teu texto deixou-me uma comoção imensa.
Ontem à noite cheguei de ver um espectáculo numa Igrejinha muito antiga do Porto, perto da casa onde nasceu Almeida Garret, o espectáculo era sobre o Sermão de StºAntónio aos Peixes, tu ias adorar, deixo-te aqui um link de informação sobre isso.

http://www.tfa-portugal.com/

Parece não vir a propósito, mas vem, recordar assim os sermões do Padre António Vieira, é sentir ao vivo como eles estão sempre actuais e como a miséria humana se perpetua no tempo, mas felizmente há sempre moinhos de vento, que vão soprando esperança para que o alimento desse teu lindinho e de outros lindinhos vá chegando às suas vidas.
Acordei de manhã a pensar em ti e vim logo cá. Ontem depois de chegar do espectáculo, tinha lido o teu post e fiquei a meio por ter tido uma urgência com uma senhora de idade, despertou-me tanto que tive que vir acabar a leitura antes de ir trabalhar e ainda bem, preencheu já o meu dia e assim me vou com o teu menino na cabeça e na alma, a soprar muito vento nesse moinho de amor.
Beijos.
Branca

ângela marques disse...

tantas pedagogias inúteis, e aqui
tudo tão "simples" e tão eficaz...


beijo

f@ disse...

...Olá Graça,
…B E L O...
...
PAZ é a pa l a v r a com asas….
A que tem sonho e aleg r i a …amor e todas as outras que tocam aquela música que o vento espalha e embala o mundo…

Sublime teu ensaio… giram as palavras na roda que nos alimenta e enfarinha…
Beijinho gigante

preto [e] branco disse...

Este, maravilhoso, post é o exemplo de que as palavras não são apenas palavras e que o sentido das mesmas não é, sómente, aquele que aprendemos mas, o que lhes quisermos dar. Ensinaste os teus meninos a reflectir, sobre as palavras. Acredito que muitos aprenderão a dar-lhes valor.
Quanto ao teu "aluno-moinho"... ele expressa as muitas palavras a que foi sujeito, o quanto as sentiu na sua alma e a que mais faz sentido para alimentar o moinho.

bj...nho

Alexa disse...

Graça.
Paz talvez a coisa mais importante do mundo. que lindo aluno e que bela professora, beijocas

sideny disse...

Que exista sempre paz.

O que já é muito raro hoje em dia.


Linda foto.

Beijo

Paulo disse...

Minha querida Graça!

Às vezes parece que estou nas tuas aulas, com estes relatos que fazes. E que aulas. Se queres saber, no meu moinho moeria a palavra Teatrices, porque também me alimento aqui.

Beijo para ti Professora

PJB

Paola disse...

... e que palavras que te posso deixar, minha amiga? Se paz não é apenas uma palavra... nem um moinho um moinho... porque o teu menino, como tanta gente, não as tem... E do tanto que me nutre,enquanto me alimento, moo-te a ti...

Beijo abraçado

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Belo texto, Graça, se me permite tratá-la assim. Minha irmã Renata garantiu que eu encontrar boa leitura aqui. E é exatamente isso o que encontro.
Todas as palavras moídas pelos seus alunos expressam sentimentos que todos almejam, mas para quem vive no Inferno a palavra PAZ cala as demais.
Um abraço,
Otávio Cordeiro, até domingo, quando Renata regressa.

Nilson Barcelli disse...

Como sou auto-didacta, este teu post é quase uma aula.
Também faço perguntas do género a mim próprio quando escrevo. Mas nem sempre encontro as respostas com facilidade como os teus "lindinhos"... que falta me faz uma professora como tu...
Querida amiga, um bom fim de semana.
Beijos.

lili laranjo disse...

Graça um beijinho para ti...
e neste dia diferente deixo...


LIBERDADE


Liberdade…
Felicidade de ser…
Felicidade de estar…
Felicidade de saber ser…
Cortar amarras…
Deixar prisões…
E alargar o amor…
Para vencer a liberdade…

Ser livre e livre…
Estar solto…
E saber dar valor…
Ao melhor…
Que a vida lhe deu…
E que é tão pouco..
Pois é apenas…
A sua Liberdade…


Lili laranjo

Régis Castro disse...

Minha Querida Graça...

Quanta saudade pude "matar" lendo este texto maravilhoso...

Minha Querida... Que neste moinho de palavras que alimenta-nos a alma nunca nos falte palavras mágicas... (como assim minha professora chamava quando ainda fazia as séries iniciais, as palavras boas)...

Felicidades..

Régis Castro disse...

Minha Querida...

Quantas Saudades mesmo...

É verdade, as palavras não são minhas, mas de uma amiga minha...
Que também muito ama...
Estou vivendo sim... e Você se tornou pra mim uma referência como grande ser humana que é...

Obrigado por todas as palavras...

lua prateada disse...

Paz é a coisa mais preciosa tal como a saúde a pois uma sem a outra não está bem...
Passando para dizer :Vive de maneira a poderes aprender a amar,
ama de maneira a poderes aprender a viver.
Não necessitas de nenhuma outra lição...
E como o FDS está aí então que seja ele para expandires teu coraçao.
Beijinho prateado

SOL

o que me vier à real gana disse...

Graça, eh pá, acho k vou pedir para assistir a umas aulas tuas. Vou mesmo descer o Tejo!... Faz doutrina, tu, em Pedagogia, faz! Anda para aí cada "corrente" que é de bradar...
E depois, bem, e depois é aquele talento inato que faz com k cada aula tua - de certeza! - possa ser publicada como conto/ensaio; ficção/realidade... ei lá!
És um prodígio!

A propósito do outro dia, pois, por interpostos escritos serei discípulo dele, sim!

E "prontos" rsrsrs " Bj

Paulo - Intemporal disse...

__________________________________

vinte e cinco de abril de dois mil e nove
__________________________________

e porque são sei dizer melhor e se soubesse não saberia dizer assim, digo que,

"Há uma Justiça para ricos e outra para pobres, uma Justiça para famosos e outra para anónimos, como há Saúde e Educação diferentes para ricos e pobres. Cumprir Abril é uma questão de justiça. Já não podemos esperar mais 35 anos".

Paulo Baldaia

______________ para reflexão [...]

o teu beijo de abril olhos mil querida graça.

O Puma disse...

Belo

Simplesmente

25 de Abril

de novo

Mar Arável disse...

E assim

também assim

a poesia

em construção

Sunshine disse...

Graça

Ao ler este teu post só me surge um desejo intenso: o de poder ser uma aluna tua.

Que intensidade há em cada aula tua, é a vida que ensinas, é o ser que vais enformando ... os teus alunos são uns previligiados.

Bjinhos