Ensaio pela diferença...

(foto de Luís)


No palco, como na vida, gosto de ensinar aos meus alunos a respeitar diferenças. Digo no palco, porque visto, verdadeiramente, o papel de encenadora duas vezes na semana. Digo na vida, porque grande parte da semana deles é passada comigo. Serão mais de trezentas aulas, ao longo de um ano lectivo, só para a minha direcção de turma. Cada turma é um colectivo heterogéneo, no desenvolvimento de competências, nos ritmos de aprendizagem, na aplicação de conhecimentos. Cada grupo de "Aprendizes de Teatro" é um elenco diversificado nas capacidades mnemónicas, na expressividade interiorizada de uma personagem, na colocação da voz... Tento, por isso, transmitir a importância de não discriminar pela diferença... seja ela qual for.


Serve a introdução para relatar uma aula recente. Gosto de ler para os meus alunos. Um pouco de tudo. Naquele dia, levara esse conto "A arca do menino que inventava poetas". Uma belíssima narração sobre a vida de um menino chamado Fernando, que gostava de inventar outros meninos, poetas como ele, com quem passava os dias a conversar. Ouviram, com a atitude de quem gosta que lhes contem histórias. No final, quase todos identificaram a personagem como Fernando Pessoa. De repente, a pergunta: "Ó Professora, Fernando Pessoa era maluco, não era?". A minha lindinha ainda não interiorizou muito bem o meu ensinamento. Respeito-a, por isso. Porque respeito diferenças. [a aula não acabou aqui, óbvio, tinha muito a dizer à minha menina!... o ensaio sim, porque disse o que queria!]

14 comentários:

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

E fez muito bem em dizer o que queria, Graça. O Blog é seu, o post é seu, e ainda bem que vc disse que respeita as diferenças, pois para mim, no ensaio acima, me pareceu o contrário e, por isso, talvez eu tenha ferido a sua suscetibilidade.
Espero que você seja feliz não só como mulher, mas como ser humano, em todos os dias da sua vida.
Beijo carinhoso,
Renata

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Sorry! No ensaio abaixo: NO MASCULINO

Paulo disse...

Nunca percebi o que vês nesse doido desse Pessoa!(brincadeirinha :))

Já cá tinha estado... as diferenças ainda não estavam por aqui. Mas aposto que o que querias dizer é que não és crente. Adorei a fotografia.

Bjos

PJB

José Carlos Brandão disse...

De ensaio em ensaio faz-se a vida. Somos todos atores - com a máscara pregada à cara, como disse Fernando Pessoa.
Bjs.

isabel mendes ferreira disse...

"curvo-me"!!!!!





rasgada pela ft e pelo palco.

Paola disse...

Minha amiga,que bom é ser diferente de ti e abraçarmo-nos por isso...

Oiço o "sermão" daqui... pobre da "lindinha"... mas vamos lá a ver, o homem era mesmo "maluco"!!! Se não o fosse, não poderia ser tão admirável!

Beijo abraçado

Nilson Barcelli disse...

Eu faço coro com a tua lindinha da pergunta, porque também acho que o Fernando Pessoa não era uma pessoa normal. Era um visionário e, por isso, a tal lindinha não andará muito longe da verdade...
E gostei do post, como é óbvio.
Boa semana, beijo.

Régis Castro disse...

Devemos mais do que nunca respeitar as diferenças que formam a essência do mundo...

Ainda bem que somos diferentes Graças a Deus...

Andas sumida Querida Graça...

Beijos e Saudades todos os dias...

Mande o texto pra mim também ler pros meus queridos alunos...

Saudades, Muitas....

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Graça:
Postei em todos os meus Blogs. Não se preocupe porque são posts pequenos. No Tristão, duas fotos e uma fala. mas no Gótico, tenho certeza de que vai dar boas risadas. Só não postei, é óbvio, no Galeria e no Doces Poesias.
Beijos,
Renata

Carlo Rochas disse...

Evitar em enlouquecer por se viver num mundo de loucos, é a força que temos de ter a cada dia, preservar-nos da incoerência de sermos quem não somos. Se a espontaneidade de sentir é mera incidência, “ir” racionalmente transcrita por um qualquer Lacan, Freud ou ainda Lorenz. A “Inte” “ligencia”, não nos é natural, é algo como a memória, o comportamento, a devoção, a cultura, o trabalho, a simpatia, a educação, temos que a praticar diariamente.

Beijo sereno Graça.

Paulo - Intemporal disse...

:)

à tua menina dir-lhe-ias que sim, que era sim, maluco, tão maluco ao ponto de ser único no universo inteiro, na via láctea e no infinito.

E tudo apenas ou tão somente porque a escrita saía-lhe directa da alma, que em linha recta prolongava o corpo e o espírito.

E prolonga [...]

Porque ser-SE maluco é ser-SE do tanto avesso que existe em nós.

E beijo-TE ______________________.

[ADOREI este post]

preto [e] branco disse...

Começo por dizer que, Gostei deste teu post.

Quanto ao teu palco, todos os dias, há deixas que não condizem e nos espantam. Mas...desta vez, a ignorância de alguém que está a aprender. De alguém em que o sentido das suas palavras, ainda não combina com o sentimento. É a curiosidade na sua pureza, fruto, provávelmente, de palavras mal entendidas.

Já agora, se Fernando Pessoa foi "maluco", então que eu tenha aprendido um pouco da sua maluquisse e tenha o prazer de o desfrutar.

até

f@ disse...

Decerto que a tua menina ainda vai devorar toda a obra...
...
e nunca + se esquecerá dos teus ensaios...

belos

Beijinhos

Brancamar disse...

Adorei este ensaio Graça! Tinha perdido este post, mas não podia deixar de o comentar, porque gosto de Fernando Pessoa (quem não gosta?) e porque adoro as perguntas surpreendentes dos teus alunos.
Imagino que com as tuas aulas também eles irão ficar marcados por ele toda a vida. E tenho a certeza que a tua lindinha, a seu tempo vai interiorizar bem isso, ou não tivesse uma pprofessora como tu.
Beijinhos
Branca