Ensaio repetido...

(de Carlo Rochas)

Hoje, porque estou vazia, repito palavras... Há momentos em que acredito, inocentemente, que se as dissermos muitas vezes, elas tornar-se-ão verdade...


Parece que, um dia, Fernando Pessoa disse, ou escreveu, algo como "Pedras no caminho? Guardo todas. Um dia vou construir um castelo."

Conheço quem não goste do Poeta (com maiúscula, sim, porque o Poeta). Provavelmente, pela dificuldade de denotar as suas palavras, de entender as razões da complexidade do seu pensamento. Mas, quando lemos 'ditos', como o citado, devíamos imaginá-lo, sozinho, numa qualquer noite de Outono, sentindo, na antítese, as alegrias e as amarguras da vida. Sendo Pessoa, simplesmente pessoa, enfim.

Quanto mais leio este grande fazedor de palavras, mais o respeito e admiro. Muito do que escreveu poderia figurar como exposição/conflito/desenlace de qualquer 'peça' humana. No fundo, mais não fez do que procurar, como numa verdadeira demanda, a felicidade. Não é isso que todos queremos alcançar?

Se, nesse contínuo procurar, encontramos obstáculos, pedras, pedragulhos, penedos, montanhas duras e frias, desistimos? Não pegamos em rosas, porque têm espinhos? Não gostamos de cactos, porque picam?

Olhemos a vida como um desafio. Tornemo-nos autores da nossa história. Sejamos Cavaleiros andantes, de espada em punho, derrubando dragões imaginários... e outros não. Não tenhamos medo dos sentimentos...

A felicidade que todos almejam só pode residir no interior de cada um. Na capacidade de ver óasis, na imensidão do deserto. Na coragem de aceitar um 'não', sem o sentir como florete rasgando a carne. Na valentia de recusar a vitimização fácil.

Guardemos as pedras que aparecem no nosso caminho. Servem como ensinamentos nesta nossa vivência. Porque o mais importante é mesmo a própria vida... Esse Castelo erigido pela força das pedras que apanhámos, ao andar por aí.

E não tenhamos pejo em reconhecer que até um cacto tem a sua beleza! Que seja mais um adereço no cenário desta minha peça feliz!
(tão vazia... tão vazia... que até alguém teve de me alertar para o facto de a frase nem ser de Pessoa.)

9 comentários:

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

É de Pessoa sim, tenho até um marcador nas suas Obras Completas. Também achava que não era dele, mas é. Linda, vc está linda no retrato do Carlo. Ele consegue representar a nossa beleza interna e externa e eu te vejo exatamente como ele te representou. Graça, a maioria dos livros que traduzi com direitos autorais são exportados para Portugal e fiz uma Pequena Antologia de Poemas Franceses - de François Villon a Fernando Pessoa. Traduzi um poema que Pessoa fez em francês pouco antes de morrer. Incluí alguns poetas quebequenses. A Editora é a Landy, que estou processando porque me deve um dinheirão, que daria para eu nunca mais trabalhar na vida, em direitos autorais. Mas a edição está bem cuidada, fui eu que selecionei os poemas, que traduzi "Carpe diem" por "colha o dia" porque disse que uma antologia é um buquê e cada poema é uma flor, escolhi a capa e dei o livro com a imagem para a capista, que não me devolveu. Há alguns gatinhos, como sempre. Bom, chega de falar.
Querida:
Devido a problemas de foro íntimo, não sei quando poderei postar, por isso postei hoje. Há novidades. E virei para conferir se estão indo visitar-me. Apareça.
Um abraço,
Renata
wwwrenatacordeiro.blogspot.com

Paola disse...

E é exactamente porque reconheço às "pedras, pedragulhos, penedos, montanhas duras e frias...rosas... cactos" o direito de existir, que lhes tenho que dar espaço...para minha tranquilidade. E delas também! Até "Porque o mais importante é mesmo a própria vida..."

O Profeta disse...

Porque...o Poeta nunca morre, só se afasta um bocadinho...


Doce beijo

Carlo Rochas disse...

Giríssimo de como a Rê teve a sensação. Sinceras desculpas por não ter respondido aos seus comentários no blog umbra… é que nunca pensei que coloca-se por lá algum. É assim, tenho imenso sobre constelações, mas vou fazendo um apanhado para ter a certeza de não esquecer nada… é que o meu tema para a exposição acordado desde há cerca de dois meses é mesmo a historia, mitologia e física ligada à astronomia, é evidente que o tema é quase sem fim. Já este verão tive algumas passagens furtivas em conferencias sobre vários temas específicos que conheço com maior rigor.. mas como sempre de forma compulsiva, espero fazer as mesmas intervenções aquando das exposições, mas desta vez apenas com o apoio de um projector e algumas intervenções de astrónomos ou historiadores com quem entrei em contacto desde que surgiu a ideia de constituir um agrupamento de 48 telas , que imaginava teriam uma dimensão média, mas que juntas e colocadas num tecto ( as telas não serão expostas numa parede), devem fazer uma elipse com um eixo menor de 15 metros. Excelente fim de semana. Aproveite.

Beijo.

Paulo disse...

É giro sim, no retrato até podias ser tu, há uns 20 anos atrás.
Todos guardamos as nossas pedras, minha amiga. Bom fim de semana.
Bjo.
PJB

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Graça:
Eu precisava sair, pois tomava muito o meu tempo e tenho muito o que fazer. Ao mesmo tempo, quero voltar, mas não já.
O título do livro é:
Pequena Antologia de Poemas Franceses - de François Villon a Fernando Pessoa. Editora Landy, 2002.
Beijo, amiga, já estou com saudades,
Renata

"giacomo" disse...

GMV,
Olá,
Um cacto tem a sua (dele) graça sim... até o binómio de Newton a tem, "há é pouca gente para dar por isso", cito de memória.
Cheguei aqui a partir de Poemascancoes de RC, curioso de ver se encontraria retrato de si por CR...
Encontrei-o e acabei por ler uma quantidade de seus posts.
Comovem-me pessoas que acreditam - no trabalho que fazem, na arte que apreciam, na fé que têm... -- compensação talvez do meu cepticismo natural.
"Embalar a vida até que adormeça" -e sonhe o mesmo sonho que sonhamos nós.
desculpe comentar post-passado, mas é que sou mesmo an-acrónico...

Seja feliz
jorge ("giacomo" é máscara usada em ex-blogs)

GMV disse...

Obrigada Jorge pela passagem e pelas palavras.

Anónimo disse...

ler todo o blog, muito bom