Agrilhoada?

(Gustave Moreau - Prometheus)
Há quem sinta uma vontade intrínseca de se sentar na plateia da vida e reflectir. Sentir-se cómodo, na cadeira de veludo, e pensar maduramente no que se passa no palco. Há quem tenha essa simples capacidade de se abstrair, por momentos, do seu papel, para ponderar os efeitos da representação em nome próprio.

Dito por outras palavras, existem pessoas que olham para o pretérito criticamente, na procura do ensinamento futuro. Ou melhor ainda, o mundo está cheio de pessoas preocupadas em responder às chamadas dúvidas existenciais. De onde viemos? Para onde vamos? O que fazemos aqui?

Apesar de não poder fugir à cadeira de veludo, confesso que não me sinto tentada a olhar o passado, muito menos almejo resposta a perguntas existenciais. Prefiro vivenciar o presente com a beleza do desconhecido, sentir a força do tempo no agora, esperar que o meu porvir seja o momento actual.

No entanto, hoje dei por mim num estado de pura introspecção. Mirei-me nesta interioridade rabiscada a sentimentos, tantas vezes escondidos... Contemplei-me numa alma espelhada a dúvidas, tantas vezes por esclarecer... Encarei-me na frieza de pensamentos, tantas vezes desordenados. Vi-me!

Ao observar criticamente o meu palco, não resisti a pensar nesse Prometeu Agrilhoado. A tragédia de Ésquilo ganhou forma por trás de um pano de cena, tão gasto! por ser ininterruptamente aberto e fechado. Tal como essa personagem, castigada por tempo infinito, não me apetece a submissão. Nego a vontade das entidades superiores que insistem em me agrilhoar. Revolto-me, nem que para isso tenha de suportar a dor.

Hoje, dei por mim num estado de pura introspecção. Vi-me. E decidi. Continuarei a ser quem sou! Não obstante as águias...

8 comentários:

Nilson Barcelli disse...

Devias gostar das águias... eu gosto, principalmente daquela que aterra no estádio da Luz antes dos jogos... eheheh...
Deixando de lado a ironia, todos temos esses momentos em que somos espectadores de nós mesmos.
Mas não te deixes agrilhoar.
Ou melhor, para o caso da impossibilidade, não te sintas agrilhoada.
Tudo é tão relativo... no mundo do trabalho, por exemplo, toda a gente que é profissional a sério faz coisas com as quais não concorda. O mais importante, nestes casos, é não fazer um drama à volta do assunto. Isto é, podemos sempre transportar o palco para outros contextos e fazer de actor bem disposto. Porque isso também pde representar maior dificuldade em sermos (e/ou sentirmo-nos)agrilhoados.
Enfim, tenho uma tese meio absurda que muitas vezes o efeito consegue alterar as causas... ou seja, cortar as asas às águias... menos a vermelha...
Beijinhos.

sagher disse...

somos sempre nós, quando ousamos "ser"

Paulo disse...

Continua a ser quem és. Apesar das águias... (sabes que eu prefiro dragões).
Beijos, querida amiga.
PJB

sp disse...

"interioridade rabiscada"

és tão profunda que não fazes rabiscos... só se for para atingires outras perfeições!

bjinhos assim!

Vieira Calado disse...

"um estado de pura introspecção."

Todos nós o devíamos fazer.Pelo menos... de vez em quando.
Gostei do seu texto.

Bjs

Sunshine disse...

Olá!!

Também eu me sinto, agrilhoada, também olho o meu palco, a minha vida, e sinto que há tanta coisa que me prende a um teatro sem sentido.

Isto por aqui anda um bocado sombrio.... mas vai passar :)

Um bom fim-de-semana para ti e um obrigado pelos teus "rabiscos" que fazem tão bem.

Bem hajas.

Bjs carinhoso

PS: Não obstante... continuo a ser quem sou. mas com leões :)

Paola disse...

Confesso que me sinto tentada a olhar um passado que amei e que atirou para aqui... para um presente povoado de abutres que não me deixam ser quem sou. Que me violam vontades. A águia, mesmo sendo de rapina, sempre a pinto de vermelho...

Mil beijinhos

Marta disse...

Olá, venho dar a conhecer o meu novo blog, apos alguns dias para ficar tudo bem decidi começar com ele hoje, espero que goste de o visitar e que faça parte dos seus favoritos... com o tempos darei a conhecer o que gosto de fazer - Escrever..

Beijos e boa visita.