Ensaio sobre o futuro...

(Serra da Estrela - foto de Marina)
Noutros tempos, quando se perguntava a um aluno, no início do ano, o que ele perspectivava para o seu futuro, havia um momento de reflexão, mas saía sempre uma resposta. Cheia de sonhos, de desejos, de destinos construídos na ignorância do que nos espera no tempo que há-de vir.

Noutros tempos, o início das aulas trazia a alegria, difícil de esconder, do reencontro, do estrear dos cadernos novos, da sede de aprender, do querer ser alguém. Nem que fosse tão somente alguém aluno!

Os tempos mudaram. Assisto a esta perda de interesse - pela própria vida - com alguma desilusão. Afinal, é de vida que falamos. A existência é indiferente para estes jovens? Não se ambicionam metas positivas? Não se imagina o dia de amanhã?

Perguntei. Hoje. Uns encolheram os ombros, outros, muito a medo, lá foram dizendo que ainda não pensaram muito nisso, outros ainda, mais extrovertidos, responderam que depois logo se vê.

Ignorei. Falei-lhes dos caminhos tortuosos da vida... da rocha dura e fria, traiçoeira... da dificuldade da subida... do esforço do equilíbrio... da importância de não escorregar... da atenção que se deve ter ao caminho... Claro que era uma imagem, um conjunto de metáforas, algumas autênticas hipérboles, do que será o nosso ano lectivo. Gosto de falar. Continuei. Falei-lhes da sensação de vitória, quando se atinge o cume; da realização sentida só por chegar; da beleza ao ver as nuvens por baixo do nosso olhar; do agradecimento verdadeiro por termos companhia no caminho; das abençoadas dores nas pernas que nos relembram, a cada passo, que o esforço foi nosso.

Assim, no abstracto, não sei se a mensagem chegou. No fundo, eu só estava a relatar uma subida ao ponto mais alto de Portugal, outras vezes vivido com jovens como eles.

No final do ano, tornarei a perguntar... na ilusão de que a atitude perante a própria vida tenha modificado... na ilusão de que haja um futuro!

16 comentários:

sp disse...

Alguém que ensina a ver "as nuvens por baixo do nosso olhar" merece sentir o que quiser...

Um bjinho especial .

Carlo Rochas disse...

Querida amiga,

desalento? Fotografia tirada não muito longe do Cântaro Magno ou do Covão da Metade? Espero por lá passar ainda muitos anos (durante o Inverno não sei). Talvez o significado da pergunta tenha perdido algo no seu conceito. Talvez os alunos passando, hoje sejam os filhos de quem não perspectivou o que deseja ser, mas sim o quanto deseja ganhar.

Beijo sereno.

Diga-me se recorda quem disse “ esta nova geração é feita de preguiçosos e de desatentos”.

Ana disse...

E eu!... recordei como é feliz subir ao cume mais alto.

Beijos gooordos

Anónimo disse...

Mas há sempre alguém que nos faz sorrir e ter esperança!
Também eu pedi aos meus alunos que se apresentassem com algo mais do que a idade e a enumeração das disciplinas de que gostam ou não gostam... e tudo isto depois de eu própria me ter apresentado e falado do que realmente importa ter (e ser)no uso desta oportunidade excercional que é viver. Nada disseram para além do trivial mas... eis que lhes conto uma história, uma história de verdade: a origem feita criação científica de tudo e... foram 90 minutos de olhos abertos, ávidos, incrédulos também, cheios de questões e de expressões, enfim 90 minutos de uma aula que não era minha, com alunos que não serão meus mas que me deixaram sentir que ainda é tempo...
Dos teus, não tenho dúvidas que terão o privilégio de virem a olhar o percurso "vida" com a força que lhes dás de uma forma tão marcante. No final do ano já saberão dizer pelo que lutam.
Lá, do cume da Serra, os registos de memória são obviamente dos melhores.
Beijo
Emilia

GMV disse...

Hoje, só porque sim, vou responder à minha querida plateia.

SP, sou dada a "sentires", por baixo, ou por cima das nuvens. E também gosto de ensinar que o mais importante nem é o "destino", mas sim o modo como percorremos o caminho.
Que bom que te encontrei.
Bjs

GMV disse...

Querido Carlo,
naquele dia também estivemos no Covão... e foi tudo tão extraordinário. Continuo a acreditar nos meus alunos. A acreditar que eles encontrarão o seu destino... e eu terei sido uma mera placa indicativa do caminho.

Bjs para Paris...

GMV disse...

Até eu, Emília, adoraria ter estado na tua aula, que não tua, mas com a tua marca. Os meus olhos também se abririam desmesuradamente...também eu "beberia" as tuas palavras. Gosto tanto de aprender... contigo, sobre a vida.
Todo o carinho meu para ti.

GMV disse...

Minha companheira de todos os momentos, para quando outra subida? Para quando o ultrapassar dos nossos limites? Para quando um momento de partilha com os jovens a quem nos dedicamos de igual forma?
Espero-te, com saudade!
Beijo enorme (um pouco menos gordo, tá?)

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

São 3 horas da manhã. Mas como as coisas se acalmaram, fiz um post sobre um filme que todo mundo no mundo já viu e sempre vê de novo. Tirei aquele monte de flores e só deixei as do João. Esta postagem dá para ser bem apreciada.
Um abraço,
Renata
wwwrenatacordeiro.blogspot.com
Devido ao adiantado da hora e com os olhos fechando, não pude ler o seu post, mas voltarei e o lerei, prometo.

Paulo disse...

Ensinar também passa por aí, minha amiga, mostrar o verdadeiro mundo que existe fora de uma sala de aula.
Bjo
(já comentas comentários?)

GMV disse...

Renata,
obrigada pela sua visita. A porta estará sempre aberta para si.
Bjs

GMV disse...

Querido Paulo,
ensinar passa por tudo...
Os comentários foram uma excepção. Agradeço todas as palavras que aqui são deixadas, quer por aqueles que me conhecem (como tu), quer pelos outros que, não me conhecendo, partilham comigo alguns momentos da sua vida. E, às vezes, nem sei se mereço tão dedicadas palavras.
Um beijo grande com saudade.

sp disse...

querida gvm,

vê se tens tempo para postar...

bjinhos.

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Triste situação, Graça. Aqui no Brasil, nas escolas públicas, é a mesma coisa. Já nas escolas particulares, nas boas, acontece exatamente o contrário. Todos lêem, vão ao cinema, teatro, até à ópera juntos, e têm muitos sonhos. O meu sobrinho é assim, mas, ao mesmo tempo, ele tem os pés pregados no chão, dada a realidade do país, e à nossa família.
Mudando de um assunto extremamente importante, para outro nem tanto, gostaria muito que vc fosse apreciar o meu novo post, pois os outros foram feitos na tensão e saíram muito exagerados. Por favor, vá. Não me resta mais nada a fazer, a não ser ler e ver filmes, porque sofri uma intervenção cirúrgica na sexta, algo nada bom, retirei uma das trompas, cancerígena.
Mas deixemos isso de lado. Espero por vc. Não comente sobre a minha operação, ok?
Um beijo,

GMV disse...

Querido SP,
acabei de arranjar esse tempo...
Bj grande.

GMV disse...

Renata,
ainda bem que, no meio das suas preocupações, conseguiu arranjar um momento para vir ao meu "palco".
Um beijo, por isso também.