No intervalo: romarias...

(foto da net - constelação de escorpião)


É do conhecimento geral que, durante o mês de Agosto, há perto de 300 romarias no Alto Minho! Um exagero, bem sei... quer dizer, o reflexo de um país que se diz católico, por isso aproveita as férias para pedir perdão!

Não sou católica. Aliás, não sei que sou, porque nunca me dediquei a pensar muito nisso. Não gosto de religiões. Costumo dizer, em ar de brincadeira séria, que sou crente: creio em mim! Pretensão? Não sei.

Voltando às romarias. Acabei de chegar de mais uma. O que mais aprecio, nestas festas tão populares, é o fim do dia, ou o princípio da noite, ou a própria noite, quando, no escuro dos céus, estalam foguetes armados em arte de cor. As pessoas olham, talvez pela primeira vez no dia, para o alto. O fogo de artifício. Que ofusca por momentos a imensidão de um céu negro... a sua cor real. Aquela que permite ver constelações cheias de estrelas.

Quando era pequena, não havia electricidade aqui nestas paragens. O meu passatempo, à noite, era olhar o céu deitada ao relento. O meu pai, achando-se o maior conhecedor de astronomia, ia nomeando e apontando os desenhos no céu (hoje sei que inventando, também). Eu gostava dos nomes: Sete Estrelos, Três Marias, a Carroça... bem, eu olhava e contava. "Não se contam as estrelas!" dizia ele. Nunca perguntei porquê, mas o Santo aqui do pequeno burgo é dedicado a tirar cravos dos dedos (suponho que por muita gente apontar às estrelas).

Olhar o infinito céu é também um acto de crença. Uma espécie de veneração perante a essência do Universo. Perante o sentido da vida.

Voltando às romarias. Os andores saem em procissão. O folclore sapateia em estrado improvisado. As bandas tocam ao despique. Os bombos percorrem ruas rodeados de gigantones. O baile anima-se pela voz do grupo jovem e espanhol (quase tanto como o meu Benfica!). Comem-se farturas, roscas e papudos. Mas o que eu gosto mesmo é do fogo de artifício. Esse hino gritado em cor, que só tem beleza, porque a tela é o misterioso firmamento.

Quem vai a uma romaria minhota sabe que todas serão iguais. Contudo, tenta-se o maior número possível de festas. Uma espécie de colecção. Mas, cá para mim, ninguém me tira da ideia de que vão só para olhar o céu! Eu vou.


Boas romarias.

4 comentários:

Paulo Tomás Neves disse...

As romarias minhotas têm um charme especial, muito para pular :-), e deve ser consumida pelo menos uma por ano é a receita do médico para acabar com o stress

Boas romarias :-)

Paola disse...

Com o mar,

as curvas das ondas

e o dorso dum peixe ao luar

fiz uma deusa

que criou o mar.


(E depois deitei-me ao comprido

com o mistério resolvido.)

JGF

E sempre que eu acordo, vejo o que já lá estava...

Bjos

Paulo disse...

O meu pai também chamava carroça a cassiopeia, deve ser dos ares da terra.
Beijos
PJB

Carlo Rochas disse...

Uma rainha de Sabá apenas podia apresentar-se numa carroça, fosse ela das menos cinzeladas e douradas desta terra, atravessar os céus mesmo em noite de romaria não deve ser das caminhadas mais sossegadas. Em noite de romaria, costumava olhar para os pirilampos e juntar-me ao espírito de travessia, mas sempre embalado por uma Maria, da constelação , claro.

Beijo.