No intervalo: leituras...

(Foto de GMV)

No intervalo de uma peça de teatro, aproveita-se o tempo para os primeiros comentários, para antecipar finais, para beber café, comprar uma água, ou simplesmente tossir à vontade sem sentir o peso reprovador de plateias resistentes ao ar condicionado. (confesso: aconteceu-me uma vez no Trindade, durante essa obra magnífica que é Othelo)
Em casa, no intervalo de um filme que passe num qualquer canal da nossa televisão, dá para fazer quase tudo. O poder da publicidade quebra a ligação à história, às personagens, à imagem... muda-se de canal, várias vezes, diga-se, arruma-se a cozinha, faz-se um telefonema, enfim, quase que dá para ver outro filme.

Ao longo do ano, nos intervalos das preocupações, das alegrias, do trabalho, dos encontros, dos risos, do sono (que custa a chegar), aproveito para me dedicar à leitura.

De férias, entre os passeios, as viagens, as conversas, as animadas refeições, as caminhadas sem destino, leio e releio.

Dizia Umberto Eco que "a leitura é uma necessidade biológica da espécie". Ora, sendo eu dessa espécie, sinto-a a cada intervalo. A necessidade. Alimento-me de livros totalmente desconhecidos, encontrados perdidos numa prateleira de qualquer livraria; de livros sugeridos por amigos, ou mesmo alunos, que gostam de ler; de livros alvo de críticas nas revistas dedicadas à literatura; de livros de autores que aprendi a gostar, de autores que já nasci gostando...

A minha relação com a literatura é de amor ou ódio. Quando, por alguma razão do acaso, tropeço num autor desconhecido e gosto, será para a vida. O inverso é válido, não gosto de Saramago, esse autor conhecido e reconhecido, será para a vida.

Vem este conjunto de pensamentos soltos a propósito das minhas últimas leituras, nos intervalos das minhas férias. Primeiro, convém dizer que gosto tanto de ler, como de reler. Aliás, considero que o amor a um autor tem de passar por esse acto de repetição, quase como numa relação pessoal... não se ama alguém por duas horas e depois arruma-se no móvel. No meio das minhas leituras, reli, então, um autor que muito aprecio, Mário de Sá Carneiro. Primeiro a poesia, porque, enfim... depois, uma novela extraordinária, A Loucura. Gosto de voltar a este pequeno livro, de vez em quando. Comprei-o, ainda andava na Faculdade. É um dos meus preferidos.
Hoje, alguém me emprestou um livro de uma autora que não conheço. Provavelmente, é um sucesso, ou não fosse a dita norte-americana. Se calhar, já deu filme, mas eu não conheço e, portanto, vou iniciar a leitura, no próximo intervalo, amanhã talvez. Neste momento, estou cansada da intensidade de mais um dia de férias para abrir o romance A Vida Secreta das Abelhas.

Neste palco de palavras, termino com Fernando Pessoa, "A literatura, como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta." Talvez por isso, porque a vida não basta, eu necessite de ler.

Boas leituras.

11 comentários:

Carlo Rochas disse...

Dos livros que era capaz de ler se o tempo o permitisse, tenho a certeza absoluta, depois de ter passado uma leitura em diagonal na versão original. Partilhei consigo o prazer da leitura, considerando sempre que qualquer leitura seja ela de que forma for é “leitura”, neste momento além da técnica, descubro todos os dias algo sobre o que vai fomentando o meu “trabalho” sobre as constelações, parece que passei de um simples observador das noites serranas, com ou sem telescópio, a um demente atraído por tudo o que possa estar de perto ou de longe ligado ao tema. Seja ele de forma histórica, mitológica, física. nem sei quanto mais. Mas realmente interessante…

É com muito gosto que, claro, lhe disponibilizo tudo o que posso colocar no Colorabilis, e não deixo de sublinhar, que estou sempre disposto a receber fotografias, é sempre um prazer. Talvez, e com algumas reticencias, um dia passe alguns destes esboços , ou possivelmente outros modelos para tela.. a ideia esta mais ou menos definida, espero é aguentar até lá.

Beijo sereno para ti. E muito obrigado pela sua paciência.

Carlo Rochas disse...

Erratum " para si"

instantes e momentos disse...

Ler, é ter certeza, é ver, é chegar.
Parabens pelo teu blog.
Belo fim de semana.
Maurizio

rouxinol de Bernardim disse...

Ler é caminhar na estrada da vida pisando um chão de letras.

Anónimo disse...

Não conheço esse livro Loucura, mas vou procurar.
Beijo, amiga.
PJB

Paola disse...

... e como nós sabemos que a leitura é um percurso! E como estariam vazias de ler as pastas e malas que carregamos por aí...

Bjos

Paulo Tomás Neves disse...

«Dizia Umberto Eco que "a leitura é uma necessidade biológica da espécie".»
Não conhecia este dito e gostei. E gostei muito deste post, porque na verdade a vida não basta e também há vida nos livros, e viagens, e seres muitas vezes mais reais que o quotidiano.
Boa semana

LFM disse...

Hoje fui ver uma pequena representação do Fausto com a minha filha, ao largo do Teatro S. Carlos.
Foi giro, mas como explico eu o Fausto a uma criança de 9 anos?

O Profeta disse...

Ai quem me dera agitar o tempo
Atirar a mágoa à voragem da noite
Arrancar as raízes ao pensamento
Sentir a paz que uma lagoa acolhe


Boa férias


Mágico beijo

Carlo Rochas disse...

Querida amiga , logo que possível tentarei retribuir-lhe a simpatia, nem acredita que acho descabido , visto os esboços que faço serem apenas representações do que vejo e sinto, espero poder mostrar algo mais lá para a frente. Espero que esteja a aproveitar as féria da melhor forma… pelo menos aproveite “por dois”. Eu não lhe digo que é leitura é algo que partilhamos, quando cheguei aqui (fomos destacados para o norte da França, zona do Havre, nunca pensei encontrar, além da minha parte técnica, tanto de “humano” para ler e corresponder), cinco mil vidas para comentar, mas temos que resumir … e de tanto resumir, perdemos muitas vezes o ânimo…beijo sereno e boa continuação.

P.S.: aguardo com expectativa alguns dos seus escritos.

Klatuu o embuçado disse...

Olha, gastamos palavras, é tudo, a vida é sempre noutro lado...

«a filha da minha lavadeira», «a tabacaria defronte» etc.