Ensaio sobre representações


Quem me conhece, ou quem tem passado neste espaço de mim, sabe o quanto eu gosto de teatro. O verdadeiro. O Teatro. A minha ligação a esta manifestação artística passa por ser encenadora, por vezes cenógrafa, aderecista, sonoplasta, mas acima de tudo, dramaturga. O nome, de origem grega, soa a desactualizado e o drama já não é aquilo que era. Escrevo peças de teatro... com gosto.

Só existe algo que eu nunca fiz: representar! Sou péssima actriz. Nunca consegui deixar de ser eu, para assumir uma qualquer personagem. Por vezes, durante um ensaio, e na falta de algum dos meus actores, já subi ao palco, mas sei que não saí de mim. Continuei a ser o que sempre sou. Não sei fingir?

No palco da vida parece mais fácil. Ainda há pouco, depois do almoço, representei exemplarmente uma cena. Verdade. Merecia aplausos de pé!

Dei por mim a pensar que, ao longo de um dia de existência, representamos tão bem os nossos vários papéis. Somos contínuos actores. Fingimos magnificamente na vida.

O que me leva, então, a não gostar de subir ao palco e ser uma outra que não eu?

Resolvi afastar-me um pouco da minha companhia do repasto, do meu público, enfim! Desci a íngreme encosta e procurei o rio. Apetecia-me ficar só. Sem papéis, sem fingir, sem aplausos... "despir o fato".

O cenário natural embelezava o palco... perdi-me nos meus pensamentos, ao sabor do meu olhar.

O mais curioso foi a irónica resposta dada pela Natureza, às minhas silenciosas perguntas. De repente, percebi que estava a olhar não para o céu azul, mas para o reflexo do céu na água; não para as frondosas árvores, mas para o reflexo do verde na água; não para a ponte que me levaria para outro lado, mas para o reflexo desta passagem na água! E continuava tudo tão belo. O real e o reflexo do real confundiam-se.


(No Rio Coura)


Seria a minha resposta? No palco real serei o reflexo de mim? Fingir é ser verdadeiro? Se um actor é mais aplaudido, quanto maior for o seu fingimento, porque não o reconhecimento também no palco da vida, quando representamos os nossos papéis?

Tanta reflexão é fruto, sem dúvida, da ociosidade das férias!
De qualquer forma, as palavras do meu adorado Pessoa teriam simplificado este ensaio.
Ficam, para que conste que era só isto que me apetecia dizer...

Passam na rua os cortejos
Das pessoas existentes.
Algumas vão ter ensejos,
Outras vão mudar de fato,
E outras são inteligentes.

Não conheço ali ninguém.

Nem a mim eu me conheço.
Olho-os sem nenhum desdém.
Também vou mudar de fato.
Também vivo e também esqueço.

Passam na rua comigo,

E eu e eles somos nós.
Todos temos um abrigo,
Todos mudamos de fato,
Ai, mas somos nus a sós.

9 comentários:

Sunshine disse...

Olá amiga!!

De passagem para te agradecer a visita e dizer-te que o teu "olhar" é especial .... tens fotos lindissimas.

Bjs e continuação de boas férias (as minhas terminam esta semana)

Paulo disse...

Fernando Pessoa sempre certo. Somos nus a sós, sempre.
Beijo amiga

Anónimo disse...

Num dia de coisa nenhuma, só me apetece dizer que sim. Que somos e parecemos. E que nos admiramos por ser, do mesmo modo que estranhamos quando não somos.Todos mudamos de fato. Todos os dias. Várias vezes ao dia.

Beijinho
Paola

Antunes Ferreira disse...

LISBOA - PORTUGAL

Olá Gracinha!

Cheguei a este blogue por via da tua visita ao meu Travessa e do imeile tão gentil que me mandaste e que te agradeço. Cheguei, vi e… gostei. Está bem feito, está comunicativo, está agradável, está bonito – e está bem escrito. Esta é uma deformação profissional de um jornalista e dizem que escritor a caminho dos 67…, mas que continua bem-disposto, alegre, piadista, gozão, e – vivo.

Só uma anotaçãozinha: Durante 16 anos trabalhei no Diário de Notícias, o mais importante de Portugal, onde cheguei a Chefe da Redacção – sem motivo justificativo… pelo menos que eu desse com isso… E acabo de publicar – vejam lá para o que me deu a «provecta» idade… - o me(a)u primeiro livro de ficção «Morte na Picada», contos da guerra colonial em Angola (1966/68) em que, bem contra vontade, infelizmente participei como oficial miliciano.

Não sei se me estou a repetir. Se for assim - é a pdi... Se quiseres colaborar no Travessa, ficarei muito feliz. Podes enviar-me
colaboração. Basta um imeile / imilio (criações minhas e preciosas…) e já está. E se o quiseres divulgar a Amiga(o)s, ainda melhor. Tanto o blogue, como o imeile, tá? Muito obrigado

www.travessadoferreira.blogspot.com
ferreihenrique@gmail.com

Estou a implementar e desenvolver o projecto que tenho para o meu www.travessadoferreira.blogspot.com e que é conferir ao meu/vosso/NOSSO blogue a característica de PONTO DE ENCONTRO entre os Países fraternalmente ligados – Portugal e Brasil. E outros PALOP e etc…
Se me enviares o teu IMEILE, poderei enviar-te «coisas» que ache interessantes. Se, porém, não as quiseres, diz-me que eu paro logo. Sou muito bem-mandado (a minha mulher que o diga…) e muito obediente (cf. parênteses anterior). Abrações e queijinhos, convenientemente repartidos e distribuídos

– Desculpa por este comentário ser tão comprido e chato. Como a espada do D. Afonso Henriques…
- Já conheces o me(a)u «Morte na Picada» que acima menciono? Há quem diga que é muito bom. E até que é o melhor que se escreveu em Portugal sobre o tema. Dizem… Obviamente que não sou eu a dizê-lo… Só faltava… E também há quem tenha escrito que é SANGUE & SEXO… Malandrecos… Pelo sim, pelo não, compra-o.
Depois de o leres, se, por singular acaso, tiveres gostado dele, terás de comprar muitíssimos mais exemplares. São excelentes prendas de aniversários, casamentos, divórcios, baptizados, e datas como Natais, Carnavais, Anos Novos, Páscoas, Pentecostes, vinte e cincos de Abris, cincos de Outubro, dezes de Junhos. Até para funerais. Oferecer o «Morte» na morte fica bem em qualquer velório que se preze. E, além disso, recomenda-o, publicita-o, propagandeia-o, impinge-o aos Amigos, conhecidos, desconhecidos & outros, SARL. Os euros estão tão raros e... caros...
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A editora da obra é a Via Occidentalis (occidentalis@netcabo.pt) cujo site é www.via-occidentalis.blogs.sapo.pt. Neste blogue podem ser consultados mais dados sobre o livro, cujo preço de capa é € 14,70. ATENÇÃO: Pode ser comprado pela Internet.
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NOTA IMPORTANTE: Este texto de apreciação e informação é similar em todos os casos em que o utilizo. Digo isto, para quem não surjam dúvidas ou suspeitas sobre a repetição em diferentes blogues. E para que ninguém se sinta ludibriado – ou ofendido… Há feitios que… Mas, sublinho, apenas o uso quando o entendo, isto é, quando gosto mesmo dos que visito. Nos outros onde também vou, se não gosto, saio sem comentários. Há muitos mais. Aqui na terrinha diz-se que «se não gostas, põe na beirinha do prato…»

Nilson Barcelli disse...

Não conhecia o teu blogue. Gostei dos textos que li.
Sobre a representação, penso que, tal como qualquer arte, ela precisa de ser muito praticada. Facto que sucede bastante no dia a dia... ainda que quase sem guião...
Bom fim de semana.

Ana disse...

Sou um pequeno ser no meio da tua vasta plateia mas, numca duvides,grande admiradora do teu ser.
Mais uma vez me emulsionei com as tuas palavras.

beijos gordos de mim

O Profeta disse...

É uma delicia estar no teu palco...


Uma rosa breve
Uma hortênsia de alva cor
A terra molhada pelo sereno
Nos celeste paira um Açor

A madeira verde, a dança do fogo
O embalo do loureiro no vento, o alecrim
Um ribeiro de inquietas águas
Levam o perfume das mágoas em viagem sem fim


Convido-te a sentir a minha paleta de aromas


Mágico beijo

Carlo Rochas disse...

Querida amiga,

As vidas não são merecidas, nem muito menos perspectivadas. Muitas vezes descoloridas, quando menos esperadas, abrilhantadas pelas tonalidades que a água possa ter. Desbotadas nos momentos mais graciosos, e que se vai desfolhando de forma melancólica. Logo que tiver toda a disponibilidade mental, voltarei por aqui comentar, passarei matar a saudade.

Beijo sereno.

Raquel Vasconcelos disse...

A vida é por vezes uma encenação perfeita. Sair à rua e sorrir um milímetro a mais ou a menos conforme a pessoa com que nos deparamos. Dizer bom dia, obrigada, se faz favor... por vezes e porque sou tímida, fico cansada... aqui ou ali terei que sorrir, aqui ou ali não o desejava...
Analisas uma realidade... a vida é um palco e quantas vezes sem ponto, sem ensaios... não gosta que gaguejemos, que falhemos uma deixa...
Ou... serei eu que não o aceito?

Bj